
Conferência em 2022 Marraquexe, no Espace Meydene Expérience, com Sadek Qadimi, Presidente da Associação Regional de Guias de Turismo de Marraquexe-Safi
A Batalha de Alcácer Quibir foi um acontecimento que marcou decisivamente o futuro de Portugal e de Marrocos. Muito se escreveu sobre esse evento, com versões distintas umas das outras, desde os discursos oficiais até às investigações históricas, passando pelo imaginário do senso comum. O que motivou a ida dos portugueses aos campos de Souaken (local da batalha), qual a conjuntura internacional em que a batalha se enquadrou, quem foram os personagens que influenciaram as principais decisões, como eram constituídos os exércitos, quem os comandavam nos momentos-chave, quais as suas consequências, são questões discutidas pelos investigadores, mas que as narrativas oficiais não acompanham, uma vez que revelam uma complexa relação cultural e colocam em causa as “verdades” aceites, preferindo manter Alcácer Quibir sob uma cortina de fumo (ou de nevoeiro, se assim preferirem).
Se para Portugal, Alcácer Quibir foi um desastre que moldaria a própria identidade portuguesa, triste e nostálgica, dependente da vinda de um salvador que resolva os seus problemas, para Marrocos foi uma jornada de glória. Unificou o país e assegurou a sua independência em relação ao Império Otomano, criou uma mentalidade de orgulho nacional e de confiança.

Locais emblemáticos da batalha, no lugar de Douar Souken, 17 quilómetros a Norte da cidade de Ksar El Kebir
A figura do rei D. Sebastião é central em todo este processo. Inexperiente, complexado, imprudente, hesitante e voluntarioso, o mancebo que “deitou este reino a perder”, arrastando consigo a fina flor de Portugal e empenhando as finanças do reino, e, com a sua morte, entregando-o ao seu tio Filipe de Espanha, figura que não esteve isenta de responsabilidades no desfecho da contenda, que afinal lhe foi favorável. D. Sebastião ficou ligado a duas cidades, Lagos e Alcácer Quibir (Ksar El Kebir), pela aposta que fez de Lagos como sua base de assalto a Marrocos, e pelo facto de ter supostamente ficado sepultado em Alcácer Quibir quatro meses e uma semana, até ser entregue às autoridades portuguesas de Ceuta.
Com base nestes pressupostos, e com o objectivo de encarar um passado de confrontação num presente e num futuro de amizade e de cooperação, os municípios de Lagos e de Ksar El Kebir assinaram em Abril de 2018 um Acordo de Geminação, que gerou fortes expectativas, pelo facto de não se enquadrar apenas no âmbito das relações entre dois municípios, mas na própria História de Portugal e de Marrocos, enquadrando-se nas relações entre os dois Estados.

Assinatura do Acordo de Geminação em Abril de 2018 em Ksar El Kebir pelos presidentes Maria Joaquina Matos e Mohamed Simou, com a presença da senhora Embaixadora de Portugal em Marrocos, Maria Rita Ferro
Foi este o entendimento que teve o lado marroquino, pela relevância que a geminação mereceu, patente na Alta Aprovação pelo Rei Mohamed VI, que lhe conferiu uma dignidade e um compromisso de Estado que nos deveria orgulhar a todos. Do lado português, falo do Estado (governos e comissões de amizade parlamentares) a geminação passou ao lado, como aliás passa a relevância da generalidade do Património de origem portuguesa em Marrocos e as suas efemérides. Seja feita justiça aos embaixadores de Portugal em Marrocos, Maria Rita Ferro e Bernardo Futscher Pereira, que apoiaram de forma inequívoca e interessada esta geminação, como aliás as iniciativas em que me envolvi nos últimos 10 anos, entre 2016 e 2026, no âmbito do estudo e promoção do Património de origem portuguesa em Marrocos, e que tiveram neste blogue o seu ponto de partida.

Cópia do documento contendo a Alta Aprovação de Sua Majestade o Rei Mohamed VI ao Acordo de Geminação e respectiva tradução

Na Embaixada de Portugal em Rabat, com a senhora Embaixadora Maria Rita Ferro, em 2018, e com o senhor Embaixador Bernardo Futscher Pereira, em 2022
O Acordo de Geminação assinado foi objecto do estabelecimento de um Plano de Acção com medidas a curto, médio e longo prazo, que delineei enquanto responsável do Município de Lagos pela gestão da parceria, que se concretizaram na participação em conferências – destaco a minha participação na comemoração da efeméride dos 440 anos da Batalha de Alcácer Quibir com a conferência Património Fonte de Desenvolvimento Sustentável: Perspetivas de Cooperação entre as Cidades de Lagos e de Ksar El Kebir, no 4 de Agosto de 2018, na qual o turismo cultural e o turismo militar foram apresentados como vetores de conhecimento e de desenvolvimento através da valorização do património e do estabelecimento de rotas históricas – e nas inaugurações da Avenida de Lagos em Ksar El Kebir, em 2019, e da Avenida de Alcácer Quibir em Lagos, e do Monumento comemorativo da geminação entre as duas cidades, em 2026.

Com o Alto Comissário para os Antigos Combatentes e Exército de Libertação do Reino de Marrocos e Presidente da Federação Mundial de Veteranos, Mostafá El Ktiri, na conferência realizada em Ksar El Kebir no dia 4 de Agosto de 2018, assinalando os 440 anos da Batalha de Alcácer Quibir

Conferência e inaugurações

Inauguração da Avenida de Alcácer Quibir em Lagos

Monumento comemorativo da geminação entre Lagos e Ksar El Kebir na cidade de Lagos, representando dois círculos intersectados, os dois exércitos em confronto, e as duas cidades unidas numa relação de amizade

Placa da inauguração do monumento

O autor do monumento, escultor Pedro Correia, e cerimónia de inauguração pelos dois presidentes, Hugo Miguel Henrique Pereira e Mohamed Simou, com a presença do Cônsul Honorário do Reino de Marrocos no Algarve, José Alberto Alegria, e o Vice-Presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve, Bruno Inácio
Teve lugar em 2019 uma visita a Marrocos de uma delegação da Associação Portuguesa dos Municípios com Centro Histórico (APMCH) (https://www.apmch.pt/centros-historicos-luso-marroquinos), que, para além de visitar Ksar El Kebir e o campo de batalha em Douar Souaken, também esteve em Arzila e Mazagão. A visita enquadrou-se num evento denominado Efeméride dos 250 Anos do Abandono da Praça de Mazagão, por mim organizado enquanto Secretário-Geral da APMCH, participando cerca de 60 pessoas.

Recepção à comitiva da APMCH na Embaixada de Portugal em Rabat e na cidade de Ksar El Kebir
Mas para além destas iniciativas de carácter protocolar, foi desenvolvido um projecto de fundo, ainda não concretizado, o da criação do Centro de Interpretação da Batalha de Alcácer Quibir e do Estudo e Valorização do Património Português em Marrocos, a instalar no local onde o Rei D. Sebastião esteve sepultado, a Casa do Alcaide Ibrahim Soufiani. Transformar esse local num centro de conhecimento e união entre povos, é um tributo que podemos prestar à memória e ao futuro.

Imagens da Casa do Alcaide antes da sua demolição nos meados do século XX, numa imagem colocada numa lona e assinalada num postal antigo
O processo tem tido as suas vicissitudes, como é natural, mas é revelador do empenho das duas partes. A Commune de Ksar El Kebir adquiriu o imóvel e foram criadas três comissões para a gestão do processo, entre as quais uma Comissão Científica, que resultou do estabelecimento de um protocolo entre a Câmara Municipal de Lagos e o Centro de História de Além-Mar, para a elaboração dos conteúdos do Centro de Interpretação, para a qual foram indicados os nomes dos investigadores Maria Augusta Lima Cruz e Luís Costa e Sousa.

Organograma das comissões instituídas e documento de confirmação dos nomes dos investigadores indicados pelo CHAM – Centro de Humanidades

A Casa do Alcaide hoje, destacando-se o contraforte que pertenceu ao edifício original, e onde se encontra uma placa que diz: “Cidade de Alcácer Quibir primeira sepultura do Rei de Portugal Dom Sebastião. Neste lugar situado frente à Grande Mesquita no Bairro da Casbá de Alcácer Quibir, que foi casa do Governador da cidade Ibrahim Soufiani, no tempo da Batalha de Alcácer Quibir ou de Oued El-Makhazin, foi sepultado pela primeira vez o corpo do Rei de Portugal, onde permaneceu entre 04/08/1578 e 10/12/1578 até ser entregue ao Rei de Espanha Filipe II, conforme registo oficial, a seu pedido e sem contrapartidas, sendo o transporte realizado em nome do Rei de Marrocos pelo português André Gaspar Corço. Este lugar é também conhecido pelo nome hotel da pérola.“
Como coordenador da Equipa Técnica e autor do projecto de arquitectura, elaborei o Estudo Prévio, no âmbito das minhas funções no Município de Lagos, que a Câmara Municipal aprovou, que foi entregue à senhora Embaixadora de Portugal em Marrocos, Maria Rita Ferro, e apresentado na reunião do Conselho Comunal de Ksar El Kebir, que o aprovou oficialmente. O estudo prevê a demolição do edifício existente, uma construção incaracterística e de compartimentação exígua, construído no tempo do Protectorado Espanhol, mantendo-se o único elemento que ainda subsiste da construção original do século XVI, um contraforte colocado no seu cunhal. O Programa inclui Recepção e Sala de Exposição no piso térreo, exposição que se prolonga parar a totalidade da cave, Biblioteca/Centro de Documentação, Serviço Educativo e Gabinete no 1º andar, e Cafetaria no 2º andar, recuado, beneficiando de um terraço.





Estudo Prévio do Centro de Interpretação da Batalha de Alcácer Quibir a construir na cidade de Ksar El Kebir

Principais peças desenhadas do Estudo Prévio, na sua versão em português, e declarações de autoria e aprovação

Apresentação oficial do projecto no Conselho Comunal de Ksar El Kebir
A pandemia veio interromper a marcha do processo, mas a Commune de Ksar El Kebir decidiu avançar provisoriamente para a abertura de um espaço expositivo no edifício existente, solicitando-me a elaboração de um Estudo de Utilização do imóvel, que foi entregue, e que incluiu a definição dos trabalhos para a recuperação das fachadas e do interior. Foi também por mim elaborado o logótipo para colocar junto à porta de entrada, com os dizeres em português, árabe e tamazight. A exposição que foi instalada, da exclusiva responsabilidade da Commune de Ksar El Kebir, foi inaugurada pelo senhor Embaixador Bernardo Futscher Pereira.

Estudo de utilização provisória do edifício existente

Obras de beneficiação no imóvel

Colocação do logótipo sobre a porta de entrada
Vídeo da exposição existente
É um facto que as geminações têm uma grande base de relacionamentos de amizade pessoal e de confiança mútua entre os seus interlocutores, mas não podem depender apenas das pessoas. As entidades signatárias dos acordos têm que os assumir e alimentar, envolver as comunidades dos dois lados e desenvolver programas de acção consequentes para benefício das respectivas comunidades. Faço votos que esta geminação perdure e tenha o reconhecimento que merece.

Nota: Os documentos publicados nesta página encontram-se editados pela Commune de Ksar El Kebir em dois livros datados de 2019 e 2020:










































































































































































