
A magnífica Bab Agnaou ou Porta dos Gnaoua, decorada com placas de xisto justapostas, referenciada por Frei António da Conceição como “Porta do Esquife, Guarda da Alcáçova”, também chamada Porta dos Portugueses
No reinado do sultão Almançor (1578-1603), o rei vitorioso da batalha de Alcácer Quibir, viviam em Marraquexe cerca de 2.000 portugueses — cativos, renegados, mercadores, diplomatas, religiosos e até agentes secretos. A permanência deste grande número de portugueses na cidade deu origem a histórias, mitos e testemunhos, muitos deles incompreendidos, que aqui se referem enquadrados no contexto em que sucederam.
Como por exemplo, dois Vice-Reis de Marrocos terem sido portugueses, assim como altos dignitários do Estado e do exército marroquino; a porta da Alcáçova de Marraquexe, a conhecida Bab Agnaou, ser também chamada Porta dos Portugueses; no reboco do minarete da Mesquita da Kutubia existir um grafito de uma caravela, possívemente realizado por um cativo português; a planta mais antiga da cidade, datada de 1585, ser da autoria de um português (e legendada em português), quando as mais antigas representações gráficas de Marraquexe, normalmente divulgadas, serem gravuras do século XVII e plantas do século XIX.

Vista da cidade de Marrakech, desenho de Auguste de Berard (1824-1881), para ilustrar a viagem do Sr. F. Schickler a Marrocos em 1860, in Le tour du monde, nouveau journal des voyages, Paris
Fundação de Marraquexe
A cidade de Marraquexe (مراكش Murrakuch, Marrocos) foi fundada no século XII pelo Emir Almorávida Abu Bakr b. Omar na planície do Hauz, num local que os xeques de Urika e Haylana lhe aconselharam:
“Escolhemos para ti, ó emir, um local deserto, plano e espaçoso que convém aos teus propósitos. O rio Nafis forma os seus jardins e a terra de Dukkala é o seu celeiro”. (AL-HULAL AL-MAWSIYYA 1951: 34)
Corria o ano de 462 da Hégira (1069-1070) quando Omar levou para lá os seus rebanhos e iniciou a construção de habitações.
No ano seguinte, o seu sucessor, Yussuf b. Tachfin, comprou os terrenos da futura cidade aos Masmudis por setenta dirhames, “montou as suas tendas e edificou um oratório e uma pequena alcáçova (قصبة casbá ou qassaba) para armazenar as suas riquezas e armas, sem a rodear de muralhas”, que seriam construídas pelo seu filho ‘Ali, que demorou oito meses a edificá-las, no ano de 1132. (AL-HULAL AL-MAWSIYYA 1951: 35)
Reza a lenda que, ao acampar com o seu exército no local onde a cidade seria fundada, Yussuf e os seus soldados saciaram a fome com tâmaras que traziam consigo, deitando os caroços para o chão e dando assim origem ao famoso palmeiral de Marraquexe.
A Alcáçova, chamada Qassr al-Hajar ou Castelo das Pedras, por ter sido construída com as pedras do Monte Gueliz, seria também terminada por ‘Ali (AL-HULAL AL-MAWSIYYA 1951: 37). Localizava-se a norte da actual mesquita da Kutubia, do lado da porta denominada Bab al-Makhzen.
No ano de 1146, o Almóada ‘Abd al-Mumin cercou a cidade durante vários meses e tomou-a de assalto. Demoliu a mesquita construída por ‘Ali b. Yussuf e construiu uma outra, junto à Alcáçova, a que chamaram Kutubia (الكتبية dos livreiros), na qual foi colocado um minbar (منبر púlpito de uma mesquita) de grandes dimensões, ricamente decorado, fabricado no al-Andalus. Foi construída uma passagem aérea – ou sabat – para ligar directamente a mesquita à alcáçova. (AL-HULAL AL-MAWSIYYA 1951: 164-6 e 171-2)
O sabat corresponde à ocupação do espaço aéreo da fina’, previsto nos códigos urbanísticos da doutrina malekita, que os proprietários podiam exercer sob a forma de passagens aéreas quando dois edifícios fronteiros lhes pertenciam. (PAULA 2025: 215-6)

As três maçãs e a pera colocadas sobre a cúpula do minarete da Kutubia, num desenho de J. Gallotti
Sobre o minarete da mesquita da Kutubia, Leão o Africano conta uma história curiosa: Yacub al-Mansur mandou aumentar a altura do minarete da mesquita e colocar no topo um espigão com três maçãs de ouro de diferentes tamanhos, encimadas por uma pera pontiaguda, sendo a mais baixa a maior, pesando no total 130.000 ducados africanos. As maçãs teriam sido mandadas fazer pela mulher de Yacub al-Mansur, Immet Allah (امة الله Serva de Deus), que para tal vendeu todas as suas joias (LÉON AFRICAIN 1896: 198-200).
O senso comum diz que as maçãs foram lá colocadas por uma constelação e que não podem ser deslocadas, existindo também a versão que foram lá colocadas através de artes mágicas. A colocação no topo do minarete deste conjunto de enorme peso e dimensões, com um total de 7,80 metros de altura e cujo diâmetro da maçã inferior é de 1,92 metros ou 4 m3 de volume, era de difícil entendimento. Sabemos inclusivamente que, para ser colocado sobre a cúpula do minarete, foi necessário alargar a porta por onde o Muezim passava para fazer o Adhan. (GALLOTTI 1923: 55 e 62)
Marmol Carvajal adianta que as maçãs são na realidade de chapa de cobre revestida a ouro de tibar (ouro muito fino originário do Níger), e que o minarete da mesquita de Sevilha tinha um coroamento idêntico. Foi no tempo do Xerife Almançor, quando Luís de Marmol estava cativo na cidade, que passou a notícia de que não eram de ouro maciço, mas folheadas, e Almançor mandou dourá-las de novo, secretamente, a um joalheiro judeu, para lhes dar a aparência de ouro maciço. (MARMOL CARVAJAL 1573: Fo. 28 e 28 verso)

O minarete da Kutubia encimado pelas três maçãs e uma pera pontiaguda
A Alcáçova das Pedras e a Alcáçova Almóada
Ya’qub al-Mansur construiu entre 1185 e 1190 uma nova alcáçova do lado Sul da cidade, a que chamou Tamurakusht ou as-Saliha. Incluía não só o palácio do sultão, como uma mesquita, mercado e alcaçarias (القيصرية al-qaissaria, mercado especializado onde se vendiam produtos de luxo como sedas ou bijutaria), banhos públicos, armazéns, quartéis e cavalariças. A Alcáçova foi rodeada de jardins, o mais importante dos quais era o do Agdal, a Sul, também encerrado em muralhas. Tinha três milhas de extensão, no qual se produzia muito azeite e toda a classe de frutas, sendo irrigado com água vinda de Aghmat. (AL-HULAL AL-MAWSIYYA 1951: 174)
Com as dinastias Merínida e Oatácida, e a transferência da capital para Fez, a Alcáçova entrou em declínio. A situação foi agravada pela gestão da cidade pelos Emires Hintata (confederação de tribos do Alto Atlas que governou Marraquexe no século XV e início do século XVI), que ocupavam apenas uma pequena parte dos edifícios, votando os restantes ao abandono, como retratou Hassan el-Ouazzani (Leão o Africano) no início do século XVI.
Leão descreveu a Alcáçova como “uma fortaleza do tamanho de uma cidade”, com os seus “onze ou doze palácios”, como o Palácio Real e suas dependências, os palácios dos funcionários do Estado, dos embaixadores, dos soldados e da guarda do sultão, o arsenal, os estábulos e celeiros de grande dimensão, os jardins e o parque chamado Morada dos Leões onde se encontram inúmeros animais selvagens como leões, girafas, elefantes ou gazelas.
Esta sumptuosidade existente no tempo de Mansor (Yaqub al-Mansur, o Almóada) era à data uma miragem, já que apenas estava habitado o Palácio Real e o da Guarda do Rei. “Todos os outros são ocupados por pombos, corvos, gralhas e outras aves. O jardim, anteriormente tão agradável, onde a natureza mostrava os seus tesouros, é local de descarga das imundícies da cidade. O palácio onde esteve a bem cuidada a biblioteca, está em parte ocupado com poleiros para galinhas e o resto convertido em pombal, onde os pombos fazem os seus ninhos nos armários onde se guardavam religiosamente os livros”. (LÉON AFRICAIN 1896: 198 e 202-205)
Após a conquista da cidade pelos Sádidas em 1524 e, sobretudo, após a unificação de Marrocos em 1550 e estabelecimento da capital em Marraquexe, a Alcáçova renasceu. O Xerife Abdalá el-Ghalib empreendeu algumas obras importantes, como a construção de novos palácios na área Norte, a recuperação da mesquita de Elmansur, a construção dos túmulos Sádidas e a criação da Judiaria do lado este.
Mas seria Ahmed Almançor a devolver à Alcáçova a grandiosidade que conhecera anteriormente.

Muralha da Alcáçova de Marraquexe
Os Sádidas
Os Sádidas (السعديون As-Sa’diun ou Banu Zaydan) eram uma linhagem de xerifes, nobres descendentes do Profeta, que, vindos de Yanbo na actual Arábia Saudita, se instalaram em Marrocos no século XVI na região do Sus, estabelecendo a sua capital em Tarudante, cidade que fortificaram.
Nessa época, Marrocos encontrava-se divido politicamente, A sua região norte era governada pelos Oatácidas, com capital em Fez, mas na região sul existia um vazio de poder, uma espécie de autodeterminação das várias tribos Árabes e Berberes, e a gestão dos emires Hintata limitada à cidade de Marraquexe. Os xerifes levavam a cabo uma guerra contra a presença portuguesa na região e aspiravam derrotar o poder dos Oatácidas e unificar Marrocos. Em 1524 conquistam Marraquexe aos Hintata, em 1541 conquistam Santa Cruz do Cabo Guer (Agadir) aos portugueses, forçando a evacuação de Safim e de Azamor, e, em 1549, conquistam Fez aos Oatácidas, forçando o abandono de Arzila e de Alcácer Ceguer pelos portugueses.
Marrocos estava assim unificado sob a sua bandeira e a capital do país foi estabelecida na cidade de Marraquexe. Governava à data o Xerife Mulei Xeque. Com a morte de Mulei Xeque assumiu o poder o seu filho Abdalá el-Ghalib, que obrigou os seus dois irmãos, Mulei Maluco e Mulei Ahmed (o futuro Almançor) a fugir de Marrocos, refugiando-se em Argel sob a protecção dos otomanos.
Com a morte de Mulei Abdalá foi aclamado rei, de forma ilegítima, o seu filho Mulei Mohamed. Ilegítima, porque de acordo com as regras de sucessão Sádida o poder pertencia a Mulei Maluco, que começou a preparar a seu regresso a Marrocos com o apoio dos turcos. As topas de Mulei Maluco depuseram Mulei Mohamed, que pediu ajuda aos portugueses, prometendo em troca ser um fiel aliado de Portugal na região.
(Nota: o termo Mulei, مولاي Mawlay, significa Senhor, precedendo o nome dos soberanos de Marrocos, correspondendo ao nosso Dom).
D. Sebastião invadiu Marrocos, sendo derrotado na batalha de Alcácer Quibir, na qual morreu, juntamente com Mulei Maluco e com Mulei Mohamed. Nessa mesma noite foi aclamado sultão de Marrocos Mulei Ahmed Almançor (المنصور Al-Mansur, o Vitorioso), pelos louros da vitória na batalha.

Ahmad al-Mansur reconhece o corpo de D. Sebastião, pintura de Caetano Moreira da Costa Lima, 1886, Museu Soares dos Reis
Ahmed Almansur Ad-Dahabi (Almançor o Dourado)
Frei Bernardo da Cruz descreve assim Almançor:
“Era Mulei-Hamet homem de bom corpo, muito grosso, cor parda amulatada, tinha o nariz grande, pouca barba nas queixadas, no meio junta: dizem alguns mouros que era pouco animoso, assim no castigo dos vassalos, como em fazer guerra aos inimigos” (CRUZ [15–] 1903: 110). O autor da Crónica de D. Sebastião acrescenta que o Xerife tinha fama de cobarde devido à “primeira batalha que lhe deram os turcos, quando ele fugiu antes de tornar a ela, e os seus terem a vitoria quase havida” (CRUZ [15–] 1903: 110-1).
Este episódio ocorreu na própria batalha de Alcácer Quibir, como atesta Jerónimo de Mendonça (MENDONÇA [1607] 1904a: 67-9).
No primeiro embate, o exército português ganhou vantagem, provocando o caos na vanguarda marroquina e na ala dos cavaleiros de Almançor, que fugiram em debandada. Mulei Maluco, já moribundo devido ao envenenamento de que fora objecto, instruiu o renegado português Reduão, seu lugar-tenente, que ocultasse a sua morte. Reduão assumiu o comando do exército marroquino e virou a sorte dos acontecimentos. (ELOUFRANI 1889: 134 e CRUZ 2009: 337)
O reinado de Ahmed Almançor Ad-Dahabi (الذهبي o Dourado), assim conhecido pela grande quantidade de ouro que trouxe do Sudão Ocidental (actuais Mali e Níger), foi longo, estável e próspero. A batalha de Alcácer Quibir trouxe-lhe grande riqueza, pelos despojos em si, pelos resgates obtidos pela libertação dos nobres cativos e pelo grande número de prisioneiros escravos que fez.

Assinatura de Almançor
Para além destas fontes de riqueza, desenvolveu a produção de açúcar de cana, construindo 18 engenhos que funcionavam nos Montes Claros ou Atlantes (o actual Alto Atlas), que empregavam cada um 2.000 pessoas e mais 200 carros para transporte de lenha, a mineração de cobre e a produção de couros e sedas, produtos exportados a partir dos portos de Safi e do Cabo Aguer. (SALDANHA [160-] 1997: 85 e 87)
Apesar de fortemente influenciado pelos otomanos, Almançor soube fazer frente à influência turca, assegurando a independência de Marrocos face ao Império Otomano, e manteve relações diplomáticas permanentes com as potências europeias, nomeadamente com Portugal, Espanha, Inglaterra e França.
Utilizou os serviços dos renegados europeus, na tradição turca e sádida, criando uma casta de funcionários políticos, administrativos e militares da sua inteira confiança, que deram um contributo inestimável para a modernização do país e do aparelho de Estado.
Formou um forte exército e fortificou os locais mais sensíveis do seu reino.
Engrandeceu a sua capital, Marraquexe, construindo palácios e edifícios públicos.
Nota: Almançor é designado neste texto como Xerife, Sultão ou Rei.

Localização na foto aérea de Marraquexe dos locais referidos no texto
Portugueses em Marraquexe no tempo de Almançor
Nos anos que se seguiram à batalha de Alcácer Quibir viviam em Marraquexe cerca de 2.000 portugueses — comerciantes, padres redentores, agentes, diplomatas, renegados e cativos, estes últimos constituindo a grande maioria. (SALDANHA [160-] 1997: LXXXIX)
Após Alcácer Quibir, o Cardeal D. Henrique, último filho vivo de D. Manuel, cansado e doente, assumiu o trono de Portugal. Viria a morrer em 1580 e a crise dinástica instalou-se, com dois pretendentes – Filipe II de Espanha e o seu primo D. António Prior do Crato, que se proclamou Rei de Portugal. D. António foi cativo na batalha, mas teve a sorte de ser um dos primeiros resgatados em Arzila. Filipe II acabou por assumir o poder no seguimento da invasão de Portugal pelas tropas do Duque de Alba, que derrotaram o exército de D. António na batalha de Alcântara, que se exilou, vindo a morrer em Paris no ano de 1595.
As pretensões de D. António ao trono de Portugal levaram-no e enviar a Marrocos em 1587 um personagem controverso, o espião, agente secreto, religioso e ex-renegado Matias Bicudo ou Becudo, com o objetivo de angariar o apoio financeiro de Almançor para a causa do Prior do Crato. (SALDANHA [160-] 1997: 499 nota de António Dias Farinha)
Eclesiástico de origem judaica natural dos Açores, Matias Bicudo integrava uma rede de informadores que vigiava os movimentos dos otomanos no Índico. As suas necessidades de dissimulação levaram-no, ainda jovem, à conversão ao islão na Turquia, assumindo a identidade do elche Mustafá Bicudo.
Na sua chegada a Marraquexe, o alcaide Ibrahim Sufiane “o mandou agasalhar na judiaria em casas particulares e dar-lhe dinheiro com muita largueza, e lhe alcançou uma audiência com o xerife que, posto que secreta, deu grandes ciúmes ao embaixador D. Francisco da Costa.” (SALDANHA [160-] 1997: 137)
O embaixador D. Francisco da Costa foi enviado para Marraquexe em 1579 por D. Henrique para resgatar os 80 fidalgos que já estavam cortados (com o montante do resgate já negociado). Desembarcou em Mazagão e quando chegou a Marraquexe foi alojado na Judiaria, onde se encontravam os nobres. Não tendo a totalidade do dinheiro do resgate, conseguiu a libertação dos 80 fidalgos, mas ficou como seu fiador, com a promessa que lhe enviariam a verba restante quando chegassem a Portugal. O dinheiro nunca foi enviado e D. Francisco ficou refém em Marraquexe durante 12 anos, onde morreu em 1591. (SANTOS 1998: 80)
Frei Bernardo da Cruz narra assim o acontecimento: “Partiu para Marrocos com guarda de mouros, que lhe asseguraram a pessoa e o dinheiro, pelo interesse que o Xerife disso tinha, em companhia do qual foram frei António de Santarém, e frei José, frades da ordem da Trindade, para lá ajudarem os cativos em seus resgates e necessidades corporais e espirituais; e como do numero dos quatrocentos mil cruzados dos oitenta fidalgos, faltavam cento e vinte mil, por comissões que o embaixador levava d’El-Rei, ficou por fiador deles, com o que os fidalgos logo foram postos em liberdade e se vieram a Portugal”. (CRUZ [15–] 1903: 157-8)
O próprio processo de negociação tendente ao resgate dos nobres fora longo e conturbado, com falsas promessas, desvios de dinheiro e desinteresse familiar, apesar do empenho das ordens religiosas. (SANTOS 1998: 77-9)
Em Marrocos, D. Francisco escreveu um conjunto de obras dramáticas, poesia espiritual e sete peças de teatro, que foram copiadas e trazidas para Portugal pelo seu secretário Luis Fernandes Duarte e integradas no “Cancioneiro de D. Maria Henriques”. (SANTOS 1998: 81-3)
Tentando perceber o que representaria o montante em causa, seguimos o raciocínio (com toda a possibilidade de erro), de que se um plebeu em comissão nas praças de Marrocos ganhava cerca de 1.000 reais por mês (FIGUEIRÔA-REGO 2007: 20), seria razoável admitir que equivaleria hoje a cerca de 1.000 euros, ou seja 1 real equivaleria a 1 euro. Por outro lado, sabemos que um cruzado equivalia no tempo de D. Sebastião a 500 reais (ALMEIDA 2009: página electrónica citada). Nesta linha de raciocínio, os 400.000 cruzados do resgate equivaleriam a 200.000.000 de reais, ou seja, 200.000.000 de euros, que, divididos por 80 davam 2.500.000 euros por cada cativo.

Uma rica casa na Judiaria
Os referidos 80 nobres cativos estiveram pouco tempo em Marraquexe e tinham um tratamento especial. Estavam alojados em ricas casas particulares da Judiaria ou Mellah (ملاح mellah, salina), a expensas do xerife, que deu ordens aos judeus para lhes servirem “de comer, carneiro, galinhas, e outras iguarias em muita abastança, como eles pudessem ter em suas casas”. Tinham total liberdade de movimentos na cidade. “Além de cada um ter sua pousada em casas muito fermosas de judeus, com ricas camas e tapeçarias, gastavam mui explendidamente em vestir mui ricas sedas, e jogar e comer, fazendo maiores despesas que em Portugal.” (CRUZ [15–] 1903: 163-4)
A referida Judiaria é a Judiaria Nova, criada por Mulei Abdalá al-Ghalib em 1557 para alojar os judeus junto do seu palácio, num bairro criado a Leste da Alcáçova no Rahbat al-khail (mercado dos cavalos). (KOEHLER 1940: 4)
A localização da Judiaria paredes meias com o palácio real era comum nas cidades de Marrocos, pela importância económica que os judeus tinham para o poder, e consequente protecção que justificavam.
Jean Mocquet fala da Judiaria e da Aduana dos Mercadores:
“Esta Judiaria fica a mais de uma légua da Aduana onde se alojam os Cristãos, e próxima do palácio do Rei e é como uma cidade à parte rodeada de boas muralhas e tendo uma só porta guardada pelos Mouros. Vivem lá cerca de 4.000 judeus que pagam tributo. Há também alguns cristãos e lá vivem também agentes e embaixadores dos príncipes estrangeiros. Mas a maioria dos comerciantes cristãos vivem na Aduana.” (MOCQUET [1617] 1909: 400)
Sobre a Aduana dos Mercadores, Jerónimo de Mendonça fala dos “cristãos mercadores da Aduana, que é um lugar onde vivem em liberdade, fechados sobre si, e há muitos e mui honrados.” (MENDONÇA [1607] 1904b: 13)

A Kutubia de Marraquexe
Segundo Jean Mocquet, a Aduana dos Mercadores situava-se a uma légua da Alcáçova e da Judiaria, distância aparentemente exagerada, já que a distância em linha recta entre a muralha Norte da Alcáçova ao extremo Norte da Medina de Marraquexe é de 2,7 quilómetros. No entanto, a antiga légua francesa media 10.000 pés (3.000 metros) e a distância que Jean Mocquet refere não seria em linha recta, mas referia-se ao percurso.
Luís del Marmol Carvajal, um militar e historiador espanhol que esteve cativo em Marraquexe, esclarece que a Aduana dos Mercadores se situava junto à Judiaria Velha, na alcaçaria (nota: no coração da actual Medina, entre a Praça Jama’ El Fna’ e a Mesquita Ben-Youssef):
“Perto da Judiaria velha está a praça maior que chamam soco el Quibir. De um lado dele está a Alcaçaria e dentro dela está a Casa da Aduana, donde se recolhem os mercadores Cristãos da Europa com suas mercadorias, e aí são os maiores negócios da cidade.” (MARMOL CARVAJAL 1573: Fo. 32 e 32 verso)
No centro da grande praça do Soco el-Quibir (سوق suq, mercado, palavra que deu origem ao termo açougue, talho) existia um grande monte de terra com várias cruzes de madeira onde eram executados os malfeitores “de diferentes maneiras, uns pendurados pelos pés, e degolam-nos, outros deixam-nos pendurados até que morram, outros penduram por um braço, e abertos pelas tripas os deixam morrer, e nenhum crucificam com os braços abertos”. (MARMOL CARVAJAL 1573: Fo. 32 verso)
António de Saldanha, filho do governador de Tânger e vice-rei da Índia entre 1600 e 1605, foi aprisionado no campo de Tânger em 1592 e ficou cativo em Marraquexe durante 14 anos, onde desfrutava de uma considerável liberdade de movimentos. Tinha casa própria com criados, recebia correio, inclusive correio sigiloso, e contraía empréstimos. A sua casa era ponto de encontro de outros portugueses, mercadores ou cativos. (SALDANHA [160-] 1997: XXI-XXIII)
Deixou-nos uma obra de grande relevância sobre o período em que viveu em Marraquexe, publicada e anotada por António Dias Farinha com o título Crónica de Almançor, Sultão de Marrocos.
Vários religiosos permaneceram em Marraquexe em missões de resgate de cristãos e apoiando-os no seu dia-a-dia. Frei Inácio Tavares e Frei António da Conceição, religiosos da Santíssima Trindade, chegaram a Marraquexe em 1579 acompanhando o embaixador D. Francisco da Costa. Nunca regressaram a Portugal e morreram ambos em Marraquexe após um longo martírio em que ficaram cativos a maior parte do tempo. Frei Inácio em 1591 e frei António em 1589. (S. JOSÉ 1789: 381 e 392)
Durante a sua permanência na cidade assistiram os cativos dando-lhes conforto espiritual e auxiliando-os na fome e na doença. Construíram o hospital a que chamaram Misericórdia resgataram 200 cativos no ano de 1581.
Vivia em Marraquexe uma mulher portuguesa, filha de um dos cativos da conquista de Santa Cruz do Cabo Guer, chamada Lela Quebira, ou Grande Senhora. Era casada com um elche, vice-rei da província do Drá, e viva de maneira que só nos trajos era moura, já que dava muitas esmolas aos cativos cristãos. Tinha duas filhas “mui bem-parecidas que falavam português como ela”, uma casada com o alcaide Solimão, natural de Córdova e estribeiro do Xerife, e outra com um português vedor da fazenda. Recebia na sua casa portugueses e choravam, ela e as suas filhas, ao ouvirem histórias de Portugal. Morreu enferma e na altura da sua morte mandou dizer ao Xerife que “se a queria ver como moura que o não fizesse, porque ela era cristã, e sem embargo disso ele a visitou.” (MENDONÇA [1607] 1904b: 78-80)

Exemplo de prisão de cativos cristãos em Marrocos _ a Sagena de Boulaouane
Os cativos
Os cativos portugueses em Marraquexe não eram novidade antes de Alcácer Quibir, mas chegavam em número reduzido e de forma espaçada. No ano de 1517, Lopo Barriga, o famoso almocadém de Safim, conhecido pela sua valentia, foi feito prisioneiro e levado para Marraquexe. Lopo Barriga também ganhou fama na prisão, onde matou vários dos homens que ali se dirigiam para o verem e insultarem. Foi espancado e a sua camisa enviada toda ensanguentada ao rei de Portugal que pagou por ele um grande resgate. (MARMOL CARVAJAL 1573: Fo. 49 e 49 verso)
No seguimento da queda de Santa Cruz do Cabo Guer foram feitos cerca de 600 cativos, a maior parte dos quais foi levada por Mulei Xeque (pai de Almançor) para Tarudante, mas muitos foram para Marraquexe, como o governador da praça, D. Guterre de Monroi, como conta o anónimo autor da Crónica:
“E tanto que chegou o Xarife a Marrocos (nota: Marraquexe), tanto que se assentou no almexuar (مشور mexuar ou zona de conferência, local aberto e amplo num palácio onde se realizam cerimónias), logo perguntou pelo capitão Dom Goterres. Disseram-lhe que estava no albahes (nota: erro de escrita do autor da Crónica, que deveria escrever alhabes, حبس habs ou prisão) metido, o qual é uma cova onde metem os Cristãos cativos de noite pelos terem seguros.” (SANTOS… 2007: 310)
A filha de D. Guterre, Dona Mécia, também foi levada para Marraquexe porque prometera ao Xerife casar-se com ele após a morte do seu marido:
“Fez-se moura por causa que o demónio ordenou. Dona Mecia emprenhou e pariu uma filha e do dia que nasceu a oito dias morreu, e Dona Mecia da morte da filha a oito dias morreu. Diziam que morrera de feitiços que as outras mulheres lhe fizeram pera a matarem, pelo muito que el-Rei lhe queria, e se esquecia delas.” (SANTOS… 2007: 302 e 304)
Os cativos comuns vivam na Sagena ou prisão dos cristãos (سجن sagin, prisão, palavra que deu origem ao topónimo português Messejana), que se situava a Sul dos actuais Túmulos Sádidas. Vários autores referem-se a ela. Almançor permitiu que os padres trinitários acompanhassem os cativos no seu sofrimento, prestando serviço na Sagena, bem como no hospital da Misericórdia e na igreja (de fundação posterior), construídos pelos cristãos com o apoio do sultão que lhes concedia algumas rendas para a sua sobrevivência. Dependendo da sua situação ou estatuto, os trinitários podiam residir na Sagena, onde recebiam tratamento semelhante ao dos prisioneiros:
“O que ainda mais resplandeceu no cativeiro dos cristãos em Fez e Marrocos, para honra de Deus e prova de Ele favorecer o Xarife, foi a licença que ele deu de se celebrar o culto divino, o qual se fazia com muita solenidade dos ministros, e devoção dos ouvintes, e com isso se consolavam as almas dos devotos com alegrias espirituais, e as dos pecadores com esperanças de divino socorro em suas opressões; porque, além de se dizerem cada dia na sagena missas rezadas e cantadas, as quais os cristãos ouviam com muita devoção, rezando uns o oficio divino, outros as coroas de Nossa Senhora, e outros por contas, havia também pregações com que eram animados a sofrer o cativeiro que padeciam, e a ausência de suas mulheres e filhos.” (CRUZ [15–] 1903: 165-6)

Carta Régia de D. Henrique, Cardeal-Rei (1512-1580) sobre o resgate dos cativos da Batalha de Alcácer-Quibir – Documento do século XVI (1578)
Luís de Marmol Carvajal diz que os Mouros construíram a prisão nuns velhos armazéns abobadados, transferindo para lá os cativos que anteriormente eram encerrados numa área descoberta por trás das cavalariças do palácio, de onde frequentemente tentavam fugir escalando o muro. (MARMOL CARVAJAL 1573: Fo. 30 verso)
Jerónimo Mendonça refere que “tem nesta terra os cristãos cativos d’el-Rei um lugar cercado, a que chamam tercenal (nota: arsenal ou daracana), onde vivem a seu modo, tendo igreja e pregações e tudo o mais como em terra de cristãos.” (MENDONÇA [1607] 1904b: 64)
António de Saldanha descreve a Sagena como tendo paredes de cinco braças de altura e oito palmos de largura e três portas para acesso. Adianta que o Xerife mandou fazer uma outra prisão para os cativos casados. “Fez um hospital para os cativos se curarem, a que puseram os cristãos o nome de Misericórdia. Havia mais de 50 camas onde se curavam muitos elches que diziam que morrendo o queriam fazer entre cristãos”. (SALDANHA [160-] 1997: 83)
Frei Bernardo identifica vários padres que pregavam na Sagena (para além dos já referidos freis Inácio Tavares e António da Conceição), como frei Vicente da Fonseca, da ordem dos Pregadores, o doutor Pêro Martim, da companhia de Jesus, frei Tomé de Jesus, religioso de Santo Agostinho, e frei Luiz das Chagas, frade de S. Francisco. (CRUZ [15–] 1903: 166)
“Não faltavam a estas obras outras muito pias, de sepultar os defuntos, visitar os enfermos e suprir com esmolas as necessidades de muitos cristãos que padeciam misérias, que em tal estado deviam ser muitos.” (CRUZ [15–] 1903: 167)
Jean Mocquet adianta que havia também muitas mulheres cativas: “Na cidade de Marraquexe, a um grande número de Cristãos cativos, tanto homens como mulheres, que daí se vendem para toda a Barbaria”. (MOCQUET 1909: 404)
Em 1597-1598 chegou a peste e de 2.400 cativos morreram 1.600. A Casa da Misericórdia tinha 100 camas (António de Saldanha afirmou anteriormente que tinha 50 camas) e acudiu a muitos deles (SALDANHA [160-] 1997: 309). A peste continuou durante sete anos. “Ficaram dentro da cidade de Marrocos mais de duas mil pessoas por enterrar e apodreceram nas mesmas casas por não haver quem tratasse mais que de si”. (SALDANHA [160-] 1997: 311)
Normalmente os cativos não passavam o tempo todo na Sagena, mas apenas iam lá dormir. Durante o dia trabalham na Daracana, fábrica de armamento situada ao seu lado, ou nas hortas do Rei. Um destes cativos deu o seu nome de família à Horta do Rei, que se chamava Horta do Guerreiro. (CONCEIÇÃO 11585: planta anexa à Relação)

O grande reservatório do Jardim da Menara
Os renegados de Almançor
Os renegados ou elches (علج Ilj, estrangeiro) eram homens que, sendo cativos dos mouros ou fugidos das suas terras, renegavam a fé cristã e a sua própria identidade, e “faziam-se mouros”.
Esta alteração de identidade dificulta e mesmo torna impossível nalguns casos identificar a origem dos renegados, e nos textos consultados surgem discrepâncias nos nomes dos alcaides, ficando por vezes a dúvida sobre se existiriam diferentes renegados com o mesmo nome, ou se o mesmo renegado é identificado de forma diferente conforme os autores. É o caso de Reduão el-Eudj português e Reduão castelhano, de Jaudar paxá natural das Astúrias e Jaudar natural de Tânger, ou de Mansur e Mansorico. Muito provavelmente trata-se de diferentes pessoas, neste tão grande universo de renegados, em que muitos dos nomes adoptados sem dúvida se repetiriam.
Pensa-se que o número de renegados em Marrocos atingisse neste período os 20.000 indivíduos. (NOLET 2008: 71)
O número de cativos da batalha de Alcácer Quibir e, consequentemente, de renegados ao serviço do sultão, aumentou exponencialmente no pós-batalha, sendo enviados para várias partes do reino, sobretudo para Fez e Marraquexe. Inclusivamente, muitos deles chegaram aos banhos de Argel, como testemunhou o Dr. António de Sousa, cativo na cidade, referindo-se a eles a propósito da Língua Franca: “Algumas palavras em português também se utilizam, desde que se enviaram a Argel, de Tetuão e de Fez, um grande número de pessoas desta nação feitas prisioneiras na batalha que perdeu o Rei de Portugal, D. Sebastião.” (HAEDO 1612: 24)
Almançor deixou Fez já no ano de 1579 e regressou à sua capital, Marraquexe, levando consigo 2.500 cristãos cativos e cerca de 18.000 tropas, entre as quais 2.000 renegados. (SALDANHA [160-] 1997: 33)
Segundo António Saldanha, Almançor “começou a favorecer os alcaides dos arrenegados e dar-lhes maiores lugares e de maior confiança de suas portas adentro. E foram estes o alcaide Reduão, castelhano, e o alcaide Mansorico, o alcaide Jaudar, natural de Tânger, o alcaide Solimão, seu estribeiro-mor, e o alcaide Mamut Zarcon.” (SALDANHA [160-] 1997: 25)
O renegado que mais marcou o período inicial do seu reinado foi o português, natural de Vila Real ou de Portalegre, Reduão el-Euldj, homem ligado ao aparelho militar turco, que tinha sido trazido de Argel pelo seu irmão Mulei Maluco, e que até ao ano de 1581 foi o seu braço direito e vice-rei de Marrocos. Henry de Castries afirma que Almançor e Reduão tinham uma grande intimidade e eram inseparáveis. (LES SOURCES… 1909: 37)
Reduão já era vice-rei no tempo de Mulei Maluco, que lhe confiava a governação quando se ausentava da capital (VELLOSO 1935: 327-8). O seu papel na batalha de Alcácer Quibir foi decisivo para a vitória dos marroquinos, ocultando a morte do sultão e tomando a condução das tropas de Marrocos (ELOUFRANI 1889: 134 e CRUZ 2009: 337).
Apesar desta confiança, Al-Ifrani afirma que Mulei Maluco foi envenenado por Reduão, que queria tomar o poder em Fez em nome dos turcos, o que não aconteceu porque os turcos compreenderam a força e a determinação do nacionalismo marroquino. (ELOUFRANI 1889: 137)
No momento da sua aclamação como sucessor de Mulei Maluco, no próprio dia da batalha, Almançor foi esbofeteado em público por Reduão, pela apatia que demostrou ao assumir o cargo (MESA 1630: 88). Apesar disso, Almançor manteve-o como seu Vice-Rei e o seu poder está patente em passagens de uma Relação de uma Embaixada ao Rei de Fez e de Marraquexe em outubro 1579, publicada e anotada pelo Conte Henry de Castries, como é o caso da seguinte:
“Atrás vinham vinte alcaides, os principais deste reino, ricamente vestidos à turca, com belos cavalos bem equipados, e, chegando próximo do Embaixador, saudaram-no. E de seguida chegou o alcaide Redouan, que é vice-rei deste país, num belo cavalo, cujo arnês era guarnecido de ouro, e usando uma couraça esverdeada adornada com ouro sobre carmesim. Vinha vestido com um caftan de brocado e, por baixo, outro de damasco branco, com um corpete de tecido prateado, um arnês muito rico na sua espada, cuja guarda era de ouro ricamente trabalhada e que lhe tinha sido dada por Abd el-Malek, quando ele defendeu a kasba contra Moulay Mohammed (nota: o Esfolado).” (LES SOURCES… 1909: 48)

O Palácio Badi’
Reduão acabou por perder a confiança do sultão e, em 1581, foi assassinado por ordem de Almançor no seu palácio em Marraquexe. (LES SOURCES… 1909: 37)
Jerónimo Mendonça descreve a execução de Reduão. Segundo ele, “nesta cidade estavam todos os alcaides principais, mouros, andaluzes e Elches, entre os quais Reduão, que em privança e dignidade fazia vantagem a todos, quando, estando no cume de suas mal-entendidas bem-aventuranças el-Rei determinou de o matar, não se esquecendo nunca de sua antiga injuria” (trata-se do episódio em que Reduão esbofeteou Almançor). Vendo-se o triste desta maneira, bem certificado de sua desventura, ou fosse por cuidar que escaparia, ou porque realmente o demónio tinha tomado posse dele, disse somente que o deixassem fazer a Celá (صلاة salat ou oração), e que dissessem a el-Rei que morria mouro; deram-lhe os siteres mui breve tempo a esta infernal oração, e como o Xarife havia mandado que o matassem, sem lhe escutarem cousa alguma, num momento o acabaram ás cutiladas”. (MENDONÇA [1607] 1904b: 82-3)
O alcaide Jaudar tinha o cargo de responsável pela educação dos jovens cristãos que serviam no palácio do rei. (SALDANHA [160-] 1997: 27)
Mansorico era outro influente alcaide, natural de Córdova (SALDANHA [160-] 1997: 47). Em relação a Mansorico ou Almanzorico, Henry de Castries diz que o seu nome provavelmente seria a forma como os cristãos lhe chamavam e corresponderia a uma colagem de duas palavras, Almansor + rico. “Almanzorico era o mais poderoso dos Qaids, chegando a ser nomeado Vice-rei do Sudão”. Era também chamado Qaid Monsor Abderahman ou Monsor Rico, como refere Castries. (LES SOURCES… 1925: 84)
Um alcaide português influente era Abdalá Sincos, elche que tinha oitocentos soldados sob o seu comando. “Era português e posto que casado e com filhos e muito rico” (SALDANHA [160-] 1997: 431). Era natural de Serpa e o seu verdadeiro nome era Rui Gomes. (SALDANHA [160-] 1997: 551, nota de António Dias Farinha)
Outro elche português que se distinguiu como militar foi Amu Beja, conhecido como Hamou Bijou ou Hamet ben Jau. (SALDANHA [160-] 1997: 513 nota de António Dias Farinha)
O Alcaide Tabibe, renegado português, serviu de intérprete do Xerife nos interrogatórios aos nobres portugueses cativos na batalha. (VELLOSO 1935: 398)
O renegado português chamado Bakhtiar, cativo em Alcácer Quibir, era o chefe dos cozinheiros dos exércitos. (ELOUFRANI 1889: 196-7)
Al-Ifrani refere os alcaides que assumiam cargos importantes nos exércitos do xerife, como Moustafa-bey (a designação turca bey ou generalíssimo é sintomática da sua condição de renegado), que tinha a seu cargo os spahis e a guarda da porta do palácio; o paxá Mahmoud (outro título turco), encarregue da guarda dos tesouros do palácio e das chaves do tesouro público; o alcaide Eloloudj, chefe da tropa dos renegados; o paxá Jaudar, o conquistador do Sudão e chefe das tropas andaluzas; Omar, o alcaide dos exércitos do Sus. (ELOUFRANI 1889: 196)
Mas não se pense que Almançor se socorria apenas de renegados, já que tinha um conjunto de funcionários administrativos e militares indígenas ao seu serviço. Um alcaide com grande poder era Ibrahim Sufiani, o anterior alcaide de Alcácer Quibir, que Almançor nomeou alcaide dos alcaides e que era homem de grande humanidade e amado por todos, muçulmanos e cristãos. “Foi benemérito de todos os lugares por sua boa natureza e foi grande amigo dos fidalgos e geralmente de todos os cristãos”. (SALDANHA [160-] 1997: 27)

Janíssaros otomanos (tropas turcas constituídas por renegados cristãos) e spahis (cavalaria) por Manesson Mallet, 1683
Os corpos de renegados do exército de Almançor
António de Saldanha apresenta uma relação das tropas que Almançor levou para Marraquexe após a Alcácer Quibir:
“E deixando o alcaide Amet em Alcacere e o alcaide Acem Batuera em Tetuam se partiu para Marrocos (a cidade de Marraquexe) onde entrou já no ano de setenta e nove. E foi recebido com grandes festas levando consigo dois mil e quinhentos cristãos cativos, e os moços para o serviço de sua casa, e quatro mil andaluses, dois mil turcos, quatro mil azuagos e outros tantos xarquis, e dois mil espahis com suas espingardas, tudo gente paga e muito exercitada nas armas de sua profissão que são escopetas grandes como mosquetes e que tiram onça e meia de bala, e dois mil renegados, mui boa gente, e, por serem de mais confiança, os ia antepondo a toda a mais soldadesca e não ficava a guarda da sua casa senão deles”. (SALDANHA [160-] 1997: 33)
Na já referida Relação de uma Embaixada ao Rei de Fez e de Marraquexe em outubro 1579, que relata a visita do embaixador de Espanha a Marrocos, escrita pelo seu escudeiro, descreve a Guarda Real que os recebeu:
“A guarda dos alabardeiros do Rei, que eram cerca de duzentos, atrás deles vinham vinte e quatro solaks (arqueiros de elite), e depois vinte e quatro picos e dois arqueiros. São todos renegados vestidos à turca.” (LES SOURCES… 1909: 47)
Segundo Al-Ifrani, os soldados turcos e renegados que integravam o exército estavam organizados em seis corpos militares:
Os biyak, formavam duas companhias que se colocavam diante do palácio ou tenda do rei; os sollâq marchavam atrás dos byak; os beleberdouch, armados com leqqâf, uma espécie de lanças curtas e largas, marchavam atrás dos sollaq; os chanchariya, tinham a responsabilidade de cozinhar e de transportar os víveres.; os qabdjiya, guardavam as portas da cidade e faziam a ronda às muralhas, para além de se ocuparem das cerimónias das audiências; os chaouchs, que posicionavam as tropas em tempo de paz e de guerra e eram responsáveis pela distribuição das mensagens. (ELOUFRANI 1889: 196-7)

O Borj Norte de Fez, forte construído “à portuguesa” durante o reinado de Almançor, supostamente projectado e edificado por renegados e cativos portugueses. Do lado direito da imagem vê-se o canhão Sidi Mimoun (tradução abençoado), de 12 toneladas e 4,80 metros de comprimento, utilizado pelo exército marroquino na batalha de Alcácer-Quibir
As fortalezas de Almançor
Almançor fortificou dois pontos estratégicos do seu reino, concretamente a cidade de Fez, onde se previa que pudessem estalar revoltas, e a barra de Larache, cidade cobiçada por turcos e espanhóis.
Al-Ifrani comenta a construção destas fortalezas:
“Elmansur executou grandes trabalhos e deixou numerosos monumentos, entre outros as duas cidadelas que edificou em Fez, uma do lado de fora da porta de Eldjisa, a outra face à porta Elfotouh. Estas duas fortalezas, conhecidas pelo nome de El-besâtin, palavra cujo singular é bastião, são duma tal solidez que só nos apercebemos quando as vemos. De entre as construções erigidas par Elmansur, podemos ainda citar os dois fortes construídos em Larache e um dos quais tem o nome de Hisn-elfath; são duas magnificas e solidas obras”. (ELOUFRANI 1889: 260-1)
Tanto as fortalezas de Fez, que são o Borj Norte e o Borj Sul, como as fortalezas de Larache, o Castelo das Cúpulas, Forte Velho ou de Santo António, e o Castelo das Cegonhas, Forte Novo ou de Santa Maria de Europa, são construções abaluartadas providas de orelhões, muito ao estilo renascentista italiano (e português), provavelmente construídas com recurso a projetos e mão de obra de cativos e renegados.
As fortalezas de Fez, deixadas por Almançor ao seu filho Mulei Xeque al-Mamun, não têm grande utilidade militar em termos de defesa da cidade, tendo sido concebidas mais para intimidar a população.
António Almagro confirma este simbolismo das fortalezas de Fez e a sua pouca utilidade:
“A impressão que estas fortificações dão é a de que os seus projectistas não tinham muita experiência relativamente a ataques realizados por exércitos munidos de artilharia pesada e que copiaram meramente modelos vistos noutros locais, sem pensarem muito na sua utilidade ou o risco que o desenho das suas defesas envolvia. É muito provável que a construção destas fortalezas tivesse, nalguns casos, um objectivo mais intimidatório e propagandístico do que eficiência militar”. (ALMAGRO 2017a: 118)
Sobre as fortalezas de Larache, António de Saldanha dá-nos informações sobre a sua construção:
“E com toda brevidade mandou ao alcaide Mansorico que fosse a Larache fazer a fortaleza nova e fortificar a velha que estava na barra, que tudo se fez em seis meses, e lhe deixou sessenta peças de artilharia de bronze e trezentos soldados de guarnição.” (SALDANHA [160-] 1997: 105)

Planta de Larache de 1606, desenhada por Alexandre Massai conforme o original de João Matteo Benedetti, in Descrição e plantas da costa, dos castelos e fortalezas, desde o reino do Algarve até Cascais, da ilha Terceira, da praça de Mazagão, da ilha de Santa Helena, da fortaleza da Ponta do Palmar na entrada do rio de Goa, da cidade de Argel e de Larache, Casa de Cadaval, Arquivo Nacional da Torre do Tombo
Na Planta de 1606 possivelmente desenhada por Alexandre Massai com base num desenho da autoria de João Mateo Benedetti, existente nos Arquivos da Torre do Tombo, o Forte das Cegonhas ainda não está representado, mas apenas o das Cúpulas, o que não deixa dúvidas em relação à maior antiguidade deste último.

Cavaleiros da Duquela
A conquista do Sudão Ocidental
Em 1590 o sultão enviou um poderoso exército para conquistar o império Songhai (império situado no Sahel Ocidental com capital em Gao e cidades importantes como Timbuktu e Djénné) do Mali e explorar o ouro do Níger, iniciando um período de 40 anos de dominação da região pelos xerifes sádidas. O comandante era o jovem renegado Jaudar Paxá, criado no palácio de Almançor desde a infância. De baixa estatura e olhos azuis, era nativo de Las Cuevas, nas Astúrias.
O exército integrava uma dezena de generais — o alcaide Mostafa et-Torki, o alcaide Mostafa b. Asker, o alcaide Ahmed el Harousi el Andalusi, o alcaide Ahmed b. el-Haddâd el-‘Amri, chefe da guarda, o alcaide Ahmed b. ‘Atiya, o alcaide ‘Ammâr el-Feta renegado, o alcaide Ahmed b. Yousef renegado, o alcaide ‘Ali b. Mostafa renegado, o alcaide Bou Chiba el-Amri e o alcaide Bou Gheita el-‘Amri, para além de dois tenentes que comandavam as alas, Ba Hassen Friro renegado e Qassem Waradououi el-Andalusi renegado (ES-SA’DI [16–] 1900: 217) — e compunha-se de 4.000 soldados, dos quais 2.000 soldados de infantaria, renegados andaluzes armados de arcabuzes, 500 cavaleiros renegados cristãos, armados de arcabuzes, e 1.500 lanceiros árabes, apoiados por um comboio de abastecimento com 600 sapadores, 1.000 condutores de camelos, 8.000 dromedários, 1.000 cavalos de carga, 180 tendas, 300 quintais de pólvora, 10 quintais de pulverina e 300 quintais de chumbo, para além de várias peças de artilharia pesada e ligeira. (CASTRIES 1923: 444-5)
Durante o percurso entre Marraquexe e Timbuctu, de cerca de 2.500 quilómetros, o exército demorou 40 dias e perdeu metade dos seus efectivos devido à sede, fome, cansaço e insolação. (CASTRIES 1923: 449)
O exército de Marrocos venceu os 80.000 soldados dos Songhai e entraram na capital Gao, que encontraram quase vazia e num estado lastimável. “O palácio do rei Askia era pior que a casa do chefe dos burros de Marraquexe” e de ouro, nem sinal, apenas encontraram algum arroz, manteiga e mel. (CASTRIES 1923: 451-2)
Askia Ishaq entrou em negociações com Jaudar e propôs-se reconhecer Almançor como seu soberano, pagar 100.000 moedas de ouro e entregar-lhe 1.000 escravos, mais um tributo anual. Jaudar escreveu a Almançor dando-lhe conta da proposta de Askia, da decepção que o Sudão fora para si e da opinião de que o acordo proposto era aceitável. Atacados por uma epidemia de paludismo, o exército retirou de Gao e rumou a Timbuctou em maio de 1591, acampando do lado Sul da cidade. Nessa mesma data, Almançor recebeu a carta de Jaudar e ficou furioso. As ordens dadas eram de conquistar o Sudão sem condições. (CASTRIES 1923: 454)
Jaudar tinha abandonado Gao e não tinha chegado à região das minas de ouro. Almamçor enviou então o Pacha Mahmud b. Zergoun, um renegado rival de Jaudar, com ordens para voltar a Gao, aprisionar Askia e consumar a conquista do Sudão. Zergoun cumpriu com as ordens do xerife. Conquistou o Sudão e penetrou nas regiões auríferas.
O ouro afluiu a Marraquexe. O agente inglês Lawrence Madoc testemunhou a entrada na cidade, em agosto de 1594, de trinta mulas carregadas desse ouro muito fino e muito puro e, maravilhado, escrevia que o Xerife estava a caminho de se tornar o soberano mais rico do mundo. (LES SOURCES… 1925: 87-8)
Almançor começou a pagar aos seus funcionários em ouro. “Tinha à porta do seu palácio 1.400 martelos que batiam diariamente moedas de ouro, e havia, para além disso, uma grande quantidade do precioso metal usada para fabricar brincos e outras joias. Foi este excedente de ouro que deu ao sultão o cognome de Ad-Dahabi (o Dourado)”. (ELOUFRANI 1889: 167)
Quanto a Mahmoud b. Zergoun, ficou no Sudão com o cargo de lugar-tenente do Xerife, não sem antes lhe ter enviado metade das tropas que utilizara, 1.200 escravos homens e mulheres, quarenta cargas de ouro em pó, madeira de ébano e potes de almíscar, entre outras preciosidades. (ELOUFRANI 1889: 169)

Os Montes Claros ou Atlantes
Marraquexe e sua Alcáçova no tempo de Almançor
Uma imagem da chegada a Marraquexe por Jerónimo Mendonça:
“Chegamos a Marrocos que está segundo o que parece ao pé dos Montes Claros, porém a seis léguas deles e chamam-se estes montes por outro nome Atlante, os quais atravessam toda Berbéria de Levante a Ponente, são mui alvos e fermosos, estão sempre os seus cumes cobertos de neve, pela qual rezão lhes chamam claros; está esta cidade em vinte e nove graus e dois terços de nossa banda no Norte, onde sempre residem os Xarifes, é toda chã e mui bem assentada, terá quinze ou vinte mil vizinhos (nota: cada vizinho, ou fogo, teria em média 4-5 habitantes, pelo que a estimativa seria a de uma cidade com 80.000-100.000 habitantes), por haver dentro nela muitas casas de senhores, e alguns palmares e jardins”. (MENDONÇA [1607] 1904b: 62-3)
Os números referentes à população da cidade divergem muito. Aos cerca de 100.000 de Mendonça, correspondem 150.000 segundo Torrés e 300.000 ou 400.000 segundo Jean Mocquet.
“São os mouros nesta cidade infinitos, assim pela assistência dos Xarifes, como pela abundância dela, porém de muitos géneros, porque uns são azuagos que descendem de cristãos, outros se chamam andaluzes que são os que se passaram à Berbéria das guerras de Granada, outros descendem de judeus tornadiços, e muitos de turcos, os outros que são os verdadeiros e naturais, são árabes, e nós lhe chamamos vulgarmente alarves. Estes são de Arábia, donde tomam o nome; são pardos na cor, tem o cabelo nedeo (nota: brilhante, luzidio), e são os mais nobres e mais antigos.” (MENDONÇA [1607] 1904b: 65)

Praça Jama El Fna
Almançor iniciou em 1592 a construção de uma grande mesquita numa zona não edificada da Medina, situada entre a Alcáçova e a mesquita da Kutubia. Chamava-se essa zona Jardim das Oliveiras (رياض الزيتون Riad az-Zaytun), onde hoje fica a Praça Jama el-Fna. As obras duraram apenas dois anos e foram abandonadas, devido à peste, à revolta de Mulei Naçer (filho de Mulei Abdalá e sobrinho de Almançor) e à pressão dos muitos vendedores que utilizavam o local.
As-Sa’di descreve assim o facto:
“Disseram-me que o príncipe, o sultão Mulei Ahmed (Almançor), começou a construção da grande mesquita, e como a idealizou de forma maravilhosa, foi-lhe dado o nome de mesquita da felicidade; mas, afastado deste propósito por uma série de eventos infelizes, o príncipe não pode concluir esta obra que recebeu então o nome de mesquita efémera.” (ES-SA’DI [16–] 1900: 313)
O texto original de As-Sa’di em árabe utiliza os seguintes termos: جامع الهنأ (jama’ al-hna’, mesquita da felicidade) e جامع االفناء (jama´al-fna’, mesquita efémera).
A designação dessa mesquita cuja construção apenas ficou pelas fundações, foi adoptada como topónimo da Praça Jama’ al-Fna’, cuja tradução é erradamente aceite como “Ajuntamento das Artes”, devendo ser entendida como “Praça da Mesquita Efémera”, no sentido de inacabada. Em árabe clássico, o termo فناء fana’ opõe-se diametralmente ao termo بقاء baqâ’ (eternidade). (COLIN 1930: 122-3)

A Alcáçova segundo as fontes consultadas
Luís de Marmol Carvajal tem uma descrição fiel da Alcáçova nessa época:
“Do lado do Meiodia (Sul) esta pegada com a cidade uma grande e muito formosa alcáçova, capaz de quatro mil casas ou mais, toda cercada de fortes muros e torres, e tem seu revelim e fosso, e só duas portas: uma do lado Sul na parte da serra: e a outra ligando à cidade, na qual está uma companhia de Gazules de guarda. Que têm em conta os que entram e saem, e que não saiam os Cristãos cativos, a não ser que levando o seu guarda. Entrando pela primeira porta da muralha está uma praceta onde há muitos silos nos quais os reis antigos encerravam o trigo, e a cevada. E passando a segunda porta está logo uma rua direita que vai dar a uma praça que está diante da mesquita (nota: trata-se da Mesquita de Elmansur) que edificou Abdul Mumen rei dos Almóadas, que é muito grande e formosa por dentro e por fora.” (MARMOL CARVAJAL 1573: Fo. 28)
“Junto a esta mesquita está um colégio antigo que edificado por Abdul Mumen, e se chama Madrassa (مدرسة madrassa, escola, termo que deu origem ao português madraça, preguiçosa). Tudo o que há entre a mesquita principal e o muro, da parte de Levante da alcáçova, e até chegar ao palácio velho, onde viviam os reis passados, ocupam hoje as hortas reais, e está todo aquele trecho que é muito grande cheio de formosas árvores e frescuras. E na outra parte para Poente estão doze armazéns novos que mandou edificar há poucos anos Mulei Abdalá, para encerrar o trigo e a cevada, e são todos feitos de abóbadas. Entre estes armazéns e a praça existiam dois palácios num bairro grande que chamavam el-Bora onde viviam os Cristãos Móçarabes de quem se serviam os reis de Marrocos na guerra, e ali tinham as suas mulheres e filhos.” (MARMOL CARVAJAL 1573: Fo. 29)
“Neste bairro fez agora o Xerife Abdalá as casas da munição, onde se fabricam cada mês quarenta e seis quintais de pólvora, e se fazem muitas escopetas e bestas, e outras armas. Passada a praceta que está diante da mesquita está outro tramo de muro que atravessa de Poente a Levante, e na porta chamada Bab et-Tobul (الطبول et-tobul, os tambores) está outro mercado onde se vendem coisas de comer, e a rua direita vai dar ao Cereque, que é uma grande praça onde se fazem as festas e diante dela estão os palácios reais. Entrando pela porta de Bab et-Tobul à esquerda estão uns edifícios antigos pegados com o muro da própria alcáçova que eram armazéns onde se guardava o pão.” (MARMOL CARVAJAL 1573: Fo. 30)
A Porta dos Tambores deve o seu nome aos tambores que precediam o Xerife nas suas deslocações, como Al-Ifrani refere:
“À frente do sultão levava-se um grande tambor cujo barulho se ouvia a uma boa distância; atrás iam outros tambores, bem como as ghâithât, cujo singular é ghâitha (غيطة ghaita, origem do termo português gaita). Estes últimos instrumentos eram confiados a artistas estrangeiros, mestres na sua arte, e que emanavam sons que excitavam a coragem e inspiravam sentimentos bélicos. Esta música fazia andar os cavalos em cadência. Outros instrumentos eram uma espécie de flautas e longos tubos de cobre a que se chamava trombetas. Tudo isto eram inovações dos príncipes desta dinastia que contribuíram para aumentar a sua glória e poder.” (ELOUFRANI 1889: 199)

Exemplo de prisão de cativos cristãos em Marrocos _ a Habs Cara de Mequinez
“Nestes velhos armazéns os Mouros fizeram de há pouco tempo a esta parte a prisão onde encerram à noite os Cristãos cativos do rei que antes era por trás das cavalariças do palácio: e porque algumas vezes escalavam o muro, e fugiam para a terra de Cristãos, mudaram-na para um destes edifícios que é mais forte por estar coberto por uma alta e espessa abóbada. Diante da prisão está um grande palácio que chamam a casa da vitoria (nota: ou daracana) donde se funde a artilharia, e se fazem as armas, e munições de guerra: e dentro estão as serralharias do rei em que trabalham continuamente muitos Cristãos cativos entre os quais há alguns oficiais, e os mestres principais são Turcos, ou renegados e diante deste palácio estão os edifícios da Guarda dos Arqueiros que guardavam uma porta por onde se entra na Praça do Cereque. Entrando na praça do Cereque vêm-se de um lado e outros muitos palácios antigos e o principal está do lado Sul pegado à casa real onde pousa de contino o alcaide dos alcaides, que é como presidente ou capitão-general e junto estão duas cavalariças. Á esquerda do Cereque do outro lado da casa real está outro grande palácio antigo que é o colégio dos filhos dos reis e de outros senhores principais.” (MARMOL CARVAJAL 1573: Fo. 30 verso)
António de Saldanha refere os arsenais do Rei:
“Fez uma casa onde se fundia de ordinário muita artilharia, muita quantidade de pólvora que fora a que gastavam os soldados se encerravam cada ano mais de dois mil quintais. Fez uma casa de armas onde se faziam muitas escopetas, espadas e todas as guarnições de cavalo com toda a perfeição. E todas estas casas corriam por grandes mestres ingreses, framengos e franceses e os oficiais eram os moços que o xarife mandou trazer para serviço da sua casa que cativaram na batalha de Alcácer Quibir.” (SALDANHA [160-] 1997: 81-3)

As três mais antigas plantas de Marraquexe, exceptuando a de Frei António da Conceição, todas do século XIX: Planta de Ali Bey El Abbassi de 1803, o Map of Marrakesh de 1839 e o Plan de la Ville du Maroc (la rouge) de Paul Lambert de 1867
“Entre este palácio e a casa real estava outro que chamavam Acequife onde residia a guarda secreta do rei que tinha a cargo velar e rondar o palácio de noite. Todos estes edifícios e a casa real antiga foram incorporados por Mulei Abdalá nuns soberbos palácios que vão do muro da alcáçova, desde o palácio velho que está por trás da mesquita, até à Casa Real que sai à Praça do Cereque, onde fez grandes pátios e ricos aposentos onde estão as suas mulheres e as mancebas, afastadas umas das outras, e os palácios e aposentos de sua pessoa, e para as armas e tesouros.
Tem dois formosos jardins de jasmins, loureiros e murtas, e outras flores odorosas, com os caminhos cobertos de parras e árvores frutíferas, cercados de painéis de reixa. Num destes jardins está um tanque de água de quarenta varas de largura e mais de dez de fundo com muitos azulejos onde vai el-rei banhar-se no verão. Este tanque era muito fundo e um dia estava Mulei Abdalá embriagado, caiu dentro e só não se afogou porque as suas mulheres o socorreram, e por isso mandou fazê-lo tão baixo que um homem pode andar de gatas sem se cobrir com a água. Ao lado do palácio real está a casa da moeda, e a aduana.” (MARMOL CARVAJAL 1573: Fo.31)
A Nascente e a Sul do Palácio Real existiam jardins, hortas e um grande parque com animais selvagens. O jardim do lado Nascente, chamado Jardim de Cristal (الزجاج az-Zujaj) era para uso privativo do palácio. O jardim a Sul era o chamado jardim público, designado Jardim Desejado (المشتهى al-Mushtaha), onde existia uma parte com hortas e o Parque, que era habitado por inúmeros animais selvagens, como elefantes, girafas, gazelas e leões, estes últimos mantidos separados dos outros. As hortas, jardins, parque e os animais eram tratados por cativos cristãos, nomeadamente pelo português Guerreiro, que lhe deu o seu nome.
António de Saldanha descreve o Jardim Desejado (e estamos em crer, o do Agdal também):
“Neste estado fabricava o xarife os mais grandiosos aposentos que se podia imaginar, e diante deles uma horta tapada com muros que tinha mais de uma légua de circuito, e lhe fez um tanque cujos muros eram de 40 palmos em largo e tinham em algumas partes 20 palmos de altura, 10 deles debaixo da terra para segurança da fábrica que também estava concertada que se esgotava em dois dias, e numa caldeira lhe ficava tão grande quantidade de peixe que era coisa incrível. Tinha este tanque 500 passos de comprido e 400 de largo; entrava nele um rio, que dando-lhe o seu nome lhe chamava Rio d’el-Rei, de água excelentíssima que mandou trazer da Serra dos Atlantes, que dali está cinco léguas, e vem tanta quantidade que enche este tanque em dois dias, e a água que dele sai rega aquela horta por toda a terra de Marrocos ser estéril sem água. E mandou plantar todo o género de árvore e muitas palmeiras que enxertadas (coisa não vista até então) davam fruta em cinco/seis anos, sem serem altas, cujo fruto por enxertado saiu excelente, e não podem vir a Espanha porque se perdem passando o mar. Havia nesta cerca grande quantidade de vinhas e muitas oliveiras e do mais disto se logravam os cativos que o cultivavam.” (SALDANHA [160-] 1997: 107)
Jean Mocquet visitou o parque dos animais, conforme relata: “De seguida fui ver os leões que estavam fechados num grande pardieiro a céu aberto.” (MOCQUET 1909: 405)

Grafito de uma caravela existente no reboco do topo do minarete da Kutubia, provavelmente da autoria de um cativo português, levantado por Faissal Cherradi Akbil a partir de uma foto
Os grafitos do Minarete da Kutubia
Os grafitos são marcas, desenhos ou escritos, realizados nos rebocos ainda frescos, pelos próprios artesãos que os executam. Constituem fontes históricas de grande importância, que aportam informações sobre os seus autores anónimos, refletem estados de alma, crenças e temores, e denunciam aspectos culturais.
“(Em Marrocos) os grafitos que representam embarcações são os que despertaram maior interesse. A sua aparição tanto em localidades costeiras como noutras situadas no interior levantou logo a controversa questão da sua autoria e sua razão de ser. Pelo seu detalhe, alguns foram atribuídos a marinheiros, muitos deles possivelmente cativos cristãos.” (FERNÁNDEZ AHUMADA 2017: 26)
A sua existência em rebocos das fortificações das praças-fortes portuguesas não causa espanto, seguindo a tradição de muitos outros exemplos existentes em Portugal, mas quando surgem em cidades do interior, onde a população não tem tradição marítima e, sobretudo, se essas cidades fossem lugares de concentração de cativos cristãos, perece evidente a associação dos grafitos a esses cativos, com é o caso de Chefchauen, Mequinez ou de Marraquexe.
No caso concreto de Marraquexe, o investigador marroquino Faissal Cherradi Akbil detectou um conjunto de grafitos no topo do minarete da Kutubia, um dos quais é especialmente interessante, por representar uma embarcação desenhada ao pormenor, por alguém conhecedor desse tipo de barcos, muito provavelmente um cativo, possivelmente português.

A Porta dos Portugueses num postal antigo
A Porta dos Portugueses
A Porta do Esquife ou Guarda da Alcáçova, assim chamada por frei António da Conceição, hoje chamada Bab Agnaou (باب اكناو ou Porta dos ڭناوة Gnaoua, designação dos negros trazidos do Sahel como escravos, que significa “mudo” em Tachelhit, que se libertaram e constituem uma comunidade ligada ao Sufismo e a práticas de danças ligadas ao transe), é também conhecida como Porta dos Portugueses, como refere David Lopes (LOPES [1937] 1989: 32 e 1931: 497), e como se encontra patente em vários postais antigos. Esta designação espanta alguns investigadores, que se interrogam sobre o “erro grosseiro” que é o de pensar que foi “construída por portugueses”:
“A origem de Bab Agnaou é objecto de diversas lendas. O seu paramento de xisto cinzento avermelhado, que justapõe motivos esculpidos, terá proveniência do Andalus ou concretamente de Portugal? Por que razão se cola a esta obra o nome inexplicável de Porta dos Portugueses?” (DUFOIX 2002: 17-8)
Esta questão já foi por nós abordada várias vezes e tem diferentes explicações: fortalezas construídas à portuguesa com mão de obra de cativos ou projectos de renegados; pontes supostamente portuguesas publicitadas pelos agentes do protectorado francês para desvalorizar a competência marroquina; ou ainda celeiros de falésia e grutas pré-históricas habitadas por portugueses como forma de negar um passado pré-islâmico; ou explicações do inexplicável, como muitas que se dão em Portugal quando se diz que determinado vestígio não compreendido vem do tempo dos Mouros!
“A porta constitui um exemplo entre tantos outros onde certos europeus repetem insistentemente, via postais antigos, a atribuição de obras insignes aos Portugueses. Um mínimo de conhecimentos históricos ter-lhes-ia permitido descartar a hipóteses de presença lusitana na cidade ocre.” (RGUIG… 2023: 69)
A presença de determinada comunidade no seio de outra não se mede apenas pela sua condição de potência ocupante. No caso da Bab Agnaou não existe uma influência de estilo, nem existe uma conveniência politico-ideológica de atribuir a autoria da sua empresa aos portugueses, mas existiu de facto uma presença lusitana na cidade ocre, que terá sido longa e envolvendo milhares de pessoas, que entravam por essa porta na condição de escravos, e que só incompreensivelmente não deixaria marcas.

A Porta de Fez ou Bab Khemis num postal antigo
Outras portas da cidade estão ligadas a acontecimentos envolvendo os portugueses, num período em que governava Marraquexe o Emir Hintata Mulei Naçer, que se sentia ameaçado tanto pelos portugueses como pelo Rei de Fez, tendo inclusivamente aceitado a vassalagem em relação a Portugal, que acabou por não se concretizar.
Segundo o acordo, “o rei de Marraquexe deveria receber a bandeira portuguesa e jurar cumprir os seus deveres como bom e leal vassalo. De resto, determinavam as condições que Muley Naçer se tornasse amigo dos amigos de Portugal e inimigo dos seus inimigos, devendo fazer-lhes guerra quando solicitado. As condições determinavam ainda o pagamento anual de uma onça de ouro por cada casa de mouro ou judeu da cidade, assim como o envio cinco cavalos. Por fim, o rei de Marraquexe deveria conceder todas as facilidades para a construção de uma fortaleza, para além de entregar um filho como refém e mais três ou quatro outros notáveis da cidade.” (PESSANHA 2023: 423)
No ano de 1514, o almocadém de Safim Diogo Lopes, fez uma correria provocatória aos arredores de Marraquexe, levando consigo cerca de 450 mouros de pazes (mouros aliados dos portugueses) e 50 cavaleiros portugueses, “os quais mouros de pazes chegaram alguns tanto adiante, até darem com os contos das lanças nas portas da cidade, bradando viva elrei dom Emanuel nosso senhor”. (GOIS, [1566-7] 1790: 258-9)
No ano seguinte, no mês de Abril, Nuno Fernandes de Ataíde, o “nunca está quedo” capitão de Safim fez um ataque às portas de Marraquexe com 550 portugueses e 2.500 Mouros de Pazes. Pierre de Cénival refere que “é difícil pensar que Nuno Fernandes de Ataíde tenha pensado conquistar Marraquexe com 3.000 homens. O seu desígnio seria antes o de aumentar o seu prestígio pessoal, suscitar o entusiasmo nas suas tropas e aterrorizar o inimigo” (CÉNIVAL 1516: 689). Envolveu-se em escaramuças junto da Porta de Fez (actual Bab Khemis), da Porta dos Curtidores (actual Bab Debbagh), da Porta de Sidi Bel Abbas (actual Bab Taghzout) e fazendo uma manobra de diversão à Porta do Campo (actual Bab er-Robb).
Saiu tanta gente por todas as portas da cidade para lhes dar combate, tanto a pé como a cavalo, que se decidiram retirar. (GOIS, [1566-7] 1790: 335-340)

O Palácio Badi’ nos nossos dias
O Palácio Badi’
O Palácio al-Badi’ (البديع al-badi’, o Incomparável, um dos 99 nomes de Allah), foi construído por Almançor para celebrar a vitória na batalha de Alcácer Quibir e afirmar a glória da Dinastia Sádida. Os trabalhos iniciaram-se em Dezembro de 1578 e só ficaram concluídos em 1593 ou 1579 (ano 1002 da Hégira), apesar de a construção nunca ter sido interrompida.
O Badi’ foi idealizado no espírito da arquitectura palaciana andalusina, sobretudo do Alhambra de Granada, inspirando-se no estilo do famoso Pátio dos Leões, mas com uma grandiosidade incomparável, seis vezes maior.
Almançor trouxe operários de todos os países, mesmo da Europa, e cada dia o número de artífices e de arquitectos era tão grande, que foi criado à porta do estaleiro um importante mercado, para onde os comerciantes traziam as suas mercadorias. O mármore trazido de Itália foi pago em açúcar, e o gesso e a cal vinham de todos os lados, inclusive de Timbuctu.
Almançor mostrou-se muito liberal na ocasião: pagou bons salários aos operários e deu-lhes gratificações. Ocupava-se mesmo dos seus filhos, construindo uma creche para os acolher, para que os artesãos pudessem consagrar-se inteiramente ao trabalho sem preocupações.
O Padre Matias de San Francisco acompanhou o mártir Juan de Prado no seu martírio e, após a morte deste, ficou cativo em Marraquexe, tendo trabalhado na manutenção dos jardins e dos lagos do Palácio Badi’. Escreveu sobre o palácio:
“Este Rei tinha muitas mulheres ao seu uso e uma delas era mais querida e estava em dias de parir, e para que parisse com mais comodidade, procurou construir uns quartos na sua casa, com jardins e recreação, que na sua língua chamam Albadea, que quer dizer coisa branca e bela (nota: confusão de frei Matias entre al-badi’, البديع o incomparável, e al-baida’, البيضاء a cor branca) porque é um pedaço de casa, de quatro tramos de construções com grandes salas, aposentos e sanitários, decorados com mosaicos, molduras e relevos, com decoração dourada. As quatro fachadas deixam entre elas um grande espaço mais vasto que uma arena, e tem no seu centro um grande lago e outros quatro lagos nos cantos, o que faz cinco lagos muito profundos, decorados com pedras de alabastro. Entre cada lago há quatro jardins bem arranjados desenhados com arte. E são tão grandes que em cada um há uma parte destinada às flores que formam desenhos, e outra parte para as árvores de frutos, limoeiros, laranjeiras e outras. E são acessíveis por quatro degraus, porque os jardins são mais baixos que os lagos. Ligando os lagos, os jardins e as habitações, há largas alamedas de azulejos que espantam pela sua beleza.” (SAN FRANCISCO 1675: 146-7)

Reconstituição do Palácio Badi’ por António Almagro
António Saldanha também associa a construção do Badi’ às numerosas mulheres de Almançor:
“Fez os mais fermosos aposentos pera sua pessoa que nunca rei teve até seu tempo com muitas fontes de água e tanques, banhos e casas das portas adentro capazes de mil mulheres, com muitas cristãs que serviam das portas adentro e outras que saiam e eram casadas, e todas se aproveitavam do que dava el-rei a suas mulheres e mancebas.” (SALDANHA [160-] 1997: 85)
Al-Ifrani tem a seguinte descrição:
“O Bedî é um edifício de forma quadrangular; sobre cada uma das faces desse quadrado se eleva uma grande e magnífica cúpula, em torno da qual se agrupam outras cúpulas, dos palácios e das habitações. A sua altura é considerável e ocupa uma vasta superfície. É sem dúvida a mais notável construção que existe nos nossos dias; as trombetas são insuficientes para celebrar a sua magnificência.“ (ELOUFRANI 1889: 179-81)

O Palácio Badi’ ou Obra Nova num detalhe da Planta de Frei António da Conceição de 1585. Referenciam-se as “portas que elrei abriu da obra nova para as suas casas”.
Ao nível das representações gráficas, referimos a de Frei António da Conceição, incluída na Planta de 1585, que dá uma ideia coincidente com a descrição do Padre Matias, apesar de fora de escala e proporções. Reconhecem-se os pavilhões com tectos piramidais, os jardins e os lagos, unidos pelos pavimentos de azulejos.

Planta do Palácio Badi’ por Jacob Golius, publicado por John Windus no livro A Journey to Mesquinez, the Residence of the Present Emperor of Fez and Morocco, on the Occasion of Commodore Stewart’s Embassy Thither for the Redemption of the British Captives in the Year 1722
A Planta de Jacob Golius de 1622, publicada por John Windus, para além de representar o palácio de forma mais proporcionada, indica a utilização dos vários compartimentos que envolvem o pátio, desenhando também os seus acessos.

Palatium magni. Regis Maroci in Barbaria… Vista de Marraquexe em 1641, gravura de Adriaen Matham conservada no Gabinete das gravuras de Amsterdão
A Gravura de Adriaen Matham de 1641 é de grande qualidade, apesar de representar o Badi’ visto a partir do exterior das muralhas da Alcáçova.


Planta e Alçado Norte do Palácio Badi’ por António Almagro
Salientamos os trabalhos de António Almagro, que constituem os estudos mais aprofundados que nos nossos dias se realizaram ao nível da reconstituição do Palácio Badi’, e de um dos quais se retiraram as imagens que constam deste artigo. (ALMAGRO 2017b: página electrónica citada)
O Palácio Badi’ foi desgraçadamente desmontado e demolido pelo sultão Mulei Ismail em 1610-1. Foi todo arrasado, os materiais desmontados e dispersos por todas as cidades do país, tendo sido especialmente reutilizados nos palácios que construiu na sua capital, Mequinez.

Cavaleiros mouros
Frei António da Conceição e o martírio dos sete jovens
Falámos de cativos e renegados, mas não falámos dos jovens que Almançor enviou para Fez e Marraquexe após a batalha de Alcácer Quibir. Diz António de Saldanha a este propósito:
“Na sua chegada a Fez, o Xerife (Almançor) decidiu aceitar resgatar 80 fidalgos portugueses e “buscar todos os moços que se acharam da batalha d’el-rei D. Sebastião de quinze anos para baixo, e os mandou circuncisar e vestir à mourisca e ordenando-lhes muitas vantagens. Deixou em Fez trezentos moços e levou consigo a demasia para Marrocos (Marraquexe) para servirem das portas adentro e confiar deles sua pessoa.” (SALDANHA [160-] 1997: 27)
Nesta passagem, António de Saldanha fala dos jovens que o Xerife utilizava para serviço da sua casa. Eram cativos ainda muito novos, o que permitia que fossem educados sem grande ligação ao seu passado. Esta alteração de identidade desenraizada do seu meio dava ao monarca maiores garantias da sua fidelidade. Mesmo assim, como veremos adiante, nem todos cumpriam com esse desígnio. Os jovens eram utilizados como serviçais da sua casa real, fazendo trabalhos domésticos, como servir à mesa, e aprendiam os preceitos religiosos da fé islâmica, sendo vigiados por elches que os educavam e vigiavam.
E mais adiante refere:
“Criavam-se em casa do xarife, das suas portas adentro, todos os moços que levou de Fez que se haviam achado na batalha d’el-rei D. Sebastião. Aos mais mandou ensinar ofícios, outros entendiam só no serviço de sua pessoa. E o alcaide dos alcaides Brahen Sofiane e o alcaide Jaudar, que o era dos moços da casa, lhes ordenava o que haviam de fazer.” (SALDANHA [160-] 1997: 107)
Duarte Nunes de Leão faz suas as palavras de frei António da Conceição e escreve:
“Abdel Melech, aquele Xerife contra quem D. Sebastião foi que cá chamamos Maluco, trouxe da Turquia onde andou ao Reino de Marrocos um abominável e mais que brutal costume, que era das portas adentro do seu Paço servir-se de moços cativos filhos de cristãos que se tomavam nas presas, assim para serviço da sua pessoa, como para satisfazer seus nefandos apetites. A estes moços eram dados por guardas e Capitães, dois Eunucos dos seus que tinham cargo de os guardar e de os fazer tornar Mouros no ingresso daquele infernal colégio, com afagos, com promessas e graves tormentos.” (LEÃO 1610: 100)

Um possível retrato de Ahmed al-Mansur, com o título Xerife rei de Fez e de Marraquexe
Acontece que no ano de 1584, as práticas religiosas cristãs de sete desses jovens foram descobertas e os jovens executados. O martírio dos sete jovens renegados (se lhes podemos chamar renegados), encontra-se documentado na obra de Frei António da Conceição Relacam da vida e morte de sete moços que molei amete rei de Marrocos matou por que erao xpaos dos quais hum era filho delche & de moura de nacao, os outros feitos mouros per força a 4 de julho de .85. escrita per hum religioso de ssma. Tridade. & R. de captivos, guardada na Biblioteca do Escorial. É composta por um manuscrito de 64 folhas, cada uma com duas páginas, cuja narração de seguida se resume, e uma planta que ilustra os locais onde acontecimentos relatados ocorreram, e da qual se falará posteriormente.
Eram eles: Simão de Freitas, aliás Ramadan, era natural de Setúbal e foi capturado em Alcácer Quibir com 10 ou 12 anos, quando acompanhava o seu pai, ficando à guarda de um alcaide de Tetuão que o enviou para Marraquexe, onde foi convertido à força pelo elche Mahmut Zarcon; Fernão (ou Fernando) Ginez, aliás Jaen, era Galego natural de Baiona e foi mandado converter por ordem de el-Rei; João de Paris, aliás Acen, francês criado em Lisboa, cativo na Batalha com 12 anos na companhia do pai, fez-se mouro à força por mão do alcaide Jaudar; Domingos de Gouveia, aliás Buxer, 13 anos, cativo no campo de Alcácer, convertido à força de tormentos; Amaro Gonçalves, aliás Mamí, natural de Colares, cativo com 12 ou 13 anos no campo de Alcácer, foi convertido à força; António da Silva, aliás Jafer, de Setúbal, cativo no mar com 13 anos e oferecido a el Rei de presente, foi convertido à força pelos alcaides Mahmut Zarcon, Jaudar e Amar; Francisco da Esperança, aliás Ali, nascido em Marraquexe, filho de um elche natural de Málaga e de mãe Moura, que começou a aderir às práticas religiosas cristãs, mudando o seu nome muçulmano para outro cristão, rezando o rosário e dando esmolas aos cativos da Sagena.
As práticas dos rapazes eram apoiadas secretamente pelos trinitários Frei Inácio e Frei António da Conceição, por intermédio de cativos da Sagena, que lhes deram livros, cruzes, imagens e rosários, que escondiam. As práticas foram denunciadas por um elche chamado Xabão, que contou tudo ao alcaide Amar, o qual confirmou a denúncia através de um menino de 12 anos natural de Faro chamado Abraém. O alcaide Amar contou o sucedido ao rei. Almançor juntou-os no Mexuar onde foram interrogados por si e pelos alcaides Jaudar (elche castrado que se criara com todos), Amar, Mansorico e Ibrahim Sufiane, e confessaram o teor da denúncia. Almançor mandou então trazer um outro rapaz de origem grega, chamado Girão que atestasse a verdade, o que sucedeu.
Por sugestão de Sufiane, os rapazes foram colocados provisoriamente na Sagena e decidiram castigar um religioso natural de Tavira chamado António Mendes, considerado como o mentor, que foi executado às cutiladas na Praça do Xereque, o seu corpo queimado e apedrejado e onde ficou exposto durante três dias. Os rapazes foram de novo trazidos para o Mexuar onde os interrogatórios prosseguiram, até que Almançor deu ordem de execução. Foram todos executados pelo garrote na chamada Casa dos Mancebos, no Palácio do Rei, por Jaudar com a ajuda de quatro moços maiores que serviram de algozes (carrascos), de nome Bogatiar, Solimão, Piáli e Jairão.
Os corpos foram lançados num poço de um cerrado existente entre o muro da horta e o muro da Alcáçova. No seguimento destes acontecimentos os cristãos da Sagena foram postos a ferros e dois deles foram executados, Francisco Soares, homem honrado, e Domingos Torres, natural de Mazagão.
António de Saldanha refere que após os sete terem sido garrotados, o alcaide Jaudar salvou outros dois da morte, moços muito novos “dizendo que não sabiam o que era ser mouro nem cristão: “Os dois moços que o alcaide Jaudar tirou do martírio conheci eu mui bem. Um deles morreu no ano de quinhentos e noventa e oito, na peste grande, confessando a fé e com sentimento notável de não morrer com seus companheiros (chamava-se Luis Gomes, natural de Estremoz). O outro foi Leão Camelo que com quarenta anos conversei com ele e morreu em minha casa.” (SALDANHA [160-] 1997: 117)
Alguns anos depois as ossadas foram retiradas e trasladadas para Portugal, por Frei Inácio e pelo hortelão da Horta del-Rei, um cativo chamado Filipe Antunes, natural de Unhos, encontrando-se actualmente num cofre em Lisboa, no Mosteiro de S. Vicente de Fora.
No tempo em que o Leão lá da montanha
Do Reino de Marrocos assanhado
Sábio a perseguir o Santo Gado,
Com bramidos cruéis, e ira estranha;
Para não triunfar por força, ou manha
Da tenra meninice em campo armado
Se pôs o forte Inácio, e seu amado
António resistindo a tanta sanha:
Ditosos Cordeirinhos em tal hora,
Quando o fero Leão mais se acendia,
Achastes no perigo estes Pastores.
Ditosa a vossa sorte, pois agora,
Pelos bosques sem luz da Barberia,
Gozais no Céu com eles doutras flores.
(S. JOSÉ 1789: 516)

Planta da Alcáçova de Marraquexe de Frei António da Conceição de 1585, in Relacam da vida e morte de sete moços que molei amete rei de Marrocos matou por que erao xpaos dos quais hum era filho delche & de moura de nacao, os outros feitos mouros per força a 4 de julho de .85. escrita per hum religioso de ssma. Tridade. & R. de captivos, Biblioteca do Escorial
A Planta da Alcáçova de Marraquexe de Frei António da Conceição
A planta da Alcáçova de Marraquexe, que integra a Relação de Frei António da Conceição, é o primeiro documento desenhado que se conhece da cidade de Marraquexe.
É uma representação perspectivada, sem escala, apesar de incluir algumas referências métricas escritas, em passos, correspondendo cada um a cerca de 0,80 metros. É uma planta em estilo “naif”, executada por alguém não muito familiarizado com as técnicas de desenho. É de difícil interpretação, pela quantidade de elementos gráficos que integra e pela inclusão das legendas no próprio desenho, muitas delas de leitura pouco óbvia.
Apesar disso, é um extraordinário documento, que representa a Alcáçova nos finais do século XVI, aportando informações pertinentes para a compreensão desta zona central da cidade.
A Alcáçova está dimensionada, com 804 passos no sentido Poente-Nascente (643 metros) e 690 passos no sentido Norte-Sul (552 metros).
A par da reprodução da planta, apresentamos dois elementos interpretativos da mesma, um dos quais é a sua interpretação, e outro o mapeamento dos eventos descritos no texto da Relação.

Interpretação da Planta de Frei António da Conceição

Locais referenciados no texto da Relação
Um aspecto que ressalta desde logo são as inúmeras referências ao Palácio Badi’, sempre referido como Obra Nova, que ainda se encontrava em construção e não tinha nome. Aliás, a par do Badi’, frei António representa as Casas del-Rei, o que significa que Almançor ainda não vivia nele.
De seguida apresentamos detalhes da planta com a respectiva explicação.

O Paço de el-Rei num detalhe da Planta de Frei António da Conceição de 1585. Estão localizadas a Casa de Lela Fátima irmã delrei, a Casa dos Mancebos, os Banhos, a Mesquita do Mexuar, o Mexuar Grande e o Mexuar Pequeno e o Jardims das Casas delrei a que chamam Alcazar. Indicam-se também dois caminhos: o corredor para a obra de elrei (ou rua delrei) e “por estas portas vai elrei e sai da mesquita à sua casa”.
No complexo que constituía o Palácio Real representa-se não só o Badi’ e as Casas del-Rei, como outros edifícios que nele se integravam, como a Casa dos Mancebos, a Casa de Lela Fátima irmã de el-Rei, o Mexuar Grande e o Mexuar Pequeno, os Banhos, a Mesquita do Mexuar e os Jardins das Casas de el-Rei. Não se representa o Armazém das Mulheres, mas sim três acessos ao mesmo. Integrando o complexo fica-nos a dúvida se seria o Harém ou se seria a Prisão feminina (pela designação Armazém e pelo facto de ter os acessos a partir da área onde estavam a Sagena e a Daracana). Marmol Carvajal fala de “ricos aposentos onde estão as suas mulheres e as mancebas, afastadas umas das outras, e os palácios e aposentos de sua pessoa”, o que faz supor que os haréns se situavam no Palácio do Rei (MARMOL CARVAJAL 1573: Fo.31). Sobre as mulheres legítimas de Almançor temos uma referência de António de Saldanha: “E porque até então não tinha o xarife mulher forra, como eles chamam às legítimas, tomou duas: Lela Suna e Lela Fátima, ambas brancas e fermosas” (SALDANHA [160-] 1997: 29). Outra referência está nos próprios Túmulos Sádidas, onde se encontra sepultada a sua mulher Lella Chebania. (CASTIES 1927: 358)
Nesta zona do desenho também se referenciam várias passagens importantes _ a porta por onde entram para casa de el-Rei, a rua de el-Rei, que constitui o arruamento principal do complexo, e vários “caminhos” interiores, com as referências “por estas portas vai el Rei e sai da mesquita à sua casa” e “Por aqui vai el Rei à mesquita” (nota: trata-se da Mesquita da Alcáçova). Na rua de el-Rei representam-se cinco edifícios: o Armazém das tendas del Rei, as Cozinhas, a Casa da dízima, a Casa onde dizimam e a Arrua del Rei (estábulos?).

As portas de entrada na Alcáçova e a Mesquita Elmansur num detalhe da Planta de Frei António da Conceição de 1585. Referenciadas a Primeira porta (hoje desaparecida), a Porta do Campo (actual Bab er-Robb) e a Porta do Esquife, Guarda da Alcáçova (actual Bab Agnaou). Localiza-se a Mesquita de Elmansur.
Na zona de entrada na Alcáçova, canto Noroeste, vemos o conjunto das 3 portas de entrada, primeira porta, porta do esquife da Guarda (Bab Agnaou) e Porta do Campo (Bab er-Robb), a Mesquita, a escola e o Enterramento dos Reis (Túmulos Sádidas).

A Sagena e a Casa das Abóbadas num detalhe da Planta de Frei António da Conceição de 1585. Estão localizadas a Sagena, a Fonte, a Casa das Abóbadas (Daracana) e o Enterramento dos Reis (Túmulos Sádidas), bem como a rua e as portas para o armazém das mulheres.
Daqui parte a rua direita até ao Terreiro, que desemboca no Terreiro do Paço (Praça do Xereque, Xaraque ou Cereque). Ao longo da rua, a Nascente fica a Sagena e Fonte e a Casa das Abóbadas (Daracana), e por detrás destas, a “rua para o armazém das mulheres” e as “portas para o armazém das mulheres” (seria o Armazém da Mulheres o Harém ou a Prisão Feminina?).

O Terreiro do Paço (ou Xereque) num detalhe da Planta de Frei António da Conceição de 1585. Localiza-se a Porta por onde entram para casa delrei a qual tem soldados, as casas novas que elrei mandou fazer e as casas da irmã de elrei, bem como as portas para o armazém das mulheres. (Nota: o desenho encontra-se rodado 90º para a esquerda)
Do lado Nascente localiza-se a porta por onde entram para casa delrei a qual tem soldados e as portas para o armazém das mulheres.
Do lado Poente do Terreiro do Paço estão as Casas novas que el Rei mandou fazer e as Casas da irmã de el Rei (nota: serão as casas de Lela Mariam[?], a quem faz referência Jerónimo de Mendonça: “Tinha o Xarife Molei Amet que neste tempo reinava em Marrocos uma irmã, a qual chamavam Lela Mariam, mulher já de idade, e que nunca casou, tão avisada, grave e contrafeita que os mouros a tinham por santa, com tão grande conceito de sua virtude que chegou a dar passaportes para o céu, os quais eram tidos em mui grande estima, e não havia senhor que os não pretendesse por valias, ou os não comprasse por dinheiro, não reparando no preço”). (MENDONÇA [1607] 1904b: 76)

O Cerrado e a Horta do Guerreiro num detalhe da Planta de Frei António da Conceição de 1585. Localiza-se o Cerrado onde estão os mártires enterrados nesse poço e a Horta delrei que chamam Guerreiro, bem como a Porta da Traição, e as portas por onde elrei sai para o campo e entra para casa sem rodar o muro.
Do lado Sul está representado o Çerado (cerrado) onde estão os mártires enterrados nesse poço, a Rua pública, deste çerado até às casas del Rei e a Porta da traição, com a referência Portas por onde el Rei sai para o campo e entra para casa sem rodar o muro.
Representa-se a Horta del-Rei a que chamam Guerreiro (nota: a designação vem do facto de o hortelão, ser um cativo português que se chamava Guerreiro), uma vasta área arborizada a Nascente e Sul, que corresponde aos anteriormente referidos Jardim de Cristal e Jardim Desejado.

Os Túmulos Sádidas
Epílogo
A geração dos jovens cativos convertidos foi especialmente aproveitada por Almançor, vindo a constituir, anos mais tarde, uma casta de elite ligada ao poder que, no período da Guerra Civil de 1603-1664, dominava as próprias decisões dos protagonistas das várias facções em disputa: Mulei Xeque em Fez, Mulei Zidane em Marraquexe e Abu Fares na Duquela.
Foi o caso de Sebastião Pais da Veiga (aliás Soliman), natural de Lisboa, que chegou a “cobrador dos impostos reais e das taxas cobradas pelo rei sobre as mercadorias, responsável pelo pagamento do soldo aos homens da guerra, tesoureiro-mor (ou ministro das finanças) do reino de Fez, gestor das finanças do rei e dos seus exércitos. Para aqueles que o conheceram, era o mais poderoso favorito do rei, e segunda personalidade do reino!” (BENNASSAR 2006: 484)
Foi também o caso de Luís Barreto (aliás Ali), natural de Santarém, conhecido como “o monge”, por ter estudado para religioso. O sultão considerava-o um dos seus renegados preferidos, confiando-lhe as tarefas mais íntimas, como verificar se a sua comida não estava envenenada e assisti-lo “ao despertar e deitar”. Mulei Xeque ainda o nomeou responsável pelo escudo e armadura do soberano, “cargo honorífico que fez dele um familiar permanente do rei”. (BENNASSAR 2006: 483 e 486)
Este artigo é a continuação de: https://historiasdeportugalemarrocos.com/2025/08/26/mulei-maluco-e-o-renegado-reduao/








































































































































































