
Dunas no Sul de Marrocos
Nos confins do deserto do Sahara, na área hoje ocupada pelo Senegal, Mauritânia e Sul de Marrocos, uma confederação de tribos nómadas islamizadas desde os finais do século IX, lideradas pelos Lamtuna e Sanhaja, começa a organizar-se como confraria religiosa e militar, os almorávidas (do árabe al-Murabitun, ou aqueles que vêm do Ribat ou arrábida, mosteiro muçulmano). São liderados por Yahia ibn Ibrahim, que, de regresso da peregrinação a Meca, faz uma paragem em Kairouan, de onde se faz acompanhar por Abdallah ibn Yasin, que será o responsável pela difusão do Alcorão e instrução dos partidários almorávidas.
Segundo Huici Miranda, foi o xeque Abdallah ibn Yasin que apelidou a tribo dos Lamtunas de almorávidas, quando derrotaram as tribos berberes que viviam nas montanhas junto ao seu território. (HUICI MIRANDA 1952: 30)
Os almorávidas eram inicialmente chamados al-mulattimûn ou os velados com o litham. Segundo al-Bakri, “todas as tribos do deserto usam o nicab (véu que se coloca na testa) sobre o litham (véu que cobre a parte inferior do rosto), de modo que apenas se vê a órbita dos olhos; em circunstância alguma eles tiram este véu, e o homem que o tirar torna-se irreconhecível para os seus amigos e parentes. Se um dos seus guerreiros é morto em combate e lhe retirarem o véu, ninguém sabe dizer quem ele é, até que seja reposto no seu lugar. O véu é coisa que nunca retiram, como se fosse a sua própria pele. Aos outros homens que não se vestem como eles, utilizam uma alcunha que, na sua língua, significa bocas de mosca”. (EL-BEKRI 1859:373-374)
Em meados do século XI conquistam as duas grandes cidades de chegada das rotas das caravanas, Audaghast e Sijilmassa, então em poder dos Zenata, tomando o controlo do comércio do ouro proveniente da África Central.
A conquista de Sijilmassa em 446 (1054-1055), cidade situada no actual Tafilalt marroquino, realizou-se com um exército de 30.000 camelos de sela, segundo El Bekri. (EL-BEKRI 1859: 367)
Audaghast, cidade grande e próspera, foi conquistada no ano seguinte. A conquista foi violenta, e os almorávidas mantiveram uma vigilância apertada sobre a sua população, porque era vassala do rei do Gana. (EL-BEKRI 1859: 369-370)
Abu Bakr ibn Omar al-Lamtuni foi o primeiro grande chefe militar almorávida e responsável pela conquista do Alto Atlas marroquino e posteriormente do reino do Gana.
A conquista do Alto Atlas aconteceu durante a guerra contra os Zenata, cuja capital estava sediada em Aghmat no Vale de Ourika, que é conquistada no ano de 449 (1057-1058), submetendo-se as tribos Masmudas, os Urika, os Haylána e os Hazmira, e nela se instalaram os chefes almorávidas. (HUICI MIRANDA 1952: 34)
Com base em Aghmat al-Urika, os Almorávidas atacaram Tadla dos Beni Ifren e de seguida Salé, no país Tamasna.
No seguimento da derrota das duas principais tribos Zenata, os Banu Ifren e os Maghraoua, Omar casa-se com a viúva do seu chefe, uma formosa e poderosa berbere de nome Zainab an-Nafzauiya, conhecida como “a feiticeira”, que teria grande influência não só sobre Omar, como também sobre o seu sucessor Yussuf, com quem se casaria posteriormente. Após a conquista do Atlas, Omar segue para Norte derrotando os Masmuda e posteriormente regressa ao Sahara para combater algumas revoltas que aí tinham estalado.

O Alto Atlas marroquino
Abu Bakr b. Omar é aconselhado a fundar uma nova cidade na planície de Marraquexe, dizendo-lhe que “o rio Nafis forma os seus jardins e a terra de Dukkala é o seu celeiro”. O local era habitado por leões, tigres, avestruzes, gazelas e cabras monteiras. Umar levou para lá os seus rebanhos e iniciou a construção de habitações. (HUICI MIRANDA 1952: 34)
Sucede-lhe o seu primo Yussuf ibn Tachfin no ano 463 (1070-1071), que comprou os terrenos da futura cidade aos Masmudis por setenta dirhames. “Montou as suas tendas e edificou um oratório e uma pequena alcáçova para armazenar as suas riquezas e armas, sem a rodear de muralhas”, que seriam construídas pelo seu filho ‘Ali, que demorou oito meses a edificá-las, no ano de 1132. (HUICI MIRANDA 1952: 35)
Yussuf foi assim um continuador da fundação da cidade de Marraquexe na planície do Haouz, junto ao monte rochoso do Gueliz, que passou a ser a capital do império almorávida. Reza a lenda que ao acampar com o seu exército no local onde a cidade seria fundada, os soldados de Yussuf saciaram a fome com tâmaras que traziam consigo, deitando os caroços para o chão e dando assim origem ao famoso palmeiral de Marraquexe.
Yussuf construiu com a pedra do Monte Gueliz um castelo chamado Qassr al-Hajar ou Castelo das Pedras, obra que também seria terminada pelo seu filho ‘Ali. (HUICI MIRANDA 1952: 37)

Muralhas de Marraquexe
A tomada do poder por Yussuf foi um aproveitamento da ida do seu primo Omar ao deserto para esmagar uma rebelião. Quando Omar regressou, encontrou Yussuf proclamado emir e senhor de um poderoso exército, que incluía 2.000 mercenários negros e escravos estrangeiros adquiridos no al-Andalus. Reconheceu o seu poder como emir e regressou a Aghmat, deixando Yussuf na sua capital, Marraquexe.
Tachfin conquista posteriormente o Médio Atlas e os territórios dos Miknasa, as cidades de Mekinez e Fez, e o país da confederação Nafza, o Rif, destruindo a cidade de Nakur e o porto de Al-Mazamma. A conquista de Sigilmassa e Audaghast e a destruição de Nakur e de Al-Mazamma foram fundamentais para assegurar a primazia de Marraquexe no controlo da rota das caravanas, criando um novo “corredor” para o escoamento das mercadorias para o Mediterrâneo, embarcadas nos portos de Salé, Tânger e Ceuta.
Após a conquista de Marrocos e da cidade de Tremecén na actual Argélia, Yussuf proclama-se califa ou príncipe dos crentes (‘amir al-muminin). (HUICI MIRANDA 1952: 41)

Casa de Pilatos em Sevilha
A proclamação de Yussuf como “emir dos muçulmanos e defensor da religião”, foi legitimada numa acta assinada pelo califa abássida de Bagdad al-Mustazhir Billah reconhecendo esse direito. (VIGUERA MOLÍNS 1992: 173)
No al-Andalus, na altura dividido em vários Reinos de Taifas, ou reinos fraccionados, tinha-se formado a partir de meados do século XI uma ideia generalizada da necessidade da unificação andalusina, da legalidade islâmica e da capacidade de resistir às ameaças dos cristãos. Esta ideia era partilhada pela população em geral e manifestada por muitos pensadores e membros das classes mais cultivadas como ulemas e alfaquies, que viam nas taifas uma ameaça à sobrevivência do al-Andalus e nos almorávidas, recentemente proclamados em Marrocos, a sua salvação. (VIGUERA MOLÍNS 1992: 162)
A partir de 1081-1082 Yussuf b. Tashfin começa a receber pedidos de auxílio isolados de vários sectores da sociedade andalusina e recebe também um pedido oficial de Al-Mutawakkil de Badajoz. A queda de Toledo em 1085 origina, no ano seguinte, o primeiro pedido conjunto de três reis de taifas, Al-Mu’tamid de Sevilha, Al-Mutawakil de Badajoz e ‘Abd Allah de Granada.
Sobre a conquista de Toledo por Afonso VI, reza a crónica Al-Hulal Al-Mawsiyya:
“Quando o tirano Afonso, no ano 478 —29 abril 1085 a l 7 abril 1086— se apoderou de Toledo e conquistou as suas províncias e delas se apropriou, cresceu o temor no Andalus e aumentou o pânico, e ficou na fronteira do país de al-Mu’tamíd b. ‘Abbad, aspirando a apoderar-se de toda a península, e temeram o seu poder os reis (de taifas), porque Toledo era o centro da sua circunferência. Escreveu a al-Mu’tamid ‘ala Allah Abü-l-Qasim b. ‘Abbad, pedindo-lhe que entregasse os seus domínios aos seus enviados e governadores e insistia / na sua exigência e exteriorizava a sua alegria pelo triunfo”. (HUICI MIRANDA 1952: 51-52)
Al-Mu’tamid comentou com o seu príncipe herdeiro ‘Ubayd Allah que só o auxílio de Yussuf poderia fazer frente à ameaça de Afonso VI, ao que o príncipe lhe respondeu que a vinda dos almorávidas significaria o fim do Reino de Sevilha. Disse-lhe Al-Mu’tamid: “Prefiro, por Allah, pastorear camelos do que porcos”. (HUICI MIRANDA 1952: 59)
Reinhart Dozy na sua obra Scriptorum Arabum loci de Abbadidis refere esta expressão assim: “Prefiro ser cameleiro em África que porqueiro em Castela”. (DOZY 1846: 189)
Já Al-Himyari, na sua obra Rawd al-Mi’tar, escreve deste modo a expressão: “Mais vale levar camelos a pastar do que levar a pastar porcos”. (AL-HIMYARI 1963: 177)
Yussuf exigiu a entrega de Algeciras aos almorávidas, o que Al-Mu’tamid fez, dando ordem de abandono da cidade ao governador, o seu filho Yazîd ar-Radî.
Em 1086 Yussuf ibn Tachfin recebe em Ceuta um pedido de auxílio de Al-Mu’tamid e dos restantes Reinos de Taifas Andalusinas, ameaçados pelas investidas dos cristãos de Afonso VI de Leão e Castela. Os Almorávidas não tinham em grande conta os príncipes andalusinos, que consideravam pouco devotos e mais preocupados com os prazeres terrenos do que com o combate aos cristãos.

O Estreito de Gibraltar
Yussuf acede ao seu pedido e prepara-se para atravessar o Estreito de Gibraltar em seu socorro. Mas Yussuf não tinha vindo ao al-Andalus para perpetuar os Reinos das Taifas. “Libertar a Península dos cristãos tal foi o nosso único fim quando vimos que estavam quase a ser os seus donos e, por outro lado, quanta era a incúria dos príncipes muçulmanos, o seu pouco entusiasmo em fazer a guerra, as suas lutas intestinas e o seu gosto pelos prazeres. Cada um deles não tinha outra preocupação senão esvaziar as suas taças, escutar cantadeiras e divertir-se. Por pouco que eu viva saberei devolver aos muçulmanos todas as províncias que lhes tomaram os cristãos durante este período calamitoso. Para combater os nossos inimigos enchê-las-ei de cavaleiros e de peões que ignoram o repouso, que não sabem o que é viver na moleza, que não sonham senão em domar e treinar os seus cavalos, em cuidar das suas armas e em precipitar-se para o combate à primeira ordem”. (COELHO, 1989: 272)
Nesse ano de 1086, 12.000 tropas almorávidas atravessaram o Estreito de Gibraltar, e juntaram as suas forças com as dos reis de Sevilha, Granada, Badajoz e Málaga e do irmão do rei de Almeria, muitos chefes de praças locais e voluntários. Afonso VI abandonou o cerco de Saragoça e foi ao encontro dos muçulmanos, reforçado com tropas enviadas por Rodrigo Diaz de Vivar, o famoso El-Cid, o campeador, comandadas pelo seu vassalo Alvar Fañez, sendo derrotado na batalha de Zalaca e retirando em desordem para Toledo. Tashfin regressou a Marrocos deixando no al-Andalus 3.000 soldados. (KENEDY 1996: 162-163)
Em 1088 Tashfin regressou a Algeciras. Encontrou-se com Al-Mu’tamid de Sevilha e ‘Abd Allah de Granada, recebendo apoio militar de Ibn Sumadih de Almeria e Ibn Rashîq de Murcia. O encontro ficou marcado por disputas entre os reis de taifas, concretamente entre Al-Mu’tamid e Ibn Rashîq, e de queixas de ‘Abd Allah em relação ao seu irmão que tinha tomado Málaga, que supostamente lhe pertencia. Tentaram conquistar o castelo de Aledo, mas em vão, e Tashfin decidiu que só regressaria na condição de chefe incontestado dos muçulmanos. (KENEDY 1996: 163-164)

Morabito de Sidi Chachkal no Cabo Beddouza
Entre 1088 e 1090 Tashfin recebe inúmeros pedidos para intervir no al-Andalus e anexá-lo ao seu império. Não eram apenas pedidos dos reinos de taifas, mas de jurisprudentes islâmicos malakitas (escola ou corrente de direito islâmico do Islão sunita, seguida por 20% a 35% dos muçulmanos, sendo predominante no Norte de África) que lhe reconheciam esse direito e essa obrigação. Yussuf era um legalista que se movia mais pelos conselhos dos teólogos do que pelos pedidos de auxílio de carácter político-militar. Esses pedidos eram, entre outros, uma petição do ulema sevilhano Abü Muhammad Ibn al-‘Arabí ao califa de Bagdad pedindo-lhe o reconhecimento de Yussuf para exercer a soberania no Magrebe e al-Andalus como “emir dos muçulmanos e defensor da religião”, uma acta assinada pelo califa abássida de Bagdad al-Mustazhir Billah reconhecendo esse direito, um escrito complementar da acta anterior escrito por Muhammad b. Yahír, uma petição do mesmo Abü Muhammad Ibn al-‘Arabí a Al-Ghazâli no sentido de este emitir uma fatwa (pronunciamento legal no Islão emitido por um especialista em lei religiosa) que legitimasse a intervenção de Yussuf no al-Andalus, a fatwa de Al-Ghazâli confirmando essa intenção e uma carta de Al-Ghazâli a Yussuf exortando-o a exercer esse direito. Para além disso, a posição de Al-Ghazâli era a de que os soberanos das taifas agiam ilegalmente, ocupando abusivamente um poder que não lhes pertencia, e colaboravam de forma traiçoeira com os cristãos. (VIGUERA MOLÍNS 1994: 173-174)
Em 1090 Tashfin regressa a Algeciras decidido a agir por conta própria. Obriga ‘Abd Allah a entregar-lhe Granada e toma Málaga ao seu irmão Tamîm, exilando os dois em Aghmat al-Urika, onde ‘Abd Allah escreveria a sua obra al-Tibyan.

Mesquita principal de Chefchauen
Yussuf pediu então uma fatwa aos alfaquis, cujo teor era o seguinte:
“Tomamos sobre nós, escreviam no final, responder diante de Deus por este acto. Se estamos errados, admitimos na nossa vida futura o engano da nossa conduta, e declaramos que vós, emir dos muçulmanos, não és responsável; mas se cremos firmemente que os príncipes andalusinos, se os deixares em paz, entregarão o nosso país aos infiéis, terás que prestar contas a Deus pela tua inação”. (DOZY 1861: 234-235)
Yussuf regressou a Marrocos, mas deixou o seu primo Seyr b. Abi Bakr no Andalus para prosseguir a conquista.
Em 1091 Seyr conquista Córdova, Carmona, Ronda, Sevilha e Almeria. Sevilha foi ocupada em Setembro desse ano.
Em 1094 seria tomada Badajoz a Ibn al-Aftas al-Mutawakkil, que foi executado juntamente com a sua família. Os almorávidas não lhe perdoaram ter entregado Santarém, Lisboa e Sintra a Afonso VI em 1093. (LOURINHO 2020: 179-180)
Al-Makkari descreve a batalha por Sevilha, que resistiu durante um mês ao cerco imposto por Seyr b. Abu Bakr. O comandante almorávida decapitou dois dos filhos de Al-Mu’tamid, Al-Fath al-Ma’mun e Yazid ar-Radhi, tendo desfilado com a cabeça de Ar-Radhi na ponta de uma lança, frente às muralhas da cidade. Al-Mu’tamid pediu ajuda a Afonso VI, que lhe enviou um exército, mas Seyr b. Abu Bakr mandou ao seu encontro 10.000 cavaleiros que os travaram junto a Almodôvar. (AL-MAKKARI 1843: 297)
Quando os almorávidas entraram em Sevilha mataram outro dos seus filhos, Malik Fakhru ad-Dawla, e Al-Mu’tamid foi preso com o seu filho mais velho Rachîd, a sua mulher ‘Itimad e com o que restava da sua família. Deu ordem aos seus outros filhos que se rendessem, Ar-Radî em Ronda e Mu’tadd em Mértola, mas Ar-Radì já estava morto. Ainda tentou falar com Seyr enviando-lhe o seu filho Rachîd, mas sem resultado.
Seyr, pouco depois de ocupar o palácio de Sevilha, deu ordens a Al-Mu’tamid que se preparasse para ir para África. Embarcou com a família e filhos com destino a Tânger e daí para Mequinez, sendo posteriormente levados para Aghmat al-Urika. Foi acompanhado pelas suas mulheres, entre as quais ‘Itimad Rumaykiyyah, filhos e servos. O seu primogénito, Abu al-Hassan Obeydullah ar-Rashid, e designado seu sucessor, também o acompanhou. (AL-MAKKARI 1843: 298-299)

Mausoléu de Al-Mu’tamid em Aghmat al-Urika
No ano de 1094 o Gharb Al-Andalus estava todo em poder dos almorávidas, que fixam a fronteira com os reinos Cristãos no Vale do Tejo. No entanto, a ocupação Almorávida vem criar conflitos na sociedade multi-étnica e multi-cultural andalusina, tradicionalmente tolerante e aberta, que vivia no respeito pelos direitos das várias comunidades. Iniciam-se revoltas no seio dos moçárabes e muladis, em resposta à intolerância do poder dos alfaquís.
“A vitoria dos almorávidas trouxe para a Espanha Árabe, o triunfo dos alfaquís e uma nova época de intolerância religiosa. Isso desgostou grandemente a aristocracia hispano-árabe e as classes cultas, aquela desapossada dos seus bens e estas atingidas pela condenação sistemática das suas obras e pelo desaparecimento da liberdade intelectual.” (DOMINGUES 2010: 173)
Yussuf ibn Tachfin morreu no ano de 1106 e foi enterrado no seu palácio em Marraquexe, sucedendo-lhe o seu filho Abû al-Hasan ‘Ali b. Yussuf. (HUICI MIRANDA 1952: 96)
‘Ali b. Yussuf atravessou o Estreito de Gibraltar pela primeira vez em 1106, pela segunda vez em 1109, pela terceira em 1117, conquistando Coimbra, pela quarta em 1121, esmagando uma rebelião que havia estalado em Córdova,
Durante a primeira metade do século XII as tropas almorávidas estão permanentemente em actividade na Península, atacando em diversas frentes. Este período é muito marcado pela guerra contra os cristãos, tanto os de Castela e Leão, como os de Portugal, que competem entre si na conquista dos territórios na posse dos muçulmanos.
Mas as relações entre almorávidas e andalusinos começam a deteriorar-se, não só com os árabes, mas sobretudos com os moçárabes, que sofrem perseguições e deportações, tanto para o Magrebe, como para os reinos cristãos.
No entanto, a principal ameaça ao poder almorávida não está na Península, mas sim no Magrebe e ‘Ali b. Yussuf parte definitivamente para Marrocos quando uma nova dinastia berbere surge, os almóadas, que põe em causa o poder almorávida.
‘Ali b. Yussuf morreu em Marraquexe no ano de 1143, sucedendo-lhe o seu filho Abu Muhammad Tachfin b. ‘Ali b. Yussuf. (HUICI MIRANDA 1952: 146)
Abu Muhammad foi governador do al-Andalus em vida do seu pai, onde melhorou a eficácia dos exércitos e desenvolveu várias obras de fortificação. Em 1133 venceu os cristãos próximo de Zalaca e em Jebel al-Qasr. Após ser proclamado emir dos Almorávidas não voltou ao al-Andalus, concentrando-se na luta contra os almóadas em Marrocos.

Morábito no Alto Atlas marroquino
Originários da tribo Harga, parte da confederação dos Masmuda, do Anti-Atlas marroquino, os almóadas (do Árabe Al-Muwahidin, ou os unitários, no sentido de monoteísmo religioso), têm a sua origem enquanto movimento organizado no ano de 1122, no Ribat de Tinmallal ou Tinmal, situada na região do Tiz’n’Test, no Alto Atlas, entre as cidades de Marraquexe e Tarudante.
O seu fundador, de nome Abu ‘Abd Allah ibn Tumart, sai de Marrocos ainda novo e após fazer o Hadj, a peregrinação a Meca, estabelece-se em Bagdade. Regressa a Marrocos com 28 anos e em Tinmal proclama-se Mahdi (termo que designa o redentor profetizado do Islão), exortando os muçulmanos a fazerem a jihad ou guerra santa.
A proclamação foi realizada com o apoio das tribos Harga, Tinmallal, Hintáta, Gadmiwa, Haskura e Sankaja, durante a qual se comprometeram a defendê-lo e foi promulgada a guerra contra os Lamtuna (almorávidas). (HUICI MIRANDA 1952: 129)
Conta o cronista Ibn Buyayr que “’Abd Allah b. Tumart, o chamado Mahdi, entrou na mesquita principal de Marraquexe numa sexta-feira e fez as suas orações junto ao minbar (púlpito existente nas mesquitas, onde o imã profere o sermão da sexta-feira). Um dos guardas da mesquita disse-lhe: ‘Esse lugar é o lugar do emir dos muçulmanos’. Respondeu-lhe: ‘As mesquitas são de Deus’. Quando chegou o emir dos muçulmanos, ‘Ali b. Yussuf, para se sentar no seu lugar, todos se levantaram menos o Mahdi. Terminada a oração, o Mahdi saudou-o e disse-lhe, entre outras coisas: ‘Muda o que está reprovado no teu país, porque os teus súbditos te pedirão contas’. O emir dos muçulmanos ‘Ali b. Yussuf não lhe respondeu, mas quando chegou ao seu palácio enviou-lhe esta mensagem: ’Se precisares de alguma coisa, será concedida’. Respondeu-lhe: ‘Não preciso de nada nem quero nada, apenas pretendo mudar as coisas que estão reprovadas’. (HUICI MIRANDA 1952: 118)
A partir deste dia, Ibn Tumart não mais deu descanso as almorávidas. ‘Ali b. Yussuf tentou aprisioná-lo, enviando contra ele um exército comandado por Abü Bakr, al-Lamtuni, que foi dizimado por Ibn Tumart.

Marraquexe
No ano de 1130, um exército de 40.000 almóadas, comandados pelo xeque Abu Muhammad al-Bachir, desceram o Atlas e dirigiram-se a Marraquexe. Os Almorávidas enviaram contra eles 100.000 homens, entre cavaleiros e peões, que foram derrotados e tiveram de fugir para o interior da cidade. Marraquexe foi cercada durante 40 dias, após os quais um forte exército almorávida saiu da cidade e massacrou os almóadas na Batalha de Al-Buhaira, sobrevivendo apenas uns 400 dos 40.000 que a cercavam. (HUICI MIRANDA 1952: 137-139)
Ibn Tumart morreu em Tinmal nesse ano de 1130, sucedendo-lhe ‘Abd al-Mumin b. ‘Ali, um berbere da confederação Zenata, conhecido como Siraj al-muwahidin, a candeia dos almóadas, que foi o primeiro califa da dinastia.
No ano de 1146 ‘Abd al-Mumin dirigiu-se a Marraquexe com o seu exército. Acampou junto ao Monte Gueliz, onde se instalaram as tribos que vinham com ele. Daí dirigiram-se a Marraquexe que sitiaram. O cerco durou vários meses, até que Marraquexe foi tomada de assalto. Durante três dias foram massacrados os almorávidas, incluindo Ibrahim b. Tachfin. (HUICI MIRANDA 1952: 164-166)
Com a queda de Marraquexe, cai o império Almorávida em Marrocos.
‘Abd al-Mumin ficou em Marraquexe durante três após a sua conquista, tendo-se apoderado dos tesouros dos lamtunis, e obrigando os almóadas a abster-se de entrar na cidade até que fosse purificada. Os alfaquis disseram-lhe para edificar outra mesquita, o que foi feito, tendo Mumin demolido a que fora edificada por ‘Ali b. Yussuf. Na nova mesquita, chamada Kutubiya, foi colocado um minbar de grandes dimensões, ricamente decorado, fabricado no al-Andalus. (HUICI MIRANDA 1952: 171-172)
Mumin morreu em Rabat el-Fath, junto a Salé, no ano de 1153 e o seu corpo foi trasladado a Tinmallal e enterrado na porta do sepulcro de Al-Mahdi, sucedendo-lhe o seu filho Yusuf b. ‘Abd al-Mumin. (HUICI MIRANDA 1952: 187)
Os almóadas precisaram de 25 anos para realizar a conquista do Magrebe.
Para fazer face aos almóadas em Marrocos, os almorávidas deslocam grandes contingentes do al-Andalus para o Magrebe, o que permitiu que os andalusinos se começassem a unir e a atacar o poder almorávida na Península.
A queda do império almorávida no Magrebe, a vitória de Afonso Henriques na batalha de Ourique em 1139, na qual o exército de Ali ibn Yussuf sofreu pesada derrota, e a revolta de Ahmed ibn Qasi e dos muridinos em 1144, contribuíram decisivamente para o fim almorávida no al-Andalus.
Algumas bolsas Almorávidas sobreviveram a grande custo, lutando contra as ofensivas dos cristãos e contra uma nova vaga de Reinos de Taifas que se vão instalando. Em 1147 as últimas bolsas de resistência almorávida foram eliminadas, restando apenas algumas guarnições que se mantiveram até à ocupação almóada, como aconteceu em Córdova.
Viguera Molíns considera que as Segundas Taifas apenas duraram entre três e quatro anos, ou seja, entre a data da revolta de Ibn Qasi em 1144 e a conquista de Sevilha pelos almóadas em 1148. (VIGUERA MOLÍNS 1992: 189)
Assim, a maior parte das revoltas que estalaram no âmbito das Segundas Taifas acabaram rapidamente por tomar o partido dos almóadas.

Muralhas de Silves
Abu al-Qasim Ahmad b. al-Husayn b. Qasi era um convertido de recente data, um muladi nascido em Silves, que tivera uma “mocidade estouvada de orgias”. Quando os seus pais morreram converteu-se ao Islão e vendeu todos os bens que recebera de herança. Metade do dinheiro deu aos pobres e com a outra metade construiu um Ribat, para onde se retirou e se dedicou à meditação. No Ribat escreveu o seu tratado fisolófico-teológico sufi, o Khal’al-Na’lain fi’l-Tasawwuf, obra sobre o êxtase, cuja importância foi tal que serviu de inspiração a filósofos místicos do Islão como Ibn ‘Arabi. (DOMINGUES 2010: 180-182)
Da teoria, Ibn Qasi passa à acção, e funda um movimento político, os múridas ou muridinos, os que conhecem a vontade de Deus, cuja influência se afirma a cidades como Silves, Mértola ou Niebla.
Ibn Qasi proclama-se Mahdi, ou Messias, e os seus seguidores acreditavam que fizera numa só noite a viagem a Meca. A partir desse momento começa a assinar-se como Muhammad Ibn Qasi Abd Allah.
Nesse ano de 1144 toma a cidade de Mértola e é aclamado por Ibn Uazir de Évora, Ibn al-Mundir de Silves e por al-Labide b. Abb Allah de Santarém. (DOMINGUES 2010: 189)
No seguimento destas aclamações, Beja e Ossónoba aderem à revolta e Al-Mundir conquista Huelva e Niebla, sendo travado na tentativa de conquistar Sevilha e Córdova. Mas a situação descamba no ano de 1145, quando Al-Mundir e Ibn Uazir entram em confronto, sendo Al-Mundir feito prisioneiro em Beja. Ibn Qasi está numa situação desesperada, com Al-Mundir preso e Ibn-Uazir ameaçando-o a partir do Norte. Agravando a situação, Ibn Gânia de Córdova, tendo tomado conhecimento destas disputas, consegue trazer para o seu lado Ibn Uzir e Al.Mundir, que entretanto fora libertado.
Ibn Qasi vai então a Salé pedir ajuda a Abd al-Mumin, cometendo o mesmo erro que Al-Mu’tamid tinha antes cometido com Yussuf ibn Tachfin. Nesse encontro ficou assente que os almóadas iriam invadir a Península.

A Mulher Morta. O Monte Mussa visto do lado de Ceuta
Ibn Qasi volta ao al-Andalus em 1147 acompanhado de um forte exército almóada comandado pelo general Barraz Ibn Muhammad al-Macufi, conquistando Tarifa e Algeciras. Dois outros exércitos atravessam o Estreito de Gibraltar. Um comandado por Omar ibn Salah as-Sanhaji, que se dirige para Xerez e Niebl, e outro comandado por Mussa ibn Sa’ide. Entretanto Ibn Qasi conquista Mértola e posteriormente Silves, com o apoio de Barraz,
Ibn Uazir é então atacado pelo Sul, por Ibn Qasi que lhe conquista Beja, Badajoz e Évora, e pelo Norte, por Afonso Henriques, que lhe conquista Santarém, Lisboa, Sintra, Almada, Palmela e Alcácer. Por exigência de Barraz, Ibn Qasi e Ibn Uazir reconciliam-se. (DOMINGUES 2010: 198-200)
No ano seguinte, 1148, Ibn Qasi e Barraz conquistam Sevilha, que fica nas mãos dos almóadas. Barraz dirige-se então para Leste e Ibn Qasi a Ibn Uazir regressam aos seus domínios.
Nessa altura Al-Batrugi de Niebla expulsa os almóadas e proclama-se aliado dos almorávidas. Ibn Qasi, contra todas as expectativas, acompanha Al-Batrugi e proclama Silves independente do poder Almóada. Outras cidades acompanharam a revolta e no Magrebe prepara-se outro exército sob o comando do general Yusuf ibn Sulaiman, que derrota os revoltosos, mas mantém-nos no poder.
No ano de 1150, Abd al-Mumin dirige-se a Salé e ordena aos andalusinos que se lhe juntassem para lhe prestarem vassalagem. Ibn Qasi envia um emissário com a mensagem que não iria, nem reconhecia o poder almóada.
Entra então em contacto com Afonso Henriques, propondo-lhe uma aliança contra Ibn Uazir. O Rei de Portugal envia-lhe “uma armadura, uma lança e um cavalo armado à maneira goda”, como testemunho da aliança. (DOMINGUES 2010: 207)
Os habitantes de Silves não aceitaram esse pacto e revoltaram-se em 1151. Conta-se que o próprio Al-Mundir terá cortado a cabeça de Ibn Qasi, que foi passeada pelas ruas de Silves espetada numa lança, com um letreiro que dizia “eis aqui o Mahdi dos Cristãos”. (DOMINGUES 2010: 209)
Ibn Alabar conta que o assassinato de Ibn Qasi foi no ano de 1151 no palácio do Xarajibe: “Assassinaram-no no mês de jumada Iº de 546, no Alcácer do Xarajibe onde vivia”. (DOZY 1847: 200)
Após a morte de Ibn Qasi o Gharb al-Andalus foi governado por Ibn Uazir. Em 1156 os almóadas tomam Évora e Beja e no ano seguinte Silves e Mértola.
O movimento Muridine ainda manteve uma praça durante alguns anos, Tavira, governada por Ali Ibn Al-Wahibi, atacada pelos almóadas dia e noite a partir de Cacela, a qual só foi conquistada em 1167 com uma força vinda de Marrocos.

O Mapa do al-Andalus de Al-Idrisi
Os Almorávidas ocuparam as Baleares em 1126 e aí permaneceram até à conquista pelos almóadas em 1203. Em Cádis o almirante ‘Ali b. Maymun revoltou-se contra os almorávidas e proclamou o poder almóada em 1145. Em Córdova, o qadi Ibn Hamdin revoltou-se, mas os almorávidas retomaram o domínio da cidade até à sua conquista pelos almóadas em 1148. Granada foi independente entre 1144 e 1146 por mão de Zafadola Ibn Hüd. En Málaga se manteve-se independente entre 1145 e 1153, governada por Ibn Hassun. O Levante proclamou Ibn ‘Abd al-‘Azíz de Valência emir do Levante do al-Andalus, e o sucessor Muhammad b. Mardanís, transferiu a capital para Murcia, onde se manteve entre 1147 e 1172.
Em 1061 Abd al-Mumin regressa ao al-Andalus, onde nomeia seu governador o seu filho Yusuf. Transfere a sua capital para Córdova, com a ideia de restaurar o esplender do antigo Califado.
O ano de 1165 marca o início da actividade de Giraldo o “Sem Pavor” no Alentejo. Sediado no castelo de Juromenha com o seu exército privado, vivia á margem da lei e era conhecido pelo terror que infundia às populações muçulmanas. Geraldo era um mercenário que não tinha motivações patrióticas ou religiosas, negociando com Afonso Henriques as praças que tomava aos muçulmanos com o seu bando de mercenários, recebendo em sua troca dinheiro ou outras benesses.
As origens de Giraldo não são bem conhecidas, mas uma das possibilidades é que seria um moçárabe, provavelmente natural de Santarém. O seu conhecimento das terras do Gharb al-Andalus e das suas cidades, dos costumes e língua árabe, indiciam que terá crescido no seio da sociedade muçulmana.
Este seu passado de cristão arabizado seria confirmado nas referências que nos textos árabes são feitas à sua pessoa, apelidando-o de galego, traidor, cão, estrangeiro e renegado, mas eta conclusão poderá não ser tão evidente. Por um lado, as referências a Afonso Henriques não são assim tão diferentes, já que frequentemente é apelidado de traidor galego, e o próprio conceito de traição não corresponde ao que hoje utilizamos, como esclarece Hui Miranda, quando diz que tomar cidades à traição significa tomá-las de surpresa. (IBN SÂHIB AL-SALÂ 1969: 137)
No ano de 1169 Giraldo cerca Badajoz e pede ajuda a Afonso Henriques, que conquista a cidade. Ao saber desta situação, Fernando II, o Baboso, rei de Leão, a coberto de uma aliança que mantinha com os mouros de Badajoz, cerca Badajoz.
A cidade estava assim na posse de Afonso Henriques, mas os almóadas resistiam na sua alcáçova, quando um exército enviado de Marrocos para a socorrer chegou a Sevilha, onde foi recebida a “boa nova que Fernando, chamado o Baboso, filho de Afonso, o rei pequeno, senhor de Ciudad-Rodrigo e de Ávila e de Leão e de Zamora, tinha chegado com a sua gente e a sua multidão de cavalaria e infantaria” para ajudar os muçulmanos. Ao saberem desta situação, os almóadas que estavam na alcáçova abriram um buraco na muralha e saíram para abrir as portas da cidade para deixar entrar o exército de Fernando, o Baboso. (IBN SÂHIB AL-SALÂ 1969: 143-144)
No combate que se segue as forças de Afonso Henriques são atacadas em duas frentes. Pelos leoneses do lado de fora das muralhas e pelos almóadas que ainda resistiam na alcáçova. Os portugueses são obrigados a retirar. Durante a fuga, o rei de Portugal parte a perna no ferrolho da porta da cidade, perde os sentidos e é transportado pelos seus para um lugar próximo chamado Caia.

Muralhas de Badajoz
Ibn Salih conta assim o episódio:
“Os companheiros de Fernando o Baboso esforçaram-se com os muçulmanos contra o exército de Ibn ar-Rink, até que Deus os derrotou para sorte do Príncipe dos Crentes, e Ibn ar-Rink fugiu vencido, e quando quis sair pela porta da cidade de Badajoz, inquieto e presa do medo violento, estava a barra da porta da cidade atravessada e tinha Deus disposto que estivesse rodeado dos seus soldados, e apressou-se o maldito Ibn ar-Rink para a saída, e na pressa de fugir e abrir caminho, rompeu na barra da porta a sua coxa direita, e caiu no local desvanecido, e foi transportado pelos infiéis seus companheiros para um local conhecido por Caia, nas cercanias de Badajoz, e foi seguido pelos generais de Fernando o Baboso; conduziram-no preso até ele e o pôs a ferros; logo o soltou a pedido dos cristãos e deixou-o regressar a Coimbra, sua capital, vencido e humilhado, e desde esse dia, mão mais montou a cavalo até que morreu e Deus meteu-o no fogo (do inferno)”. (IBN SÂHIB AL-SALÂ 1969: 144)
Ibn Khaldoun também relata o acontecimento:
“O Califa Abû Yacub, tendo reafirmado a sua autoridade em África, voltou a sua atenção para a Hispânia cuja situação lhe parecia exigir a retoma da guerra santa. O maldito inimigo tinha surpreendido sucessivamente as cidades de Trujilho, Évora, a fortaleza de Chebrina, a de Djelmania situada face a Badajoz e, de seguida, a própria cidade de Badajoz. Esta notícia alarmante fez o Califa decidir enviar a elite do exército almóada, sob as ordens do xeque Abû Hafs. No ano de 564 (1169), este general marchou para libertar Badajoz. Chegado a Sevilha, soube que a guarnição almóada de Badajoz, tendo sido socorrida por Fernando II, filho de Afonso VIII tinha vencido e aprisionado Ibn er-Renk (D. Afonso Henriques), que a tinha cercado, e que Ibn Djeranda (Giraldo) o Galego, tinha fugido para a sua fortaleza.” (IBN KHALDOUN 1927: 198-199)
“A Portugal regressou um soberano cansado e envelhecido, doente e incapaz”. (PEREIRA, 2008, pág. 57)
Entregou o comando das operações militares do reino ao seu filho Sancho e a responsabilidade de defesa da fronteira Sul aos Templários.
Fernando II de Leão devolve Badajoz aos almóadas e recupera as praças da actual Extremadura espanhola. Afinal a grande ameaça da expansão do Reino de Leão para Sul eram os portugueses. “A posse portuguesa de Badajoz e um hipotético senhorio de Geraldo aí implantado significavam para os leoneses o encerramento da sua via natural de expansão. A única disponível.” (PEREIRA, 2008, pág. 59)

Juromenha, quartel-general de Giraldo
Após a conquista falhada de Badajoz por Afonso Henriques, na qual o rei de Portugal parte a perna no ferrolho da cidade e retira-se para Coimbra para não mais voltar a combater, Geraldo sente-se abandonado e proclama a independência do seu pequeno reino Alentejano. É derrotado pelos almóadas e converte-se ao Islão, começando a fazer guerra aos cristãos.
Mas Geraldo é desterrado para Marrocos onde, aliciado pelos de Portugal, prepara nova traição contra os muçulmanos, sendo executado. “Descobriu-se o seu projecto e foi posto à morte, cortando-lhe a cabeça para acabar com os seus manejos.” (HUICI MIRANDA, 1917, obra citada)
Este período é também célebre pela actividade de Gonçalo Mendes da Maia, o “Lidador”, cognome que ganhou pela sua coragem feitos heróicos. Gonçalo Mendes era natural da cidade da Maia, junto ao Porto, e partilhava com Afonso Henriques o ideal da cavalaria espiritual, sendo um dos seus maiores amigos e companheiros. Segundo reza a história Gonçalo Mendes morreu a combater os muçulmanos no dia em que completava 95 anos.

A Giralda, minarete da Mesquita Maior de Sevilha
Abd al-Mumin morreu em 1163, sucedendo-lhe o seu filho Abu Yaqub Yusuf b. ‘Abd al-Mumin, que fez duas incursões no al-Andalus, tendo reposto a capital em Sevilha e construído a mesquita e o seu minarete, em 1176, que foi terminado pelo seu filho. Na sua segunda travessia atacou o “país do Oeste”, sitiando Santarém em 1184. Morreu de feridas que sofreu durante o cerco de Santarém, e foi trasladado a Rabat el-Fath e posteriormente a Tinmallal e enterrado junto ao seu pai. (HUICI MIRANDA 1952: 188)
Sucedeu-lhe o seu filho Abu Yusuf Yaqub al-Mansur bi-llah, que fez duas incursões no al-Andalus. Na primeira, em 1190, conquistou Silves, Évora e Torres Novas, sendo travado em Tomar por Gualdim Pais, após o que regressou a Sevilha, e em 1191, conquistou Alcácer do Sal e ocupou os castelos de Palmela, Coina e Almada.
Na segunda incursão, em 1195, derrotou os cristãos na Batalha de Alarcos e em 1196 conquistou Montánchez, Trujillo, Santa Cruz, Plasencia e Talavera. No ano seguinte atacou Maqueda, Toledo, Oreja, Madrid, Alcalá de Henares, Guadalajara, Huete, Uclés, Cuenca e Alarcón. (VIGUERA MOLÍNS 1992: 291-292)
Morreu em 1199 e foi enterrado em Tinmallal. Sucedeu-lhe o seu filho Abh ‘Abd Allah Muhammad an-Nasir a-Din bi-Allah.
Em 16 de Agosto de 1212 travou-se a Batalha de Navas de Tolosa, Na Serra Morena, na qual o exército de An-Nasir ad-Din foi desbaratado por uma coligação cristã, que integrava Afonso VIII de Castela, Sancho de Navarra e Pedro de Aragão, e as ordens militares de Santiago, Calatrava, Hospitalários e Templários. Navas de Tolosa marcam o fim do domínio almóada na Península, que volta a fraccionar-se em Reinos de Taifas, destacando-se líderes como Ibn Hüd ou Zayyán b. Mardanis.
Ibn Idari relata este período desta forma, referindo-se à situação em 1228: “estalou a revolta no al-Andalus: a maioria do país e os seus notáveis e os seus soldados reconheceram obediência a Ibn Hud, retirando-a aos almóadas. A quem matavam por todo o lado e expulsavam e exterminavam, salvando-se apenas aqueles que com a ajuda de Deus conseguiam esconder-se”. (IBN IDARI 1953: 288)
Em Marrocos o domínio almóada terminaria em 1268 com a sua derrota frente a uma nova dinastia emergente, os Merinidas.
Bibliografia:
AL-HIMYARI (1963). Kitab al-Rawd al-Mi’tar. Traduzido por M.ª Pilar Maestro González. In Textos Medievales, 10. Valência: Gráficas Bautista
AL-MAKKARI (1843). History of the Mohammedan Dinasties in Spain. Vol. II. London: Oriental Translation Fund
AL-MAKKARI (1855-1859). Analectes sur l’histoire et la littérature des arabes d’Espagne. Publiés par R. Dozy, G. Dugat, L. Krehl et W. Wright. Leiden: E. J. Brill
COELHO, António Borges (1989). Portugal na Espanha Árabe. Lisboa: Editorial Caminho
DOMINGUES, José Garcia (1997). Portugal e o Al-Andalus. Lisboa: Hugin
DOMINGUES, José Garcia (2006). “O Xarajibe de Silves na Poesia, na Arte e na História”. In Revista Xarajib nº 5. Silves: Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves
DOMINGUES, José Garcia [1945] (2010). História Luso-Árabe. Silves: Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves
DOZY, R. P. A. (1847). Notices sur quelques manuscrits arabes. Leiden: Brill
DOZY, R. (1861). Histoire des Musulmans d’Espagne jusqu’à la conquête de l’Andalousie par les Almoravides (711-110). Tome Quatrième. Leiden : E. J. Brill
DOZY, R. (1881). Recherches sur l’Histoire et la Littérature de l’Espagne Pendant le Moyen Age. Tome second. Paris : Maisonneuve
EL-BEKRI (1859). Description de l’Afrique Septentrionale. Traduzido por Mac Guckin de Slane. Paris: Imprimerie Impériale
HUICI MIRANDA, Ambrosio (1917). El Anónimo de Madrid y Copenhague. Valência: Instituto General y Técnico de Valencia
HUICI MIRANDA, Ambrosio (1952). “Al-Hulal Al Mawsiyya” Crónica Árabe de las Dinastías Almorávide, Almohade y Benimerin. Tetuan: Editora Marroquí
KENEDY, Hugh (1996). Muslim Spain and Portugal, a Political History of al-Andalus. New York: Routledge
IBN IDÂRI AL-MARRAKUSHI (1953). Kitāb al-bayān al-mughrib fī ākhbār mulūk al-andalus wa’l-maghrib. Los Almohades tomo I. Edição e tradução de Huici Ambrosio. Tetuan: Editora Marroquí
IBN KHALDOUN (1927). Histoire des Berberes et des Dynasties Musulmanes de l’Afrique Septentrionale. Traduite de l’Arabe par le Baron de Slane. Tome 2. Paris : Librairie Orientaliste
IBN SÂHIB AL-SALÂ (1969). Al-Mann bil-Imâma. Estudio preliminar, traducción y índices por Ambrosio Huici Miranda. Textos Medievales, 24. Valência: Anubar
LOURINHO, Inês (2020). Fronteira do Gharb al-Andalus: Terreno de Confronto entre Almorávidas e Cristãos (1093-1147). Lisboa: Centro de História da Universidade de Lisboa
PEREIRA, Armando de Sousa (2008). Geraldo Sem Pavor. Um guerreiro de fronteira entre cristãos e muçulmanos – c. 1162-1176. Porto: Fronteira do Caos Editores, Lda.
VIGUERA MOLÍNS, María Jesús (1992). Los Reinos de Taifas y las Invasiones Magrebíes (Al-Andalus del XI al XIII). Colecciones Mapfre. Madrid: Editorial Mapfre









































































































































































Pingback: Histórias de Portugal em Marraquexe | Histórias de Portugal em Marrocos
Penso que redigiu um estudo exemplar. Apenas aponto como relatou o desfecho de Geraldo, o sem pavor, uma vez que estudos redigidos atualmente afirmam que este de facto encontrou-se capturado, simultaneamente a D. Afonso Henriques aquando da tentativa da tomada de Badajoz. Captura esta por D. Fernando II de Leão que, como bem sabem, deslocou-se para Badajoz quando soube da tentativa de tomada portuguesa (esta que apena não se realizou porque as forças almorávidas se sediaram no interior do castelo, conseguindo atrasar as forças da coroa portuguesa.)
É fácil explicar o envolvimento de D, Fernando II, uma vez que a posse lusitana de Badajoz traduzia que este não se podia expandir para sul.
Quando este capturou Geraldo e D. Afonso Henriques ofereceu-lhes imediatamente liberdade, em troca do cessar da investida portuguesa em Badajoz.
(note-se que estes apenas foram capturados pois quando D. Fernando II chegou a Badajoz, “obrigou”, devido ao magno exército a seu dispor, às forças portuguesas apressar uma retirada. Entre a Bruma de confusão, o rei cai do cavalo e parte a perna. Nisto, seus homens e Geraldo, aconpanharam-no â margem de um afluente (cujo o nome não me lembro, talvez o Ardilla) e é nesse momento que são capturados, isto é pelo menos pelas fontes que consulto, consultei e me recomendaram).
Obrigado pelo seu comentário. Deixo-lhe aqui o link de outro artigo que poderá esclarecer melhor a minha posição sobre o assunto:
Cumprimentos
Muito obrigado pela resposta, irei ver o link que dispôs.
Com os melhores cumprimentos.
Concordo em absoluto, condenando todas as razões possíveis para que tivesse sido e ainda seja assim, politicamente, inclusive, e quanto !
Gostei de ler, já vai sendo altura de conhecer a história sob outra perspectiva…
Uma parte da nossa história que muitos portugueses renegam como sua