
Torre Aben Afan da Alcáçova de Silves
Al-Andalus é o nome da Península Ibérica durante o período árabe. O termo poderá ter origem em vandalicia, designação da Bética Romana ocupada pelos Vândalos (DOZY 1881: 301); em landa hlauts, designação dada pelos Visigodos à Bética (HALM 1989: obra citada); no árabe jazirat al-andaluz, que significa ilha do atlântico (VALLVÉ BERMEJO 1986: obra citada). Gharb significa Ocidente. O Gharb al-Andalus coincide com os limites da antiga província romana da Lusitânia e corresponde sensivelmente ao atual território português arabizado/islamizado, abarcando parte da atual Extremadura espanhola e da Andaluzia Ocidental.

Castelo dos Mouros em Sintra
No ano de 711, Tariq ibn Zyad atravessa o Estreito de Gibraltar com um exército de “doze mil combatentes, originários de todas as cabilas do Magrebe (do árabe Maghrib ou Ocidental), acompanhados por vinte e sete homens árabes”. Derrota as forças do revoltoso Rodrigo, estimadas em 40.000 homens, na Batalha de Al-Bahira ou de Barbate no dia 19 de julho e na de Guadalete no dia 26 do mesmo mês, iniciando a ocupação do al-Andalus. (TAHIRI, 2019: 13)
Tariq respondia aos apelos de uma larga maioria da sociedade visigoda, protagonizados pelos descendentes do deposto rei visigodo Vitiza, pelo bispo Opa de Sevilha e pelo conde Julião, senhor de Ceuta. A Hispânia encontrava-se num estado caótico em termos políticos e sociais, a que se juntava a guerra civil. A campanha de Tariq e a que Mûssa ibn Nussair inicia no ano seguinte, conseguem ocupar a Península em apenas três anos, feito que os romanos tinham levado mais de 100 anos a alcançar.
Esta rapidez na ocupação do território e restabelecimento da ordem e da paz social deve-se ao facto de não ter existido uma invasão nem uma conquista, mas uma política de acordos e de garantia pelo respeito dos direitos e autonomia das comunidades existentes.
A chegada dos árabes não provocou grandes movimentos populacionais, integrando-se no seio dessas comunidades, garantindo a lealdade das suas chefias ao novo poder instituído ou substituindo-as, e os seus habitantes adotaram a cultura e os hábitos árabes, mas não se islamizaram massivamente, mantendo as suas religiões e a liberdade para as professarem (ALVES, 2001: 15 e 29-30).
Iniciaram-se assim dois processos que caminharam paralelamente a velocidades diferentes, a arabização e a islamização, que não resultaram de imposição pela força das armas, mas de um fenómeno de aculturação muito influenciado pela abertura de novos mercados e consequente circulação e fixação de novas pessoas, trazendo novos produtos e novas ideias. O grego e o latim foram sendo substituídos pelo árabe e, lentamente, o islão foi-se impondo como religião dominante. (TORRES 2008: 54)
Cláudio Torres exprime de forma curiosa o processo de conversão nesta sociedade multicultural: “O espelho dessa conversão, é a mudança de nome. O João passa a chamar-se Mohammed e torna-se muçulmano, apesar de os seus pais permanecerem cristãos.” (TORRES 2003: 35)

Mesquita de Córdova
O processo de islamização foi mais acentuado nas cidades. Sobretudo nas situadas a Sul de Santarém, porque a Norte mantiveram-se fortes comunidades cristãs arabizadas. O mesmo se passou no mundo rural, onde a islamização não ocorreu de forma evidente, como refere Cáudio Torres:
“Não temos uma única prova de que tenha existido uma mesquita nas zonas rurais. Temos sim igrejinhas que nalguns casos foram repartidas por cristãos e muçulmanos.” (TORRES 2017: 2)
Um exemplo flagrante deste processo de arabização sem conversão, é o da nobreza feudal e do próprio clero da região entre o Douro e o Mondego. Os nobres da região, dissidentes do Reino de Leão, eram vassalos do Califa de Córdova e integravam as tropas do célebre Almançor, tendo participado com ele na tomada de Santiago de Compostela, cujo saque foi posteriormente dividido na cidade de Lamego, principal cidade dos moçárabes na região do Douro. Há também notícia de que os bispos das cidades de Lamego, Braga, Coimbra, Idanha-a-Nova, Porto, Salamanca e Viseu eram eles próprios moçárabes. (PINTO 2004: 118-119)
A arabização dos povos Hispânicos, em termos da sua adoção da língua e costumes árabes, foi o elemento aglutinador e caracterizador da sociedade andalusina. (ALVES, [1987] 1991: 21)
“Aquando da conquista de Lisboa, quando entraram na cidade, os cavaleiros do Norte não notaram grande diferença entre muçulmanos, judeus ou cristãos. Falando a mesma língua, vestindo de igual modo e comportando-se de idêntica maneira mal se diferenciavam entre si.” (MACIAS e GÓMEZ 2006: 389)
A liberdade religiosa professada pelo islão nas cidades ocupadas tinha como base jurídica a Dhimma, pacto que permitia às comunidades das Religiões do Livro, cristã e judaica, conservarem a sua liberdade de culto, mediante o pagamento de um imposto e a sua garantia de respeito pelo islão. Segundo Oliveira Marques, “os bispos continuaram a residir em regiões pacíficas e bem organizadas”. (MARQUES, [1972] 1973: 32)

O Alhambra de Granada
Na Península, à data da chegada do islão, existiam duas confissões cristãs. Uma ariana, unitária, que negava a trindade, e outra romana, trinitária. Com a chegada do islão deu-se uma rápida integração das correntes unitárias, cristãos arianos e judeus, que passaram a gozar do mesmo estatuto social e fiscal através da Dhimma. Ao invés, os cristãos romanos protagonizaram a resistência ao islão e constituíram o grupo que foi despojado dos seus bens e refugiou-se nas Astúrias.
“Os arianos, depois chamados de moçárabes, na crença, sentir-se-iam, certamente, mais próximos de muçulmanos e de judeus, do que dos outros cristãos que tinham ido para as Astúrias.” (REI 2015: 19)
Esta identificação do cristianismo ariano com o islão, enquanto religiões unitárias, chegou a ter expressão numa tentativa de unificar os cultos cristão e muçulmano, levada a cabo por ‘Abd ar-Rahman Marwan al-Jilliqi, um mawlâ conhecido como o Galego, que construiu em Idanha uma basílica com esse objetivo. (TORRES 2009: entrevista citada)
“A partir do século XI, apesar de a islamização estar de facto consolidada apenas nos centros urbanos, toda a sociedade, mesmo a rural, estava sob sua influência, mais económica e ideológica do que política ou militar. Nesse momento, em quase todo o Garbe al-Andalus a língua árabe era já dominante no comércio e na vida citadina, ao contrário das zonas rurais, onde eram ainda maioritários os falares romances e um moçarabismo religioso repartido por várias correntes cristãs pouco respeitadoras da ortodoxia romana.” (TORRES 2008: 56)
Esclarecimento sobre dois conceitos anteriormente referidos:
Moçárabe com origem no árabe musta’rib ou arabizado, é o nome dado aos cristãos arabizados.
Mawlâ significa senhor e também protegido e designava os muçulmanos não árabes; Muwallâd significa renascido ou adoptado. São dois termos que se referem aos cristãos convertidos ao islão, normalmente chamados muladis.

Arcos lobulados no interior do Castelo de Silves
A importância da economia rural na sustentabilidade económica da cidade permitiu às elites visigodas, que dominavam o mundo rural, através de concessões e delegações de poder, manter os seus bens e, normalmente após a sua conversão e transformação em mawlas, chegar ao topo da hierarquia do poder ao lado dos árabes e dos berberes, apesar de estes últimos serem menos favorecidos.
As delegações de poder ocorriam a uma escala macro com as tribos árabes e berberes recém-chegadas, que mantinham a sua coesão e organização. A forma de ocupar politicamente o território pelas novas elites processava-se através da instalação tribal em determinada região, com dois tipos de apropriação _ a concessão pelo poder central das receitas fiscais desse território ou a própria concessão da propriedade das terras. (PICARD, 2000: 275)
A situação foi também regra para os berberes, instalados sobretudo a Norte de Coimbra, na zona da Serra da Estrela, no Médio Tejo e no Vale do Guadiana, se bem que no seguimento de violentas insurreições, já que o seu estatuto era inicialmente ambíguo e desfavorável. (PICARD, 2000: 279)
A concessão de terras processava-se através de fatwas, decisões jurídicas baseadas na lei islâmica.
No que se refere aos moçárabes, também existiam concessões e delegações de poder, se bem que de forma mais tímida e em momentos em que o poder central se encontrava em situações de fraqueza e necessitava de alianças. (PICARD, 2000: 283)
Os muladis não eram apenas uma comunidade do Al-Andalus, mas um grupo organizado, com grande influência política, económica e social, que influenciariam os destinos da Hispânia Muçulmana e inclusivamente o próprio conceito de identidade luso-árabe. Encontravam-se descontentes pelo facto serem muitas vezes tratados como muçulmanos de segunda categoria e devido a perseguições que eram movidas aos moçárabes, comunidade da qual provinham e com a qual mantinham estreitas relações.
Durante o período árabe, já existia no Gharb al-Andalus uma semente de identidade própria, “um estado de relativa autonomia que se aproximou, por vezes, de uma quase independência” (TORRES e MACIAS 1998: 20).

Gradeamento na entrada do Castelo de Silves
Bibliografia
ALVES, Adalberto [1987] (1991). O Meu Coração é Árabe. Lisboa: Editora Arcádia
ALVES, Adalberto (2001). A Herança Árabe em Portugal. Edição do Clube dos Coleccionadores dos Correios. Lisboa: CTT Correios de Portugal
DOZY, R. (1881). Recherches sur l’Histoire et la Littérature de L’Espagne pendant le Moyen Âge, Tome premier. Paris: Maisonneuve & Co.
HALM, Heinz Halm (1989), “Al-Andalus und Gothica Sors”, in Der Islam nº 66, pp. 252-263. Berlin: Walter de Gruyter
MACIAS, S. e GÓMEZ, S. (2006). “La especicidad del Garb al-Andalus y su expresión en la vajilla almohade”, in Los almohades: problemas y perspectivas, vol 1, pp. 387-409, dir. CRESSIER, P., FIERRO, M. y MOLINA, L. Madrid: Casa de Valázquez
MARQUES, A. H. de Oliveira [1972] (1973). História de Portugal. Volume I. Lisboa: Edições Ágora
PICARD, Christophe (2000). Le Portugal musulman (VIIIe-XIIIe siècle). L’Occident d’al-Andalus sous domination islamique. Paris : Maisonneuve & Larose
PINTO, Manuel da Cerveira (2004). O Douro no Garb al-Andalus. A região de Lamego durante a presença árabe. Dissertação de mestrado em Património e Turismo. Universidade do Minho
REI, António (2015). “Moçárabe, Conceitos e Realidades Cultural e Social (Séculos VIII – XII). In Xarajib n.º 8, pp. 13-27. Silves: Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves
TAHIRI, Ahmed [2011] (2019). Fath Al-Andalus o las luces del Islam en Occidente. Sevilha: Edição do autor
TORRES, Cláudio (2003). “Mito da Invasão”. In Jornal Público, 31 de Agosto de 2003, p. 35
TORRES, Cláudio (2008). “O Mediterrâneo em vésperas da Islamização”, in LUSA – A matriz portuguesa, pp. 50-57. Brasília: Centro Cultural Banco do Brasil
TORRES, Cláudio (2009). “Cristãos e muçulmanos em Portugal, quando não havia “eles” e “nós”. In Jornal Público, 17 de Janeiro de 2009
TORRES, Cláudio (2017). “O islão não foi imposto à espadeirada”. In Revista Sábado, 14 de Dezembro de 2017
TORRES, Cláudio e MACIAS, Santiago (1998). O Legado Islâmico em Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores
VALLVÉ BERMEJO, Joaquín (1986). La división territorial de la España musulmana. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, Instituto de Filología, Departamento de Estudios Árabes









































































































































































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