
Armas Reais de D. Manuel I no Baluarte da Alcáçova do Castelo de Cima de Safim
Safim era no início do século XVI a principal praça portuguesa do Sul de Marrocos. Importante centro de comércio e porto de exportação dos produtos transportados pelas cáfilas que faziam escala em Marraquexe e dos cereais e gado da Duquela, adquiriu entre os anos de 1510 e 1516, correspondentes à capitania de Nuno Fernandes de Ataíde, um papel extremamente importante no plano político-estratégico das ambições de D. Manuel para a criação de um “Marrocos português”, ilusão alimentada por alguns partidários dessa utopia como Diogo de Azambuja, que o tempo se encarregaria de contrariar.
À importância económica, política e estratégica de Safim correspondeu uma importância simbólica no contexto religioso, acolhendo uma das três dioceses portuguesas em Marrocos, a única no chamado Marrocos Amarelo.
O seu estatuto e importância justificou a realização de obras de vulto na cidade que, apesar de ter estado apenas 34 anos em mãos portuguesas, apresenta um riquíssimo património de origem portuguesa que marca a imagem e estrutura do seu centro histórico, como está patente nesta frase de Vergilio Correia:
“Ο português conhecedor das cousas de arte e história do seu país que há duas dezenas de anos houvesse aportado a Çafim, teria sentido a rara sensação de se julgar diante de uma cidade quinhentista da sua terra.” (CORREIA 1923: 71)

Detalhe da carta Marochia de Livio Sanuto de 1588, Bibliothèque nationale de France
Dados históricos
Pouco sabemos sobre a fundação de Safi ou Asfi, existindo informações contraditórias. Uma suposta origem fenício-púnica da cidade é incerta, apesar de surgirem referências nesse sentido com base na Geographia de Ptolomeu que a identificaria com a feitoria de Oussadion, também referenciada ao Cabo Cantin, actual Cabo Beddouza, ou cartaginesa, identificando-a com Thymiaterion ou com Karikon Teichos, evocada no Periplus Hannonis e referida por Plínio o Velho na sua História Natural. (HANNO 1977: 25)
No entanto, A. Luquet identifica vários vestígios fenício-púnicos na região de Safi, concretamente sarcófagos talhados nas falésias no sítio de Hafira/Sidi Chachkal junto ao cabo Beddouza, hipogeus e vestígios de uma necrópole, hoje submersa pelas águas, em Sidi Bouzid e uma estátua dedicada a Poseidon em Jorf el Youdi que foi levada de Marrocos por europeus. (LUQUET 1973-75: 285-290)
Sobre o período romano, existem duas descobertas que relacionam Safi com Roma. Uma delas é um conjunto de moedas batidas na época de Constantino e Valentiniano, encontradas num terreno nos arredores da cidade. A outra refere-se a um conjunto de três inscrições na Porta da Ribeira ou Porta do Mar de Safi, registadas por A. Beaumier em meados do século XIX. (REBUFFAT 1974: 37)
A realidade étnica da região é bastante complexa e marcada por disputas sangrentas.
Os seus habitantes originais, tendo em conta que não existe informação anterior ao século XI, são Berberes do grupo Masmouda, divididos em três subgrupos, os Dukkala, cujo território se situava entre os rios Oum er-Rbia e Tensift, os Banu Maguir, que ocupavam as planícies a Sueste de Safi, e os Regraga, instalados na região da foz do Tensift. Estes subgrupos por sua vez subdividem-se em várias tribos. A partir do século XII instalam-se as primeiras tribos Árabes, os Khult e os Banu Sufyan, tendo os Khult evoluído para um processo de sedentarização, dando origem aos grupos Gharbia e Xarquia (Ocidental e Oriental), enquanto os Sufyan, por intermédio de uma facção chamada Banu Al-Harith começam a disputar as terras mais junto à Cordilheira do Atlas, expulsos pelos Khult. Os Chiadma, tribo berbere arabófona, cuja origem está no cruzamento de etnias locais com os Banu Maaqil imigrados do Yemen, surgem também no século XV, e partilham com os Regraga o território do Jbel Hadid. O último grupo a chegar são os ‘Abda, que se instalam na zona da foz do Rio Tensift. (BENHIMA 2003: 205-216)
Até à conquista Almorávida, a organização política da região é marcada pela existência de um reino berbere independente, o dos Berghwata, que professam uma variante berbere do Islão, e cujo território se estendia desde Salé até Safi. A conquista Almorávida beneficia do enfraquecimento das tribos berberes nas suas lutas contra os Berghwata e veio dinamizar Safi enquanto porto comercial e naval. Permitiu aos Almorávidas estabelecer contactos e trocas comerciais por via marítima com o Al-Andalus, exportando os excedentes de cereais, numa altura em que Aguz era ainda o principal porto da região. Mas essa supremacia de Aguz enquanto porto de Marraquexe foi-se perdendo e, em meados do século XII, Safi adquire esse estatuto, pelo aumento da sua actividade portuária e mercantil que impulsiona o seu desenvolvimento urbano. A importância de Safi foi também reforçada com o seu carácter de base naval Almorávida, no âmbito do projecto de Ali b. Yussuf de conquista das Ilhas Canárias, projecto que se esfumou com a sua morte. (BENHIMA 2003: 225-31)

A praia de Safi num postal antigo
El Bekri faz a primeira referência conhecida a Safi quando descreve a rota dos navios que transportam as mercadorias embarcadas no Rio Sus, dizendo que “de seguida fazem a rota de Amegdoul (Mogador), porto muito seguro que oferece um bom abrigo e que serve de porto a toda a província do Sus. Daí dirigem-se para Couz (Aguz), que é o porto de Aghmat e que tem um ribat ocupado por gente devota. De seguida chegam a Asfi”. (EL-BEKRI 1913: 202)
Segundo Al-Idrisi, o nome Asfi significa o meu pesar, devido a um episódio passado cuja história é demasiado longa para caber nesta descrição, mas que tem a ver com a ilha Jazirat al-Akhwayn al-Saxirayn, ou Ilha dos Irmãos Mágicos, situada frente à cidade, irmãos que atacavam os navios que por lá passavam, matavam os seus ocupantes e roubavam os seus bens. (AL-IDRISI 1999: 128)
Mais adiante refere que a cidade é um porto “onde se veem edifícios muito povoados por berberes Rejraja, Zawda e outros. Os navios transportam carregamentos quando é possível navegar e o oceano Tenebroso está calmo.” (AL-IDRISI 1999: 148)
A conquista Almóada da Duquela foi dura e sangrenta, já que as tribos Masmuda da planície, os Dukkala, Haskura, Hazmira, Hazraga, Ragraga, Haha e Sawda não apoiaram o movimento do Mahdi Ibn Tumart na sua luta contra os Almorávidas, contribuindo para confinar a região numa marginalidade social e política. A resistência Almorávida foi reforçada pelo potencial económico da região e a possibilidade que tinha de enfraquecer Marraquexe em termos de abastecimento de cereais. A Duquela seria a última região de Marrocos a ser conquistada pelos Almóadas com tropas comandadas pelo o próprio Abd El-Mumin. (BENHIMA 2003: 234 e 236)
No início do século XIII, a “reconquista” cristã da Península fez milhares de cativos muçulmanos, muitos dos quais foram resgatados através de pagamentos a partir de Marrocos. O Ribat de Abu Mohamed Salih em Safi teve um papel determinante na mobilização da cidade para esse contributo, que acolheu muitos novos habitantes. Nesse período foram também estabelecidos acordos comerciais com comerciantes ibéricos, provençais e italianos. Safi reforçou assim a sua importância económica. (BENHIMA 2003: 240-1)

Morabito de Sidi Chachkal, junto ao Cabo Beddouza
A conquista Merínida processou-se indirectamente, por intermédio dos Khult, expulsando para Marraquexe e para o Atlas o poder Almóada, apoiado pelos Sufyan,. Estes movimentos tribais foram acompanhados por um apoio dos Merínidas às confrarias Sufi do Sul de Marrocos, principalmente à de Safi, formando-se temporariamente seis Taifas (reinos independentes ou fraccionados) autónomas na região. A fundação da cidade de Almedina pelos Merínidas aconteceu neste período, como afirmação do poder central do Makhzen de Fez, contrariando as aspirações territoriais dos Emires Hintata na região, que, entretanto, se tinham apoderado de Marraquexe. Benhima identifica as principais confrarias, como sejam “os Shu‘aybiyun, discípulos de Abu Shu‘ayb al-Sariya em Azammur; os Sanhagiyun, dos Bani Amghar, de Tit; os Magriyun, discípulos de Abu Mohamed Salih; os peregrinos, igualmente afiliados a Abu Mohamed Salih; os Hahiyun, discípulos de Yahya b. ‘Umar al-Hahi; os Aghmatiyun, discípulos de Abu Zayd ‘Abd al-Rahman al-Hazmiri”. (BENHIMA 2003: 248-52)
A importância de Safi como principal porto de Marraquexe é também comentada por Leão o Africano, referindo que “a sua situação, segundo Ibn Sayd, é no fundo de um golfo formado pelo mar e serve de porto a Marraquexe”. (LÉON L’AFRICAIN 1896: 349)

Principais tribos da Duquela à data da ocupação portuguesa de Safi
No final do século XV, as tribos Árabes (Gharbia, Xarquia, ‘Abda e Banu Harith) dominavam a zona a Norte do Tensift, enquanto os principais grupos Berberes (Regraga, Chiadma e Haha) ocupavam o território entre o Tensift e o Alto Atlas.
O período da vassalagem
O facto de o poder Merínida se limitar ao Norte de Marrocos, de Marraquexe ter um governo próprio autónomo nas mãos dos Hintata e de todo o território a Sul do Rio Morbeia (Oued Oum Er-Rbia) ter um estatuto de autodeterminação das confrarias sufis e das tribos locais, favoreceu a entrada dos portugueses na região.
A chegada dos portugueses a Safi processou-se por via de um pedido de vassalagem feito pelo Alcaide Ahmed b. Ali, à Coroa Portuguesa logo após a conquista de Arzila em 1471, conquista que, segundo David Lopes, “encheu de pavor Marrocos, de norte a sul” pela violência e crueldade que os portugueses utilizaram. (LOPES 1989: 26)
A confirmação da vassalagem da cidade à Coroa Portuguesa está patente na carta que D. João II enviou a Ahmed b. Ali (Amadux), alcaide da cidade no ano de 1488. (LES SOURCES…1934: 25-30)
Os termos do acordo estão descritos por David Lopes, que refere que num período inicial foi pedida pelo alcaide da cidade a vassalagem e estabelecida uma feitoria na cidade, situação confirmada no referido diploma datado de 1488. “Por esse documento, o dito alcaide reconhecia e rei de Portugal como seu senhor, por si e por seus concidadãos, presentes e futuros, e prometia pagar de tributo, em Setembro de cada ano, 300 meticais de ouro, ou o seu valor em mercadorias, e dois cavalos bons; também dava casa forte e segura, ou lugar para isso, que servisse de residência aos feitores portugueses e de armazém às suas mercadorias; e, por fim, recebia a bandeira real e um atabaque, que o rei de Portugal lhe entregava, para simbolizar essa suserania. Por sua parte, o alcaide e os moradores da cidade e do seu termo, circulariam livremente por todos os domínios portugueses daquém e dalém mar e poderiam aí negociar, como os outros seus naturais e vassalos”. (LOPES 1989: 30)
Mas a presença da Feitoria portuguesa na cidade não era consensual e acicatava as lutas entre facções internas dos moradores, que os portugueses alimentavam. Progressivamente foram-se realizando obras no edifício, aumentando a sua área e fortificando-o, preparando-o para uma utilização militar. Numa carta de Pero Mendes a D. Manuel, dá-se conta da construção de mais um piso na Feitoria/Alfândega. (LES SOURCES…1934: 66-7)

Picture Elements, Inc. ISE/SSE
Projecto da Alfândega de Safi in Carta de Nuno Gato expondo ao rei retirar de Safim a gente vinda de Azamor, que logo enviou para Mazagão com a notícia da chegada dos mantimentos e ruína da Alfândega. ANTT Corpo Cronológico, P1, m. 20, doc. 71
A necessidade de ampliação da Alfândega está descrita num documento que refere que “as casas são tão pequenas” que se devem fazer “as ditas casas maiores e melhores e mais fortes”. (AS GAVETAS… 1964: 203-204)
A Feitoria foi assim preparando terreno à conquista da cidade, transformando-se progressivamente de estrutura comercial em estrutura militar, culminando em 1508 com um golpe que colocaria como capitão Diogo de Azambuja, que era já capitão do Castelo Real de Mogador.
A conquista da cidade correspondeu também a uma alteração da política marroquina de Portugal, já que D. Manuel era um adepto da ocupação directa, em detrimento dos acordos de vassalagem, e acreditava na criação de um Marrocos Português e na conquista de Marraquexe a partir de Safim enquanto principal base militar para esse objectivo.
Conquista da cidade
No ano de 1507 viveu-se um período de lutas entre facções internas que trouxeram grande instabilidade a Safim (LES SOURCES…1934: 145-50). Foi assassinado o alcaide da cidade, chamado Abdarramão, vassalo da Coroa Portuguesa. Os seus assassinos tomaram o poder e formaram um duunvirato para o seu governo. Um chamava-se Ali Ben Uaxán (Haliadux) e o outro Yahya Bentafufa (Iehabentafuf). Receosos de represálias, pediram auxílio a Diogo de Azambuja, o septuagenário capitão do Castelo Real de Mogador, “homem de experiência e manhoso” (LOPES 1989: 31). Azambuja acedeu ao pedido de auxílio e instalou-se na Feitoria, que à data já era uma verdadeira fortaleza.
Viveu-se então um período de grande instabilidade e luta pelo poder. Inicialmente, Ali Ben Uaxán veio para Portugal com Azambuja, ficando Bentafufa como alcaide de Safim. Bentafufa tomou posições dúbias, de certa forma compreensíveis, já que tinha que gerir interesses contraditórios — os dos moradores, que supostamente representava, com os dos portugueses, que o haviam apoiado na sua investidura como alcaide. Azambuja perdeu a confiança em Bentafufa e enviou Ali Ben Uaxán para o substituir. Bentafufa foi então enviado para Portugal, supostamente para ser castigado. Mas Ali Ben Uaxán também não correspondeu às expectativas que Azambuja depositara nele.
No ano de 1508, Azambuja provocou um incidente com os moradores como pretexto para se apoderar da cidade, numa acção que Vergílio Correia apelida de “velhacaria, com que os nossos guerreiros quinhentistas procediam” (CORREIA 1923: 75), o que aconteceu, expulsando Ali Ben Uaxán. O golpe realizado por Diogo de Azambuja foi apoiado por outros fidalgos, entre os quais Gonçalo Mendes Sacoto, Lopo Barriga, Nuno Gato e Diogo Mendes de Lagos, e pela Coroa Portuguesa, com a chegada de quatro navios vindos de Lisboa com 200 besteiros e espingardeiros. Os portugueses tinham como base a Feitoria e edifícios adjacentes, que ocuparam anteriormente, fazendo do conjunto uma verdadeira fortaleza junto ao mar. (GOIS 1926: II 52-9)
Mas o carácter violento e conflituoso de Azambuja originou queixas dos moradores ao rei de Portugal, patentes numa carta dos habitantes de Safim a D. Manuel, datada de 2 de Julho de 1509. Na carta dão conta que Diogo de Azambuja promoveu saques e destruições na cidade. Demoliu casas de moradores, a Mesquita do Cemitério e a Zauia de Sidi Bou Ali foram arrasadas, a Grande Mesquita foi pilhada e parcialmente destruída. Diogo de Azambuja tomou posse da Mesquita de Bab ech-Cha’b para seu uso pessoal, foram feitas destruições na Mesquita de Bab el-Bahr e na de Aourir. Os portugueses entravam nas casas impunemente, violavam mulheres e raparigas jovens, e roubavam o que queriam. Estes crimes puseram muitos dos habitantes em fuga, que abandonaram a cidade. (LES SOURCES…1934: 177-202)
D. Manuel substituiu nesse ano Azambuja por Pedro de Azevedo “que os moradores de Safim na mesma data louvam pela sua moderação e justiça. No ano seguinte, de 1510, foi nomeado para o cargo Nuno Fernandes de Ataíde, mas a sua nomeação definitiva é só de Julho de 1513, depois de grandes serviços prestados por ele, por isso como prémio deles”. (LOPES 1989: 31)
O velho Azambuja queixou-se que “o Rei o achara novo para conquistar a cidade e velho para a guardar”. (CORREIA 1923: 76)

Aglomerados urbanos da Duquela
A Duquela
A Duquela, em termos geográficos, era para os portugueses o território que abarca as regiões marroquinas de Doukkala-Abda e parte das de Marrakech-Tensift-El Haouz e Sous-Massa-Daraa, assim definidas no anterior quadro das regiões administrativas, e que no actual quadro da regionalização inclui parte das regiões de Casablanca-Settat, Marrakech-Safi e Souss-Massa.
A Duquela é geograficamente um território constituído por três grandes planícies férteis, a Dukkala, a ‘Abda e a Chiadma, contendo algumas elevações de média altitude, como o Jbel Hadid (Serra de Ferro), o Jbel Bani Maguir, e o Jbel Lakhdar (Serra Verde), e delimitada a Sul pelo Alto Atlas (os Montes Claros). É atravessada por dois rios importantes, o Oum Er-Rbia (Morbeia), que desagua em Azamor, e o Tensift, (Tenerife ou Rio de Aguz), que desagua em Souira Kadima. O clima é atlântico na costa e continental no interior, sendo em geral uma região com escassez de recursos hídricos. Apesar desse facto, tinha no século XVI várias florestas nas zonas mais altas e uma fauna variada, incluindo leões, lobos, gazelas, cabras, cervos, perdizes e patos. Os habitantes dedicavam-se ao cultivo dos cereais, à apanha do argão e à pastorícia de gado, sobretudo miúdo.
Nos textos portugueses é referido que a Duquela teria apenas duas cidades de importância significativa, Safim e Azamor, e duas outras de importância secundária, Tite e Almedina, sendo o restante aduares de carácter precário, como escreve David Lopes, afirmando que “nestes territórios, tirando as nossas praças, só havia duas povoações de alguma importância: Tite, entre Mazagão e o Cabo Branco, e Almedina, a Leste de Ualídia. Tudo o mais eram alcaimas, aduares ou adixares”. (LOPES 1989: 33)
O próprio documento de criação do distrito e diocese de Safim, através de bula “In apostolice dignitatis fastígio” de 1499, refere que o mesmo era composto por Azamor, Almedina, Tite, Mazagão e todos os lugares adjacentes. (IAN-TT, Bulas, maço 16, nº21)
Esta realidade não corresponde ao que afirmam Léon l’Africain e Marmol y Carvajal. De facto, nos seus textos são descritas várias cidades de pequena dimensão, algumas muralhadas, a maioria das quais hoje não existentes, pelo facto de terem sido destruídas durante o período do Protectorado Português e esvaziadas da sua população, fosse pelo abandono voluntário, fosse pelo abandono forçado. Benhima estima que, só em deportados para Portugal, o número tenha atingido as 100.000 pessoas (BENHIMA 2003: 218), para além das próprias deportações internas, sejam as realizadas nas zonas controladas pelo Reino de Fez, sejam as fugas de populações para zonas de paz.
A marca dos poucos anos em que Portugal dominou a Duquela teve enormes consequências nas características do seu povoamento e tecido económico, já que os portugueses exigiam o pagamento de tributos em géneros, mas destruíam a capacidade para os produzir.
Este entendimento de que a Duquela não se limitava ao território dos Dukkala ou à designação administrativa da Duquela descrita pelos vários autores e cartografia, tem como justificação o facto de que correspondia à área pacificada entre 1510 e 1516 designada como Protectorado da Duquela, que David Lopes identifica da seguinte forma:
“Abrangia o território dos Duquela, dividido em tribos estabelecidas entre Azamor e o norte de Safim; depois as tribos dos Abda, a leste e sul de Safim, e a dos Xiátima, a norte de Mogador. Para dentro das terras, a zona ia até perto da cidade de Marrocos.” (LOPES 1989: 33)

Evolução do Protectorado da Duquela
O Protectorado da Duquela
Nuno Fernandes de Ataíde, conhecido como o “nunca está quedo”, estabeleceu, nas suas funções de capitão de Safim (oficiais e reais) um vasto território de mouros de pazes, que ficou conhecido como Protectorado da Duquela, que governaria de 1510 até à sua morte em 1516. E se no dizer algo romântico de alguns autores como David Lopes, “a sua capitania é a página mais assombrosa da história luso-marroquina; foram seis anos de vida trepidante de cavalgadas e combates (…) ele e os seus companheiros foram os que fizeram do nome português sinónimo de bravura e lhe criaram essa auréola que ainda tem naquele país” (LOPES 1989: 31), a verdade é que o Protectorado foi criado com base numa política de terror, à custa do sangue e do sacrifício das populações locais, para quem a presença de Portugal não deixou saudades, como prova esta frase de Marmol y Carvajal sobre a destruição da cidade de Tidjout pelos portugueses: “A cidade foi repovoada rapidamente depois, e vive-se aí tranquilamente desde que os Portugueses abandonaram Safim”. (MARMOL y CARVAJAL 1667: 17)
“Nuno Fernandes de Ataíde era então governador de Safim e mantinha ao serviço do Rei de Portugal quinze mil cavaleiros Árabes e as comunidades das províncias da Duquela e Hea, sob o comando de Cide Yahya Aben Tafuf, de modo que corria todas as terras de Marrocos e lhes fazia pagar contribuição ou por amor ou pela força”. (MARMOL y CARVAJAL 1667: 63)
Bentafufa, senhor de Cerno, era um berbere que conseguiu liderar uma tal força militar de tribos árabes, como refere Maria Augusta Lima Cruz citando uma Carta de Estêvão Rodrigues Bérrio a D. Manuel, de 19 de Maio de 1514:
“Tudo indica que este mouro, que passaremos a designar por Bentafufa, era de origem berbere. Nesse sentido aponta o testemunho de Estêvão Rodrigues Bérrio quando, em 1514, aconselhava o rei D. Manuel a atribuir-lhe uma guarda de cem cavaleiros, porque Vossa Alteza será servido e o Mouro será estimado entre os Alarves (entenda-se árabes), e as cousas que cumprem a vosso serviço serão feitas, porque este mouro é bárbaro (berbere) e não se faz às vezes o que ele manda para isto”. (CRUZ 2002: 40)
A importância do chamado Protectorado da Duquela era enorme. Permitiu pacificar momentaneamente as tribos mais aguerridas da Região da Doukkala-Abda e Suss, como os Abda, Chiadma, Regraga e Haha, e garantir, não só a viabilidade económica das praças do Sul, como o desenvolvimento de um proveitoso comércio e do pagamento de tributos em larga escala.

O Castelo do Mar e a praia
Se parece consensual na maior parte dos autores consultados este papel determinante de Nuno Fernandes na criação do chamado Protectorado da Duquela, também é verdade que o papel de Bentafufa nem sempre é devidamente reconhecido. De facto, quando Bentafufa foi mandado para Portugal por Azambuja, o objetivo do português era que ele fosse castigado, mas em Lisboa o mouro fez amizade com poderosos e nunca foi punido por suas graves faltas.
Damião de Góis, citado por David Lopes, refere que “quando Iahia (Bentafufa) veio a Lisboa, onde tão boas desculpas deu a D. Manuel que este o tornou a mandar para Safim com o título de alcaide, e capitão do campo da dita cidade: El Rei lhe assentou soldo para ele, e vinte criados seus, com o título de alcaide da província da Duquela, que depois pôs todos à obediência del Rei, e não tão somente fez vassalos com ajuda de Nuno Fernandes D’Ataíde os desta província, e doutras deste rio d’Azamor até Mogador de longo da costa, e através do mar além dos montes claros além de Marrocos, mas ainda os fez obrigar a pagarem cada ano certo tributo”. (LOPES 1897: XXXI-XXXII)
Esta nomeação de Bentafufa como Alcaide da Duquela coloca-o de facto num patamar superior ao de simples capitão de Praça-forte, podendo-se considerar que corresponde à própria instituição oficial do Protectorado em si. Mas as relações entre Ataíde e Bentafufa tornaram-se tensas, já que Bentafufa não abdicava do exercício do seu poder perante os seus súbditos. Nuno Fernandes compreendeu que hostilizar o alcaide seria colocar em perigo a unidade dos mouros de pazes e a sua vassalagem à Coroa Portuguesa.
Independentemente de o cargo de Alcaide da Duquela ser teoricamente mais importante que o de capitão da cidade e seu termo, a verdade é que Bentafufa se relacionava com Nuno Fernandes como um seu superior hierárquico. Outro aspecto relevante da sua personalidade, já referido, era a contradição em que vivia, na sua condição de traidor ao seu povo. Estes dois aspectos estão bem patentes numa carta que escreve a Nuno Fernandes em Português Aljamiado (português escrito com caracteres árabes), no ano de 151- (não datada), e que tem estas curiosa passagem:
“Louvores ao seu Deus. Senhor D. Nuno, vosso servo Iahia Tafufte vos faz saber que, desde o dia que vim a esta terra, não vi nenhum prazer nem descanso com cristãos, nem menos com mouros. Os mouros dizem que sou cristão e os cristãos dizem que sou mouro, e assim estou em balanças sem saber o que hei de fazer de mim, senão o que deus quiser, e quem boa conreição tiver, Allá o salvará”. (LOPES 1897: 63)

O trigo da Duquela
A importância económica da Duquela
Numa carta do contador Nuno Gato ao Rei D. Manuel, datada de 29 de Maio de 1512, relativa aos direitos que as mercadorias pagavam na alfândega de Safim, são enumerados alguns desses produtos, como peles de cabra, couros de vaca, cera, lã, anil marroquim, alquicés, pescado, mel, manteiga, boi ou vaca, carneiro, tasconte, cardão, haiques…” (LES SOURCES… 1934: 313-4)
Os tributos eram pagos sobretudo em trigo, cevada, milho, cavalos, burros, camelos, carneiros e têxteis. “Os tributos em trigo que a Duquela, Abda, Xiátima e outras tribos pagavam eram mais de 7.000 cargas de camelo”. (LOPES 1989: 61)
O negócio nas praças não se limitava à exportação de produtos locais, mas também à importação de produtos estrangeiros, que os portugueses comercializavam enquanto meros intermediários ou sobre os quais aplicavam taxas, sendo comercializados sobretudo por judeus e genoveses com negócio instalado. De Inglaterra, Holanda, França e Itália vinham produtos manufacturados ricos, sobretudo têxteis, e de outros países muçulmanos, como o Egipto, vinham os bordates.
Leão o Africano transcreve o seguinte texto do Bispo de Silves Jerónimo Osório da Fonseca, publicado em 1571: “Existe uma cidade na Barbária chamada Safim, situada para além do estreito de Gibraltar em direcção ao Sul, e que está na costa do Oceano Atlântico. É bastante grande, rica e comercial. A região é fértil, abundante em frutos e em gado.” (LÉON L’AFRICAIN 1896: 350)
Rafael Moreira, referindo-se à decisão de construção do Castelo de São Jorge de Mazagão em 1514, salienta que a importância estratégica e económica da Duquela assim o justificava, pelos grandes proveitos que a sua actividade comercial rendiam a Portugal no próprio quadro da expansão portuguesa, “como lanifícios grosseiros e muito coloridos, as mantas listradas (lambéis) e capotes de capuz (albornozes) que se trocavam a alguns dias de navegação para sul, entre os negros da foz do Senegal, pelo ouro sudanês, com inacreditáveis lucros. A esse negócio juntava-se um papel estratégico-comercial de primeira ordem, a provisão de víveres e géneros essenciais ao abastecimento regular das armadas que cruzavam os mares sob a bandeira da Coroa portuguesa (…) os cereais abundantes da Duquela; a venda de cavalos adestrados para a guerra; produtos de pecuária das tribos nómadas vizinhas; o peixe seco e salgado para as longas travessias”. (MOREIRA 2001: 31)
Apesar desta abastança de mercadorias e dos saques e tributos pagos em cereais e gado, a verdade é que a história de Safim foi de constante falta de alimentos e de fome. Duas cartas, entre outras, são prova dessa situação.
Numa carta de D. Nuno de Mascarenhas a D. Manuel, datada de 9 de Dezembro de 1516, refere-se que Safim “tem muita míngua de víveres”. (LES SOURCES…1939: 49)
Noutra carta, de D. João Rodrigo de Castro a D. João III, escrita em 24 de Junho de 1540, a situação descrita é bem mais preocupante — a cidade não tem mantimentos. Nem biscoito, nem trigo, nem cevada. Mais de cento e cinquenta homens andam pelo campo e lá dormem procurando de que comer. Há vinte dias que não haviam abastecimento e os motins instalaram-se, ao ponto de o governador fechar as portas da cidade, porque muitos moradores querem ir para Portugal ou mesmo desertarem e irem para a terra dos mouros. (LES SOURCES…1948: 248-50)

Gravura de Safim no séc. XVI da obra Civitates Orbis Terrarum de Braun e Hogenberg, 1572, Biblioteca Nacional de Portugal

Gravura de Safim no séc. XVI da obra Civitates Orbis Terrarum de Braun e Hogenberg, 1572, Bibliothèque nationale de France

Gravura de Safim no séc. XVI da obra Civitates Orbis Terrarum de Braun e Hogenberg, 1572, gravada por Francesco Valesio, Bibliothèque nationale de France
Safi pré-portuguesa
Dois elementos contribuem para a reconstituição da cidade de Safi na altura da sua conquista pelos portugueses: as gravuras de Braun e Hogenberg e os elementos existentes sobre o cerco de 1510, concretamente a Carta de Nuno Gato a D. Manuel I de 3 de Janeiro de 1511 (ANTT, gaveta 20, maço 1 nº 41 in LES SOURCES…1934: 271-280) e a Carta de Nuno Fernandes de Ataíde a D. Manuel I de 4 de Janeiro de 1511 (ANTT, gaveta 20, maço 1, nº 11 in LES SOURCES…1934: 284-296). Para além desta informação, foi tida em consideração a sua interpretação por Jorge Correia (CORREIA 2008: 263-8).
Existem várias impressões da gravura de Braun e Hogenberg integrada na obra Civitates Orbis Terrarum de Braun e Hogenberg. Apresentamos aqui uma na versão preto branco, existente na Biblioteca Nacional de Portugal e outra colorida, existente na Bibliothèque nationale de France. Apresentamos uma outra, de traço mais tosco, gravada por Francesco Valesio, também pertencente aos arquivos da Bibliothèque nationale de France.
A legenda da gravura, traduzida do latim, reza o seguinte:
“Safim, uma elegante cidade africana, é cercada por uma muralha e possui uma imponente cidadela com torres, um grande número de edifícios ricamente decorados e uma torre de altura impressionante. No ano da redenção do Salvador, 1508, no sétimo dia de Julho, o governador do Rei Emanuel, Diogo Dazambuja, conquistou esta cidade aos mouros.”
As gravuras representam a cidade com as muralhas antes das intervenções de construção dos atalhos para reduzir a sua área. Do lado norte e sul existiam duas bolsas muralhadas, não edificadas, que seriam eliminadas posteriormente para conferir ao perímetro muralhado a configuração de “tenaz” que hoje tem, reduzindo a área de contacto com a terra. As gravuras, apesar de se referirem ao ano de 1572, representam a cidade sem o Castelo do Mar e com os minaretes das mesquitas em evidência.
As descrições do cerco que os mouros fizeram a Safim entre os dias 23 e 31 de Dezembro de 1510 ajudam a contabilizar o perímetro muralhado e o número de torres que continha, principalmente os troços que foram demolidos, permitindo reconstituir o traçado antes da intervenção a que seria sujeita.
Na altura a guarnição portuguesa da cidade era de 900 homens e o cerco contou com a participação das tribos “Oulle Dambram e de Ole Çubeta, e de Oulle de Acoob e Guarbia, e toda Xarquia, e os Alarves de Zamor, que são três cabilas, a saber: Oulle de Bohazis e Gelalim, Çeja, e estes com todos seus Barbaros de Zamor até aqui; e desta outra parte, todos os Barbaros de Castello Reall até Aguz; e quanto se mais vinham chegando a esta cidade, tanto mais crescia a gente de todas as partes a eles.” (LES SOURCES…1934: 285)
A contabilização das forças marroquinas é geralmente exagerada, como aliás era apanágio dos cronistas da época, nomeadamente de Damião de Góis, que as estima em “mais de cinco mil de cavalo, a gente de pé era tanta que se estimou em mais de seiscentas mil almas” (GOIS 1926: III 45). Exageros à parte, as forças sitiadoras seriam cerca de 200.000 homens, como relata Nuno Gato: “E o que nos pareceu da gente, é que poderiam bem ser ao menos cinco mil de cavalo e de aí para cima; e os peões não é rezam que nomeie, porque não têm conta e parecerá a V. A. fabula; mas lançando a conta às cabilas, segundo dito dos que sabem a terra, dizem que podiam ser bem seiscentas mil almas, de que podiam sair mais de duzentos mil homens de peleja”. (LES SOURCES…1934: 275)
O cerco foi acompanhado de duas investidas. Uma no dia 27 de Dezembro atacando o pano norte, entre a Porta da Almedina e a dos Gafos, com uma investida simultânea na Porta de Guarniz, a Sul, para dispersar os defensores (LES SOURCES…1934: 277-8), e outra no dia 30 na frente de mar “em que apertaram tão rijo que as pedras e azagaias que vinham pelo ar tolhiam a vista ao sol” (LES SOURCES…1934: 279).

Medição dos vários troços de muralha por Nuno Gato
A contabilidade do perímetro muralhado original é confusa:
Nuno Gato mede a muralha por troços, contabilizando um total de 1.117 braças (2460 metros), de mar a mar, ou seja, nas suas frentes de terra, e setenta e cinco torres:
“Tem esta cidade pelo sertão, de mar a mar, mil e cento e dezassete braças, entrando aqui cem que há no lanço da Alcáçova, fora toda a parte do mar; e assim tem pelo sertão setenta e cinco torres.” (LES SOURCES…1934: 275)
Pierre de Cénival, em duas notas a esta medição, refere que “a soma dos diferentes tramos não totaliza 1.117 braças, mas 1.083” e “a soma das torres, segundo a enumeração indicada, dá um total de 74”.
Por muitas contas que façamos não chegamos a estes números. A frente de terra teria 1.077 braças e 74 torres, e o total, contando com a frente de mar, 1.287 braças e 86 torres, o que resulta numa extensão total de cerca de 2.830 metros.
O perímetro da muralha é referido por Damião de Góis como tendo “a cidade de Çafim em circuito, neste tempo que era nossa, mil e trezentas e vinte e sete braças, entrando nesta conta cem braças que há no lanço da alcáçova, e oitenta e sete torres” (GOIS 1926: III 47). Em metros, o perímetro seria de 2.919 metros.
O que parece mais importante é a contabilização dos tramos demolidos para a construção dos atalhos. A bolsa Norte teria 277 braças (cerca de 610 metros), e a Sul 437 braças (cerca de 960 metros).
A configuração da bolsa Sul é a mais problemática, mas uma referência de Nuno Fernandes de Ataíde a uma Torre da Vela e a sua representação numa planta de 1899 da autoria do Capitão Larras, levaram Jorge Correia a identifica-la como o ponto médio e extremo Sul dessa bolsa. A torre teria subsistido isolada após a demolição da muralha para servir de atalaia ao campo exterior. (CORREIA 2008: 265)

Safi pré-portuguesa

Planta de Nestor Larras de 1899, que localiza a Torre da Vela, denominando-a “Tour en ruines”, Bibliothèque nationale de France
Diogo de Arruda
Até ao cerco de 1510, as intervenções na cidade consistiram de reparações na muralha, aumento da sua altura nalgumas zonas e demolição de edifícios adjacentes a elas para criar ruas para acesso aos adarves. (CORREIA 2008: 263)
Numa carta de Nuno Gato a D. Manuel, datada de 4-5 de Dezembro de 1510, informa-se o rei da reparação das muralhas e da necessidade de criar ruas entre as casas e as muralhas:
“O Capitão bem assim o exercita em pôr pedras pelo muro velho e fazer ruas entre ele e a cidade, porque prazera a Deus que nos não entrem pelos muros dentro, ainda que são ruins.” (LES SOURCES…1934: 263)
A partir do ano de 1511, equaciona-se a redução da área da cidade e sobretudo da frente de terra muralhada. A sua defesa implicava a mobilização de cerca de 2000 homens e, para além disso, uma parte significativa das muralhas confinava com terreno não edificado. A cidade teria cerca de 26 hectares e seriam eliminados 13 hectares, pelo que a sua área viria a ser reduzida em 50%. O perímetro após a construção dos atalhos passaria dos cerca de 2.800 metros para cerca de 1.700 metros.
Numa “Carta a el-rei de Portugal com várias noticias de Safim”, os moradores informam a necessidade de se atalhar a cidade, dada a insegurança em que viviam num perímetro tão alargado e havia já muita gente que pretendia abandoná-la:
“Esses que aí havia a maior parte deles se querem ir porque veem esta cidade muito grande e que a não atalham e têm medo de ficar nela assim como está e para se acolherem ao Castelo tinham já feitas algumas casas e outras havidas por onde cuidavam que o atalho havia de ser (feito) e ainda mais largas do que eu quisera de maneira que Pero Correa e Rui Barreto o ordenavam.” (AS GAVETAS…1964: IV 69)
Em Fevereiro de 1512, Diogo de Arruda chega a Safim com a missão de reformular as suas defesas e, em Agosto desse ano, junta-se-lhe o seu irmão Francisco, cerca de 15 anos mais novo. Diogo vem acompanhado por um número de pedreiros, taipeiros e outros operários indiscriminados, que Pedro Dias estima em 135. (DIAS 2002: 166-7)
Refere Sousa Viterbo:
“Em 1512 achava-se (Diogo de Arruda) em Çafim. Num livro de Lourenço Mendes, almoxarife daquela praça e com relação aquele ano, encontra-se no fim, sob a rubrica Homens que andam nas obras, a seguinte indicação: Diogo darruda, mestre.” (VITERBO 1988: I 47)
Segundo Rafael Moreira, “um caso ainda inédito, e merecedor de atenta reflexão, é o do Maestro Diego portoghese que em 1485-1486 estava ao serviço de Afonso II de Aragão, duque da Calábria, junto com outros dois engenheiros italianos (entre os quais Francesco di Giorgio Martini), remodelando a cerca de Nápoles e erguendo contra os Turcos fortificações costeiras na Apúlia (Taranto, Brindisi, Galipoli). Julgamos tratar-se de Diogo de Arruda, que morreria idoso em 1531 e devia rondar então pelos 30 anos de idade. Se como nos parece admissível, Diogo de Arruda trabalhou na juventude em posição de destaque no Sul de Itália durante os anos 80, no âmbito de estreitos contactos existentes entre a corte aragonesa e a casa ducal de Beja, não só as origens do estilo manuelino — de que ele foi figura proeminente — se iluminam com uma luz inteiramente nova, como passam a ser mais bem explicadas as semelhanças com o Mediterrâneo Oriental que cada vez mais irão apresentar as fortificações mandadas construir pelo então duque de Beja, D. Manuel, pois não podemos esquecer que, sob a sua brusca mudança de gosto artístico na última década do século, a maturidade atingida pelos mestres manuelinos foi o fruto da sua aprendizagem joanina”. (MOREIRA 1989: 106-8)
Noutra obra sua, Rafael Moreira escreveu a propósito da Torre de S. Sebastião de Caparica “que os documentos não dizem nada sobre o seu autor. Nós pensamos que o conjunto foi pensado como um todo, pelo jovem engenheiro Diogo de Arruda (1460-1531), chegado de uma fecunda estadia em Itália por volta de 1485-1486. Tinha sido convidado pelo duque da Calábria para restaurar, com um técnico turco (um tal ‘Calasa’) e uma equipa dos maiores engenheiros italianos – Giuliano da Sangallo et Maiano, Baccio Pontelli, Fra Giocondo, e nada mais nada menos do que Francesco di Giorgio Martini em pessoa – os grandes castelos da costa meridional do Reino de Nápoles: Otrante, Brindisi, Tarante, Crotone, Gallípoli… Ele é conhecido como Maestro Diego Portughese e tratado com grande consideração, recebendo 6 ducados por mês segundo os pagamentos das “Cedole di Tesorerie”. Continuando no campo das hipóteses, mantém toda a sua força, pois não existe outro mestre real chamado Diogo durante esses anos em Portugal a não ser este Arruda, vindo de uma linhagem de pedreiros conhecida desde o início do século XV que ocupou sempre na hierarquia da profissão um lugar de grande prestígio. (MOREIRA 2014: 206)

Porta de Almedina e Torre Poligonal
Diogo de Arruda seria o responsável por todo o projecto de intervenções na cidade de Safim, apesar de ter abandondo a cidade no ano de 1513 para ir trabalhar nas defesas de Azamor e Mazagão, deixando as obras a cargo de outros intervenientes. Este papel primordial de Diogo de Arruda é confirmado por vários autores.
Vergilio Correia escreveu a esse propósito:
“É necessário ir a Çafim para conhecer uma fortificação manuelina! De quando data e a quem se deve essa cerca forte? Seguindo o desenrolar dos acontecimentos sou levado a julgar que só após o grande assédio de dezembro 1510-janeiro de 1511, se considerou a necessidade dessa obra. E o autor do plano dela poderia muito bem ter sido o pedreiro Diogo de Arruda, especializado na construção de obras militares, o qual em abril do ano de 1511 se some das folhas de pagamento de determinado Baluarte, onde até então estivera ocupado em Portugal, para vir aparecer como mestre da obra, à testa do rol dos pedreiros que trabalhavam em Çafim em 1512 , como se infere das laudas deterioradas de um borrão do almoxarife dessa cidade, Lourenço Mendes, que tem por titulo, nas coleções da Torre do Tombo : Livro desbaratado do Almoxarife de Safim Lourenço Mendes em que se carregou a despesa que fez com as obras da cidade no ano de 1512. Pertencer-lhe-á, portanto, dada a sua categoria e a época em que esteve na cidade, o plano da fortificação.” (CORREIA 1923: 89)
Joseph Goulven confirma:
“O nome de Diogo de Arruda, que deixara os estaleiros do Paço da Ribeira, em 1511, ficou a partir de então ligado às fortificações de Safi.” (GOULVEN 1938: 79)
E Rafael Moreira corrobora essa autoria:
Na legenda de uma imagem refere que “o perímetro das muralhas manuelinas de Safim, erguidas em 1511 por Diogo de Arruda, impressiona pela sua vastidão e estado impecável.” (MOREIRA 1989: 128 e 130)

Construção dos atalhos e demolição das bolsas Norte e Sul

Implantação dos troços de muralha demolidos na fotografia aérea

Vista aérea “olho de pássaro”, Archives Diplomatiques, Ministère de l’Europe et des Affaires Étrangères de France

Implantação dos atalhos na gravura de Braun e Hogenbreg
O projecto de Diogo de Arruda
O projecto de Arruda é um projecto global. Reequaciona a configuração da cidade, racionalizando o traçado das muralhas através da construção de dois atalhos que reduzem drasticamente a frente de terra e mantêm a frente de mar, conferindo-lhe a forma de “tenaz” que apresenta. Altera a filosofia de defesa inerente à muralha existente, pondo em prática os princípios da chamada arquitectura da transição (da neurobalística para a pirobalística), suprimindo a parafernália de torres que apresentava e concentrando a artilharia em baluartes estrategicamente colocados. A muralha é dotada de um alambor, adarve e merlões com seteiras.

Troneiras de cruzeta na frente de mar

Detalhe de uma seteira de um dos merlões da muralha
“As cortinas são rectas e extensíssimas, com poucos cubelos, só protegidas de cima pelas largas ameias de dupla seteira. Apenas o sector do muro sobre a praia apresentava bombardeiras cruzetadas, sem dúvida para defesa do porto. O poder de fogo concentrava-se, pois, nos grandes torreões, que, em vez de se enterrarem no solo (como em Salses e na generalidade das fortalezas da transição italianas), se elevam em torres artilheiras maciças de implantação cenográfica e aspecto assustador (como em algumas do reino de Nápoles)”. (MOREIRA 1989: 126)

O Borj Rouah, um dos baluartes em forma de U, esticados para o exterior para abrir os ângulos de tiro, com canhoneiras a vários níveis
Do lado Sul e na Alcáçova, os baluartes têm a forma de U, “esticados” para o exterior para abrir os ângulos de tiro e garantir o tiro rasante, com canhoneiras a vários níveis.
Do lado Norte, a Porta de Almedina foi recuada para o novo pano de muralha e protegida por um impressionante baluarte de forma poligonal. A muralha original não foi totalmente demolida, mantendo-se um troço, rematado pelo Borj el-Kouas, com a função de couraça. Foi construído um fosso com escarpa e contra-escarpa para canalizar o Oued Cha’ba.
A Alcáçova ou Castelo de Cima foi remodelada, e construído um baluarte semi-circular, dotado de canhoneiras e mata-cães, que tem mais de simbólico do que de eficaz, pela sua grande presença, com o intuito de atemorizar qualquer tentativa de conquista.
Na frente Poente, sobre a Praia, foi edificado de um novo castelo, o Castelo do Mar, assegurando a defesa do porto, os abastecimentos e o comércio marítimo.
Rafael Moreira coloca em dúvida a autoria dos Arrudas sobre o projecto do Castelo do Mar ou Castelo Novo de Safim a da Catedral (erradamente dita de São Pedro). (MOREIRA 1989: 128)
Um aspecto que é de referir é o de que apenas em Safim não existem (ou não conhecemos) os nomes portugueses dos baluartes da muralha, ao contrário do que se passa com as restantes cidades ocupadas pelos portugueses neste período. Porque será?

Safim portuguesa

Vista aérea “olho de pássaro”, Archives Diplomatiques, Ministère de l’Europe et des Affaires Étrangères de France
As obras
Em 1512, Diogo de Arruda chefia uma equipa de numerosos pedreiros para construir os atalhos e reformular as muralhas. As obras da muralha estavam praticamente acabadas em Junho desse ano (?), conforme carta de Heitor Gonçalves a D. Manuel, que diz que “acerca das obras do que está por acabar, parece-me que, para se acabar de amear o muro que fica por amear, se acabará por todo julho, porque todo o ali esta já feito, senão a porta que se há de abrir para a alcáçova está ainda por fazer. E assim, Senhor, é necessário mandar Vossa Alteza dinheiro para se estas obras acabarem e provisão para que lho dê”. (LES SOURCES…1934: 331)
A partir de 1513, Diogo é substituído por João Luís, que ficaria como responsável pelos trabalhos até 1524. A sua nomeação consta de uma carta de D. Manuel de 3 de Junho de 1513, na qual lhe atribui dois mil reais de mantimento por ano “que era outro tanto quanto tinha o mestre de obras de Arzila”. (VITERBO 1904: 104)

O Castelo do Mar
João Luís é o responsável pela obra do Castelo do Mar, uma estrutura quadrada com 45 metros de lado que vem substituir um antigo tramo de muralha que partia da Porta de Guarniz até ao mar. A construção do Castelo do Mar segue a política de duplicação dos castelos, à semelhança do que acontecera em Tânger com o Castelo Novo de Danzilho, quando a Alcáçova primitiva se localizava afastada da água.

Planta do Castelo do Mar, A. Mighinia, Inspection des Monuments Historiques de Safi
No Regimento da obra do castelo da cidade de Çafim de 27 de Agosto de 1517, publicado por Helder Carita como documento nº 20 da sua obra mencionada na bibliografia, retirado dos Arquivos da Torre do Tombo, Núcleo Antigo nº 16, Leis e Regimentos de D. Manuel, fls 20-22v, podem ler-se as seguintes passagens:
“O dito castelo se fará no alto sobre a calheta da entrada encostado aos muros da dita cidade da parte de fora e será de comprido ao longo da rocha vinte braças de vão e para o sertão ao longo dos muros da dita cidade será tanto quanto for necessário para ficar um portal para que se sirva o castelo com a cidade o qual terá de lume oito palmos e de alto doze. E as ombreiras dele serão de dois palmos e meio de grosso com seu chanfro da parte de fora. E será todo de pedra.
No cunhal da parte do sertão haverá um cubelo redondo e terá de vão duas braças e as grossuras das paredes serão como as do muro que são doze palmos. E será entulhado de terra e pedra ensossa oito palmos em cima do andar do chão e no dito andar do entulho haverá três bombardeiras duas que tirem ao longo dos panos e uma para o sertão (…) nos outros três cunhais da dita fortaleza haverá em cada cunhal sua guarita.
O cubelo que agora está feito no cunhal do muro velho da cidade o qual fica dentro da fortaleza havemos por bem que seja reformado por baixo que fique em torre quadrada para a torre de menagem e será engrossada quatro palmos (…) na dita fortaleza haverá um postigo o qual será junto da angra parte de dentro de junto com a rocha contra a parte de Guarniz (…) e ao pé da torre de menagem haverá outro postigo para a praia (…) e na porta que vai da fortaleza pera a cidade haverá uma porta de alçapão e sua ponte levadiça.” (CARITA 1999: 232-4)
O Regimento Menciona as construções a integrar no seu interior, concretamente as casas do capitão e armazéns, com uma cisterna central, abastecida com a água da chuva proveniente dos seus telhados. Não menciona a Couraça no cunhal Sudoeste, de protecção à Porta da Traição.
O Castelo de Mar estava praticamente acabado em 1523 (LES SOURCES…1939: 309-10) e em 1526 o mestre João Luís é substituído pelo italiano Garcia de Bolonha, conforme carta de nomeação escrita por D. João III no seguimento da morte de João Luís. (VITERBO 1899: 115)

A Torre de Menagem do Castelo do Mar ou Borj el-Mestari
No ano de 1540 é reformulado o Castelo de Cima, construindo-se o Baluarte da Alcáçova. “O baluarte do Castelo de Cima impôs-se como último grito de uma cidade que fora incapaz de dominar Marrocos”. (CORREIA 2008: 279)
A sua autoria é atribuída a Lourenço Argueiro e é uma estrutura desajustada do seu tempo, ultrapassada em termos de conceito militar, de dimensões desmesuradas, apenas explicável como elemento dissuasor, mas sem eficácia.
A sua construção está documentada, bem como a primeira menção que se conhece a uma couraça em Safim, não se sabendo se será a do Borj el-Kouas, se a do Borj es-Sloiquia, numa carta de D. João Rodrigo de Castro a D. João III, escrita em 24 de Junho de 1540:
“O baluarte da Alcáçova não se acaba por V. A. não mandar dizer, nem o conde de Penela escrever, se há-de ser de abóbada, se de madeira; fazendo-se de abóbada fica a melhor peça que haverá entre Cristãos, e ele só é bastante para defender toda a cidade; custava muito menos de madeira, como muitas vezes escrevi a V. A. Nem a Simão Dias, vedor das obras, lhe veio recado da maneira como havia de ser. Pareceu-lhe bem mandar lá Lourenço Argueiro, mestre das obras, que o fez para dar informação a V. A. da maneira que está. É um dos melhores oficiais que se podem achar, porque ele fez a couraça, porque estas duas peças em poucas partes acharam suas iguais”. (LES SOURCES…1949: 250)

O Baluarte da Alcáçova
Numa outra carta, datada de 1 de Junho de 1541, escrita por D. Henrique de Noronha a D. João III, a couraça volta a ser referida:
“E por ele ver que era necessário o baluarte da couraça de dentro se encher de areia, por ser vazio, para ficar cheio mais forte, o tem mandado fazer pela sua gente e por ele, e assim algumas taipas do muro da banda de dentro que estavam derrubadas, para os homens poderem pelejar, para duma banda e da outra lhe não fazerem as espingardas nojo, e ele a sua custa o mandou concertar.” (LES SOURCES…1949: 447)
As obras de Safim representaram um investimento significativo da Coroa Portuguesa. Pedro Dias refere alguns dos pagamentos, os mais importantes, referentes aos anos de 1515 (200.000 reais), 1516 (2.000.000 de reais) e, entre 1517 e 1521 a soma astronómica de 10.300.000 reais. (DIAS 2002: 168-70)

Estrutura urbana

A Rue du Pressoir, um dos arruamentos de separação da cidade e a muralha e de acesso ao adarve
Intervenção na cidade
A intervenção na estrutura urbana de Safim é defendida por Jorge Correia, detectando vestígios de um urbanismo regular, “marcas do período português e testemunhos do seu passado” (CORREIA 2008: 282), em diversos arruamentos, estruturados a partir da Rua Direita, actual Rua Es-Souq (des Marchés).
Situam-se maioritariamente do lado Norte, e são referenciados o Impasse Sidi Abdelkrim (Dar Benito), a Rua El-Kawara, a Rua Bouzertila e a Rua El-Hajama (des Perruquiers). Estas ruas constituem um conjunto homogéneo, pressupondo uma intervenção de conjunto, com as duas ruas de separação do tecido urbano com a muralha, a Rua El-Ma’ssara (du Pressoir) e a Rua Er-Rahba (Rue de la Halle aux Grains).
Do lado Sul, para além da Rua Bin As-Sour (des Remparts), que assegurava o acesso à muralha e a ligação entre o Castelo do Mar e o Castelo de Cima, são referidas a Rua Bouiba (do Postigo), Es-Sama’ (do Minarete) e El-Kanissa (da Igreja Espanhola).
Nestes conjuntos de arruamentos situavam-se os principais edifícios religiosos, como o Convento de Santa Catarina e a Catedral, e subsistem cantarias de guarnecimento de portas de origem portuguesa, reutilizadas dos edifícios originais.

Porta com cantarias manuelinas portuguesas reutilizadas num edifício da medina (na verga observam-se duas Rosas Tudor)

Porta com cantarias quinhentistas portuguesas reutilizadas num edifício da medina
Património religioso
No final do século XV, os comerciantes portugueses construíram a primeira capela católica em Safi. Documentos de 1491 referem o nome do seu capelão, o padre Diogo. Entre 1498 e 1500, Nuno de Freitas, feitor de Safim, trouxe-lhe de Portugal um retábulo ornamentado de imagens. A capela dependia de João Aranha, bispo titular de Safi desde 1487, mas que residia em Portugal.
“Este último (Nuno de Freitas) recebeu, certamente com destino a alguma capela onde os portugueses se reuniam para orar, entre outras cousas: um retábulo pintado de imagens; um frontal de lenço francês, pintado de imagens; duas vestimentas, uma de chamalote preto e outra de cetim aveludado azul.” (CORREIA 1923: 84)
Pierre de Cénival localiza essa capela no edifício da Feitoria pelo facto de Nuno de Freitas ser o feitor, mas não descarta que pudesse situar-se numa das mesquitas apropriadas no tempo de Diogo de Azambuja, aliás prática comum dos portugueses nas cidades que ocupavam. (CÉNIVAL 1929: 14)
Joseph Goulven coloca várias possibilidades para a localização da primitiva capela — na Kechla (Alcáçova), na Feitoria (futuro Castelo do Mar ?) ou na actual Madrassa na Rua des Marchés. (GOULVEN 1938: 86-7)
Conforme já referido a Diocese de Safim foi constituída, com direitos sobre Azamor, El Medina, Tite, Mazagão e outros lugares adjacentes, conforme bula “In apostolice dignitatis fastígio” de 1499. (IAN-TT, Bulas, maço 16, nº21)
Damião de Góis, conta que o adaíl Lopo Barriga, por volta de 1514 ou 1515, no seguimento de uma vitória contra tribos da região, foi recebido com grande pompa e circunstância numa igreja em Safim:
“(..) tão honrada vitória havida na face e vista do Xerife. Foram recebidos com muita alegria, e levados em procissão, à Sé, acompanhando-os Nuno Fernandes, e todas as pessoas nobres, e mais os populares, onde deram graças a Deus pela mecê que a todos fizera.” (GOIS 1926: III 234)
Essa “honrada vitória” foi o tristemente célebre massacre de Amagor, cidade aliada dos Xerifes até ao ano de 1516, quando Nuno Fernandes enviou Lopo Barriga com duzentos cavaleiros e cinquenta soldados de infantaria, mais mil cavaleiros Árabes comandados por Cide Bugima. Marmol y Carvajal conta que o ataque à cidade fez duzentos mortos entre os habitantes, mas cerca de oitocentos mais atiraram-se dos rochedos e muralhas para não serem aprisionados pelos Cristãos. Quatrocentos deles terão sido feito prisioneiros e o saque foi grande, já que durou três dias. (MARMOL y CARVAJAL 1667: 22-24)
Cénival pensa que essa Sé poderia localizar-se onde posteriormente seria construída a Catedral. “É extremamente provável que a catedral provisória se situasse no local onde foi edificada, alguns anos mais tarde, a catedral em estilo manuelino.” (CÉNIVAL 1929: 17)
A instituição da Diocese de Safim, teve como resultado a construção de dois importantes edifícios religiosos — o Convento e Igreja de Santa Catarina e a Catedral de Safim.
A Igreja e Convento de Santa Catarina dos Franciscanos foi o primeiro complexo religioso a ser construído na cidade.
Numa carta de Nuno Gato a D. Manuel, datada de 14 de Novembro de 1514, informa-se que a Igreja de Santa Catarina já está começada e que se pretende construir a Sé na zona baixa da cidade, porque as pessoas não querem subir para ir à igreja, o que pressupõe que a tal Sé provisória poderia localizar-se junto ao Castelo de Cima:
“O Capitão escreve a Vossa Alteza sobre o fazimento da Sé (Catedral). Beijaremos todos as mãos a Vossa Alteza em no haver assim por bem e nos ajudar nisso e mandar um homem que o saiba bem fazer, porque nos é muito necessária uma igreja em baixo, porque nenhuma gente vai acima. E também, Senhor, lembro a Vossa Alteza São Francisco (Santa Catarina) que esta começado, que se acabe assim como já tenho escrito a Vossa Alteza.” (LES SOURCES…1934: 656)
Numa carta de 21 de Outubro desse ano de 1514, Nuno Gato informa D. Manuel que o Convento de Santa Catarina pode dar serventia a 50 frades e a casa do Convento está em construção e pode albergar de 6 a 8 frades. (LES SOURCES…1934: 649-50)
Em 1517 as obras ainda decorriam e D. Manuel envia 60.000 reais para a sua continuação:
“Vimos vossa carta acerca do mosteiro de São Francisco que se faz nessa cidade que quereis saber se o corpo da casa será de pedra e cal, se de pedra e barro. Respondemos que seja de pedra e cal, e para isso lhe fazemos esmola de sessenta mil reis.” (LES SOURCES…1939: 57)

Ruínas do Convento de Santa Catarina fotografadas por Pierre de Cénival em 1929
Pierre de Cénival foi a primeira pessoa a identificar os vestígios do Convento e Igreja de Santa Catarina em 1929. O autor não especifica em concreto onde se situam, mas refere que estão no Bairro de Bab ech-Cha’ba e apresenta algumas fotos. Do texto de Cénival transcrevemos o seguinte:
“A abóbada desabou, mas, acima das pequenas casas indígenas construídas com o aproveitamento das paredes antigas da igreja, veem-se surgir os arranques de nervuras e arcos de traçado elegante. Também aqui encontramos a capela-mor de uma igreja, como atesta o arco triunfal ainda de pé, que se ergue sobre dois pequenos pátios (a arquivolta desse arco triunfal, do lado da nave, é ornamentada com uma corda com nós, não se sabendo ao certo se representa o cordão de São Francisco ou apenas um motivo decorativo de estilo manuelino); e a igreja em questão deve ser a do convento franciscano dedicado a Santa Catarina, cuja memória é preservada em diversos documentos. O desenho dos arcos e das molduras parece ser de um tipo um pouco mais arcaico, um pouco mais nitidamente gótico do que o estilo da catedral.” (CÉNIVAL 1929: 26)
Joseph Goulven faz uma referência à primeira igreja portuguesa de Safim, dizendo o seguinte:
“Talvez enfim, são os restos desta igreja que podemos ver nos números 79 e 81 do Impasse Sidi Abdelkrim, também conhecido pelo nome de Rua Dar Benito e que se encontra na proximidade do Borj el-Khadir! No interior de casas indígenas, vemos três belas ogivas, um arco triunfal que separa dois pátios e alguns arranques de nervuras e de arcos elegantes: a abóbada ruiu. (segundo M. Cénival seria a capela de Santa Catarina pertencente ao convento dos franciscanos).” (GOULVEN 1938: 87)

Fotos do antigo Convento de Santa Catarina da autoria de Pedro Dias
Pedro Dias confirma a existência desses vestígios, apresentando duas fotos por si tiradas, mas também não refere o local onde se situam em concreto. Diz Pedro Dias:
“As ruínas sofreram muitas agressões e foram ainda mais descaracterizadas. Encontrar esses vestígios também não foi tarefa fácil, mas conseguimos ver os arranques de feixes de nervuras e até uma abóbada de arcos cruzados de uma capela lateral, hoje a servir de quarto de cama de uma família zefiense”. (DIAS 2002: 184)

Imagens do antigo Convento de Santa Catarina da autoria de Jorge Correia
Jorge Correia, em 2008, apresenta também fotos, e confirma a sua localização no Impasse Sidi Abdelkrim. E refere:
“Os vestígios de Santa Catarina revelam uma capela-mor de dois tramos, abobadada em cruzaria de ogivas de nervuras mais singelas, e com capela lateral, actualmente ocupada por uma habitação ao fundo do Impasse Sidi Abdelkrim”. (CORREIA 2008: 289)
Tentei aceder ao local em 2017, mas tive a informação de a habitação tinha sido vendida a um estrangeiro e que não estava acessível.
Para complementar estas descrições, o investigador marroquino Ahmed Sakouti fotografou recentemente uma outra abóbada com fecho decorado com uma Rosa Tudor, numa construção na Rua Al-Kawara, paralela ao impasse Sidi Abdelkrim e sensivelmente na mesma área, o que pode trazer novas evidências sobre o Convento de Santa Catarina e sobre a sua real dimensão.

Imagens do antigo Convento de Santa Catarina da autoria de Ahmed Sakouti, vendo-se um fecho de abóbada de nervuras decorado com uma Rosa Tudor
Em correspondência privada que troquei com Ahmed Sakouti, ele refere que “após descobrir a rosa que adorna a abóbada do Mosteiro de Santa Catarina em Derb Kawara, fica claro que o seu contraparte está numa das portas de estilo Manuelino, integrando o mesmo motivo da Rosa Tudor, numa semelhança que desperta interesse e pede mais pesquisas. Esta descoberta torna-se ainda mais importante se sabemos que as ruas Kawara, Sidi Abdelkrim e a Rua Es-Souk incluem uma série de casas com cantarias portuguesas, todas localizadas nas proximidades do Mosteiro de Santa Catarina e da Catedral Portuguesa.”
A Rosa Tudor reflete contactos comerciais ou influências dinásticas anglo-portuguesas da época manuelina, apesar de não poder ser considerado um motivo genuíno do estilo manuelino.
As empreitadas do Convento e da Catedral foram seguidas e provavelmente realizadas pela mesma pessoa. “O desenho das molduras é o mesmo das da sé catedral, o que nos leva a aceitar a mão do mesmo mestre construtor. Foi também a ideia com que ficámos ao analisar dois desses arranques, tendo encontrado ainda uma capela colateral, mas com uma estrutura mais simples, dado que a abóbada que está íntegra tem apenas nervuras cruzadas que se encontram numa larga chave que perdeu a ornamentação.” (DIAS 2002: 185)
A construção da Catedral Manuelina de Safim, considerada o melhor exemplar da arquitectura religiosa manuelina construída fora de Portugal, teve o seu projecto finalizado no ano de 1519, conforme relata D. Nuno Mascarenhas a D. Manuel:
“Quanto, Senhor, à igreja que Vossa Alteza quer mandar fazer, não pode ser cousa de que Nosso Senhor será mais servido e este povo receba maior mercê, porque a sua míngua vivíamos mais a uso de gentios que de Cristãos. O vedor e mestre das obras (o vedor era Jorge Machado e o mestre das obras era João Luís) tomaram suas medidas um pouco favoráveis ao mestre escola que era no presente, e fizeram sua pintura (o projecto) e lhe orçarão os custos.” (LES SOURCES…1939: 224)
O projecto foi objecto de uma redução das dimensões do templo, já que pareceram exageradas a D. Manuel. Pedro Dias pensa que as alterações introduzidas em Lisboa ao projecto elaborado em Safim possam ter sido realizadas por um dos irmãos Arruda. (DIAS 2002: 182)

Levantamento dos vestígios da Catedral por Pierre de Cénival em 1929
Pierre de Cénival é categórico ao afirmar que, apesar de João Machado ser o vedor oficial das obras, “o verdadeiro arquitecto, o autor do projecto do edifício” foi o mestre João Luiz, que morreu em 1524, sendo substituído por Luiz Dias, por sua vez substituído em 1526 por Garcia de Bolonha. (CÉNIVAL 1929: 22)
Uma preocupação do projecto era que a Catedral não podia ser menos grandiosa que o Convento de Santa Catarina, o que dá a entender que este último não era de forma alguma um edifício exíguo, como se depreende numa carta escrita pelo Bispo D. João Subtil a D. Manuel em 11 de Agosto de 1519, na qual refere:
“Em Çafim comecei a igreja daquele tamanho que me mandou e a capela alguma cousa maior para ser tal como a do mosteiro, e posto que o dinheiro ordenado era muito pouco, eu deixei pelo menos modos duzentos mil reis já na mão do contador Nuno Gato que houve por esses campos e ordens que dei, de que se pagara a capela que dei de empreitada; e todos os doze arcos da igreja encimados de alvenaria pelas pontas. Daí por diante Deus e Vossa Alteza farão mercê para o mais.” (LES SOURCES…1939: 252)

Fachada da Catedral

Capela-mor da Catedral de Safim

Escudo Real de D. Manuel no fecho da abóbada de nervuras da Capela-mor
Pedro Dias caracteriza de forma exemplar a Catedral e os seus vestígios:
“D. João Subtil deu 200.000 reais para as obras, quantia que entregou a Nuno Gato, que terão dado para pagar a capela-mor e os doze arcos do corpo, e permite perceber que tinha três naves e seis tramos ou, mais provavelmente cinco tramos com arcadas longitudinais e um transepto com maior amplitude, e eventualmente saliente em relação aos flancos. O resto teria de ser terminado com dinheiros locais e com dádivas régias.” (DIAS 2002: 181-2)
Sobre a capela-mor, escreve Pedro Dias:
“A planta é rectangular mas com pequena diferença entre os lados, sendo a profundidade de 8,20 metros e 7,20 metros de largura, medições que fizemos e que contrariam as publicadas por Cénival. O vão do arco da capela-mor é de 6,20 metros. A abóbada é estrelada com cruzeiros completos, cadernas e terceletes formando nove chaves, a central e oito radiantes. A maior, ao meio, ostenta o escudo real de D. Manuel I; as outras mostram a Cruz da Ordem de Cristo, a Esfera Armilar, folhagem naturalista, o brasão episcopal de D. João Subtil, uma roseta, um elemento liso fruto da reconstituição do volume da chave destruída, as chaves alusivas a S. Pedro, e novamente folhagem nas duas restantes.” (DIAS 2002: 183)
“As nervuras com bom lançamento arrancam de mísulas de cariz arquitectural de forma prismática múltipla, subindo em breve troço recto e encurvando em linha ogival para encontrar as diversas chaves. Como se disse essas mísulas são oito, arrancando todas, excepto a do lado do arco-cruzeiro, da mesma altura. Formam assim dois falsos tramos, ficando no segundo as amplas janelas, hoje cegas devido ao entaipamento provocado pela adjunção de construções do lado de fora.” (DIAS 2002: 183)
A Catedral já tinha sido identificada em 1871 pelo padre franciscano espanhol Castellanos, que aí tinha entrado “a quatro patas, já que a terra, os escombros, os lixos amontoados subiam quase até às abóbadas”, como escreveu em 1808 na sua “Historia de Marruecos” (CÉNIVAL 1929: 1). Á data dos levantamentos de Pierre de Cénival, no ano de 1929, os seus vestígios tinham acabado de sofrer uma intervenção da Direction des Beaux-Arts et des Monuments Historiques, que o autor descreve como uma acção para “remover construções parasitas que encobriam um monumento bastante curioso.” (CÉNIVAL 1929: 1)
Até então o imóvel era utilizado como banho público feminino. No seu interior tinha sido construído um vestiário e fora colocada uma chaminé que trespassou uma das chaves da abóbada. Continha uma caldeira para aquecimento da água e as marcas da queima de madeira são bem visíveis na capela lateral.
Ainda sobre a Catedral

Elementos do Diagnóstico e do Projecto da Catedral de Safim
No âmbito das suas funções como consultor da Fundação Calouste Gulbenkian para a área da reabilitação do Património Histórico Português, o Arquitecto João Campos elaborou um projecto de recuperação e valorização da Catedral de Safim, o qual reuniu uma vasta equipa técnica, que procedeu em 2009 a um diagnóstico da situação do imóvel, concretamente das duas capelas e parede confinante com o espaço público.
Para além de um levantamento das principais patologias visíveis, foram utilizadas técnicas não intrusivas para avaliação da situação do interior da abóbada e paredes, com recurso a acelerómetros e ultra-sons.
As conclusões dessa inspecção foram, de uma forma muito sucinta, que não se detectaram danos de importância significativa, mas situações menores a corrigir, tais como argamassas de cimento e elementos metálicos a remover, lacunas no interior de paredes a preencher, fissuração da abóbada, com colonização vegetal e infiltrações de água a solucionar, e deformação do arco da capela a corrigir.
O diagnóstico aponta as terapias a utilizar para resolver esses problemas.
Em 2010 uma equipa do Centro de História de Além-Mar (CHAM) realizou uma escavação arqueológica no espaço da antiga nave, actualmente ocupada por uns sanitários públicos e habitações de carácter precário, que a própria equipa considerou como insuficientes. A 14 de Outubro desse ano a Fundação Calouste Gulbenkian apresentou ao Governo de Marrocos o projecto do Arquitecto João Campos, o qual aguarda (ainda) uma decisão.
O projecto em si tem um carácter abrangente, no sentido em que intervém no imóvel e sua envolvente, com uma filosofia de reabilitação das duas capelas, remoção das construções que ocupam o antigo espaço ocupado pelas naves do edifício e recria, de forma algo simbólica, aquilo que seria o essencial do espaço da antiga Catedral de Safim.
O objectivo será o de criar um equipamento de caracter cultural no espaço reabilitado.

Safi actual
Safi actual
Safi perdeu o seu estatuto de porto de Marraquexe no reinado de Sidi Mohamed b. Abdallah, com a construção de Essaouira no século XVIII, que se tornou no principal porto de Marrocos e capital diplomática. Safi viria a renascer como centro industrial, ligado à indústria das conservas de pescado e de exportação de fosfatos.
As muralhas mantêm-se num estado de conservação razoável, com troços a exigir uma intervenção. Foi demolido um troço da frente de mar em data que desconhecemos e abertas quatro novas portas, três do lado Sul e uma do lado Norte, para facilitar a utilização do centro histórico pelos habitantes.

Fotos da obra de reabilitação do Castelo do Mar (antes e depois) cedidas por Mohamed Al Jattari
O Castelo do Mar está em completa reabilitação, numa intervenção exemplar em termos da utilização das técnicas originais de construção e de manutenção da sua traça. O problema da degradação resultante do efeito do mar foi resolvido com a construção de um aterro, que lamentavelmente, mas irremediavelmente, veio alterar o seu tradicional contacto com a água e a sua escala, mas salvou o imóvel do seu colapso total. Fica por solucionar o problema da existência da linha férrea junto à fachada nascente, que provoca trepidações que em nada beneficiam a saúde do edifício.
Uma referência à Catedral:
“O Embaixador em Roma, Brás Neto, por ordem do Rei, pede a Paulo III autorização para suprimir as igrejas e conventos das possessões de África que o Rei tem intenção de abandonar. O Cardeal Grande Penitenciador, responde em 8 de Novembro de 1541 concedendo a autorização pedida. Nesta data, os Portugueses já abandonaram as duas cidades (Safim e Azamor) para nunca mais voltarem, depois de terem demolido igrejas e conventos, para lhes pouparem a vergonha de caírem nas mãos dos infiéis.” (CÉNIVAL 1929: 25, citando texto de Rebello da Silva, Corpo Diplomatico portuguez, I, 874 e II, 844-8)
Poderiam os mais incautos pensar que as destruições realizadas na Catedral, restando apenas a capela-mor e uma capela lateral, se deveram a demolições realizadas após a evacuação de Safim pelos portugueses em 1541. Mas assim não foi, já que foram os próprios portugueses que demoliram todo o património religioso da cidade com autorização do Papa Paulo III. As destruições, felizmente, não foram totais e as autoridades de Marrocos mantêm os seus vestígios visitáveis, respeitando o princípio da salvaguarda deste Património Partilhado.

Sinalética direccional indicativa da localização da Catedral de Safim
Bibliografia:












































































































































































Vou ler com muita atenção. Este extenso artigo sobre esta cidade, que visitei há muitos anos, promete. Muito obrigado
Obrigado pelo comentário. Cumprimentos