Alcácer Quibir, do confronto à cooperação

A Batalha de Alcácer Quibir foi um acontecimento que marcou decisivamente o futuro de Portugal e de Marrocos. Muito se escreveu sobre esse evento, com versões muito distintas umas das outras, desde os discursos oficiais até às investigações históricas, passando pelo imaginário do senso comum. O que motivou a ida dos portugueses aos campos de Souaken (local da batalha), qual a conjuntura internacional em que a batalha se enquadrou, quem foram os personagens que influenciaram as principais decisões, como eram constituídos os exércitos, quem os comandavam nos momentos-chave, ou quais as suas consequências, são questões afloradas pelos investigadores, mas que as narrativas oficiais não acompanham, uma vez que revelam uma complexa relação transcultural e colocam em causa as “verdades” aceites, preferindo manter Alcácer Quibir sob uma cortina de fumo (ou de nevoeiro, se assim preferirem).

Se para Portugal, Alcácer Quibir foi um desastre que moldaria a própria identidade portuguesa, triste e nostálgica, dependente da vinda de um salvador que resolva os seus problemas, para Marrocos foi uma jornada de glória. Unificou o país e assegurou a sua independência em relação ao Império Otomano, criou uma mentalidade de orgulho nacional e de confiança.

A figura do rei D. Sebastião é central em todo este processo. Inexperiente, complexado, imprudente, hesitante e voluntarioso, o mancebo que “deitou este reino a perder”, arrastando consigo a fina flor de Portugal e empenhando as finanças do reino, e, com a sua morte, entregando-o ao seu tio Filipe de Espanha, figura que não esteve isenta de responsabilidades no desfecho da contenda, que afinal lhe foi favorável. D. Sebastião ficou ligado a duas cidades, Lagos e Alcácer Quibir (Ksar El Kebir), pela aposta que fez de Lagos como sua base de assalto a Marrocos, e pelo facto de ter ficado sepultado em Alcácer Quibir quatro meses e uma semana até ser entregue às autoridades portuguesas de Ceuta.

Com base nestes pressupostos, os municípios de Lagos e de Ksar El Kebir assinaram em Abril de 2018 um Acordo de Geminação, que gerou fortes expectativas, pelo facto de se ter considerado não se enquadrar apenas no âmbito das relações entre dois municípios, mas à própria História que une Portugal e Marrocos, pois celebra um acontecimento de carácter internacional ou, melhor dito, das relações entre os dois Estados.

Foi este o entendimento que teve o lado marroquino, pela relevância que a geminação mereceu, patente da Alta Aprovação de Sua Majestade o Rei Mohamed VI, que lhe conferiu uma dignidade e um compromisso de Estado que nos deveria orgulhar a todos. Do lado português, falo do Estado, Governo e comissões de amizade parlamentares, a geminação passou ao lado, como aliás passa a relevância da generalidade do Património de origem portuguesa em Marrocos e as suas efemérides. Seja feita justiça aos embaixadores de Portugal em Marrocos, Dra. Maria Rita Ferro e Dr. Bernardo Futscher Pereira, que apoiaram de forma inequívoca e interessada esta geminação, como aliás as iniciativas em que me envolvi nos últimos 10 anos no âmbito do estudo e promoção do Património de origem portuguesa em Marrocos, e que tiveram neste blogue o seu ponto de partida.

Infelizmente, Portugal está mais virado para a nossa vocação europeia e vê em Marrocos um parceiro comercial, ignorando a papel decisivo que as relações culturais têm no quadro da cooperação entre os povos, da construção de relações de confiança, que, inevitavelmente, acabam por abrir outras portas. O nosso vastíssimo Património Edificado comum, materializado em 10 praças-fortes, e um vasto Património Imaterial, é merecedor de um desinteresse generalizado por parte do Estado português, que não participa na sua valorização, reabilitação e promoção, ignorando a importância que deveria ter na afirmação de Portugal e do seu passado.

O Acordo de Geminação assinado foi objecto do estabelecimento de um Plano de Acção com medidas a curto, médio e longo prazo, que se concretizaram já na participação em conferências – destaco a minha participação na comemoração da efeméride dos 440 anos da Batalha de Alcácer Quibir com a conferência Património Fonte de Desenvolvimento Sustentável: Perspetivas de Cooperação entre as Cidades de Lagos e de Ksar El Kebir, na qual o turismo cultural e o turismo militar foram apresentados como vetores de conhecimento e de desenvolvimento através da valorização do património e do estabelecimento de rotas históricas – e nas inaugurações da Avenida de Lagos em Ksar El Kebir e da Avenida de Alcácer Quibir em Lagos, e do Monumento comemorativo da geminação entre as duas cidades.

Mas para além destas iniciativas de carácter protocolar, foi desenvolvido um projecto de fundo, ainda não concretizado, o da criação do Centro de Interpretação da Batalha de Alcácer Quibir e do Estudo e Valorização do Património Português em Marrocos, a instalar no local onde o Rei D. Sebastião esteve sepultado , a Casa do Alcaide Ibrahim Soufiani. Transformar esse local num centro de conhecimento e união entre povos, é o maior tributo que podemos prestar à memória e ao futuro.

O processo tem tido as suas vicissitudes, como é natural, mas é revelador do empenhamento das duas partes. A Commune de Ksar El Kebir adquiriu o imóvel e foram criadas três comissões para a gestão do processo, entre as quais uma Comissão Científica que resultou do estabelecimento de um protocolo entre a Câmara Municipal de Lagos e o Centro de História de Além-Mar, para a elaboração dos conteúdos do Centro de Interpretação, para a qual foram indicados os nomes da Doutora Maria Augusta Lima Cruz e do Doutor Luís Costa e Sousa.

Foi elaborado um Estudo Prévio por mim, no âmbito das minhas funções no Município de Lagos, que a Câmara Municipal aprovou, e que foi entregue à senhora Embaixadora de Portugal em Marrocos, Dra. Maria Rita Ferro, e apresentado e entregue à Commune de Ksar El Kebir, que o aprovou oficialmente. O estudo prevê a demolição do edifício existente, uma construção incaracterística e de compartimentação exígua, construído no tempo do Protectorado Espanhol, mantendo-se o único elemento que subsiste da construção existente no século XVI, um contraforte colocado no cunhal. O Programa inclui Recepção e Sala de Exposição no piso 1, exposição que se prolonga parar a totalidade do piso -1, Centro de Documentação, Biblioteca e Gabinete no piso 2, e Cafetaria no piso 3, recuado, que beneficia de um amplo terraço.

A pandemia veio refrear o processo, e a Commune de Ksar El kebir decidiu avançar provisoriamente para a abertura de um espaço expositivo no edifício existente, solicitando-me a elaboração de um Estudo de Utilização do imóvel, que foi entregue, e que incluiu a definição das cores a utilizar na recuperação das fachadas. Foi também por mim elaborado o logótipo para colocar junto à porta de entrada, com os dizeres em português, árabe e tamazight. A exposição que foi instalada, da exclusiva responsabilidade da Commune de Ksar El Kebir, foi inaugurada pelo senhor Embaixador Dr. Bernardo Futscher Pereira.