
A sociedade do Al-Andalus era uma sociedade multi-étnica e multi-religiosa, na qual coabitavam diversas comunidades, Árabes, Berberes, Judaicas, Hispano-romanas e Hispano-godas, que, na sua generalidade se arabizaram, ou seja, passaram a falar a língua árabe e adoptaram os costumes árabes.
Este processo de arabização não teve correspondência num processo de islamização com as mesmas características, já que muitos habitantes mantiveram as suas religiões e gozaram do direito para as professarem.

Mapa do al-Andalus de Al-Idrisi, século XII (detalhe do Mapa Mundi). Nota: o mapa encontra-se orientado no sentido Sul
No ano de 711, Tariq ibn Zyad atravessa o Estreito de Gibraltar com um exército de “doze mil combatentes, originários de todas as cabilas do Magrebe (do árabe Maghrib ou Ocidental), acompanhados por vinte e sete homens árabes”. Derrota as forças do revoltoso Rodrigo, estimadas em 40.000 homens, na Batalha de Al-Bahira ou de Barbate no dia 19 de julho e na de Guadalete no dia 26 do mesmo mês, iniciando a ocupação do al-Andalus. (TAHIRI, 2019: 13)
Al-Andalus é o nome da Península Ibérica durante o período árabe. O termo poderá ter origem em vandalicia, designação da Bética Romana ocupada pelos Vândalos (DOZY 1881: 301); em landa hlauts, designação dada pelos Visigodos à Bética (HALM 1989: obra citada); no árabe jazirat al-andaluz, que significa ilha do atlântico (VALLVÉ BERMEJO 1986: obra citada). Gharb significa Ocidente. O Gharb al-Andalus coincide com os limites da antiga província romana da Lusitânia e corresponde sensivelmente ao atual território português arabizado/islamizado, abarcando parte da atual Extremadura espanhola e da Andaluzia Ocidental
Tariq respondia aos apelos de uma larga maioria da sociedade visigoda, protagonizados pelos descendentes do deposto rei visigodo Vitiza, pelo bispo Opa de Sevilha e pelo conde Julião, senhor de Ceuta. A Hispânia encontrava-se num estado caótico em termos políticos e sociais, a que se juntava a guerra civil. A campanha de Tariq e a que Mûssa ibn Nussair inicia no ano seguinte, conseguem ocupar a Península em apenas três anos, feito que os romanos tinham levado mais de 100 anos a alcançar.
Esta rapidez na ocupação do território e restabelecimento da ordem e da paz social deve-se ao facto de não ter existido uma invasão nem uma conquista, mas uma política de acordos e de garantia pelo respeito dos direitos e autonomia das comunidades existentes.

A chegada dos árabes não provocou grandes movimentos populacionais, integrando-se no seio dessas comunidades, garantindo a lealdade das suas chefias ao novo poder instituído ou substituindo-as, e os seus habitantes adotaram a cultura e os hábitos árabes, mas não se islamizaram massivamente, mantendo as suas religiões e a liberdade para as professarem (ALVES, 2001: 15 e 29-30).
Iniciaram-se assim dois processos que caminharam paralelamente a velocidades diferentes, a arabização e a islamização, que não resultaram de imposição pela força das armas, mas de um fenómeno de aculturação muito influenciado pela abertura de novos mercados e consequente circulação e fixação de novas pessoas, trazendo novos produtos e novas ideias. O grego e o latim foram sendo substituídos pelo árabe e, lentamente, o islão foi-se impondo como religião dominante. (TORRES 2008: 54)
Cláudio Torres exprime de forma curiosa o processo de conversão nesta sociedade multicultural: “O espelho dessa conversão, é a mudança de nome. O João passa a chamar-se Mohammed e torna-se muçulmano, apesar de os seus pais permanecerem cristãos.” (TORRES 2003: 35)
O processo de islamização foi mais acentuado nas cidades. Sobretudo nas situadas a Sul de Santarém, porque a Norte mantiveram-se fortes comunidades cristãs arabizadas. O mesmo se passou no mundo rural, onde a islamização não ocorreu de forma evidente, como refere Cáudio Torres:
“Não temos uma única prova de que tenha existido uma mesquita nas zonas rurais. Temos sim igrejinhas que nalguns casos foram repartidas por cristãos e muçulmanos.” (TORRES 2017: 2)
Um exemplo flagrante deste processo de arabização sem conversão, é o da nobreza feudal e do próprio clero da região entre o Douro e o Mondego. Os nobres da região, dissidentes do Reino de Leão, eram vassalos do Califa de Córdova e integravam as tropas do célebre Almançor, tendo participado com ele na tomada de Santiago de Compostela, cujo saque foi posteriormente dividido na cidade de Lamego, principal cidade dos moçárabes na região do Douro. Há também notícia de que os bispos das cidades de Lamego, Braga, Coimbra, Idanha-a-Nova, Porto, Salamanca e Viseu eram eles próprios moçárabes. (PINTO 2004: 118-119)
A arabização dos povos Hispânicos, em termos da sua adoção da língua e costumes árabes, foi o elemento aglutinador e caracterizador da sociedade andalusina. (ALVES, [1987] 1991: 21)
“Aquando da conquista de Lisboa, quando entraram na cidade, os cavaleiros do Norte não notaram grande diferença entre muçulmanos, judeus ou cristãos. Falando a mesma língua, vestindo de igual modo e comportando-se de idêntica maneira mal se diferenciavam entre si.” (MACIAS e GÓMEZ 2006: 389)

A liberdade religiosa professada pelo islão nas cidades ocupadas tinha como base jurídica a Dhimma, pacto que permitia às comunidades das Religiões do Livro, cristã e judaica, conservarem a sua liberdade de culto, mediante o pagamento de um imposto e a sua garantia de respeito pelo islão. Segundo Oliveira Marques, “os bispos continuaram a residir em regiões pacíficas e bem organizadas”. (MARQUES, [1972] 1973: 32)
Na Península, à data da chegada do islão, existiam duas confissões cristãs. Uma ariana, unitária, que negava a trindade, e outra romana, trinitária. Com a chegada do islão deu-se uma rápida integração das correntes unitárias, cristãos arianos e judeus, que passaram a gozar do mesmo estatuto social e fiscal através da Dhimma. Ao invés, os cristãos romanos protagonizaram a resistência ao islão e constituíram o grupo que foi despojado dos seus bens e refugiou-se nas Astúrias.
“Os arianos, depois chamados de moçárabes, na crença, sentir-se-iam, certamente, mais próximos de muçulmanos e de judeus, do que dos outros cristãos que tinham ido para as Astúrias.” (REI 2015: 19)
Esta identificação do cristianismo ariano com o islão, enquanto religiões unitárias, chegou a ter expressão numa tentativa de unificar os cultos cristão e muçulmano, levada a cabo por ‘Abd ar-Rahman Marwan al-Jilliqi, um mawlâ conhecido como o Galego, que construiu em Idanha uma basílica com esse objetivo. (TORRES 2009: entrevista citada)
“A partir do século XI, apesar de a islamização estar de facto consolidada apenas nos centros urbanos, toda a sociedade, mesmo a rural, estava sob sua influência, mais económica e ideológica do que política ou militar. Nesse momento, em quase todo o Garbe al-Andalus a língua árabe era já dominante no comércio e na vida citadina, ao contrário das zonas rurais, onde eram ainda maioritários os falares romances e um moçarabismo religioso repartido por várias correntes cristãs pouco respeitadoras da ortodoxia romana.” (TORRES 2008: 56)

Esclarecimento sobre dois conceitos anteriormente referidos:
Moçárabe com origem no árabe musta’rib ou arabizado, é o nome dado aos cristãos arabizados.
Mawlâ significa senhor e também protegido e designava os muçulmanos não árabes; Muwallâd significa renascido ou adoptado. São dois termos que se referem aos cristãos convertidos ao islão, normalmente chamados muladis.
A importância da economia rural na sustentabilidade económica da cidade permitiu às elites visigodas, que dominavam o mundo rural, através de concessões e delegações de poder, manter os seus bens e, normalmente após a sua conversão e transformação em mawlas, chegar ao topo da hierarquia do poder ao lado dos árabes e dos berberes, apesar de estes últimos serem menos favorecidos.
As delegações de poder ocorriam a uma escala macro com as tribos árabes e berberes recém-chegadas, que mantinham a sua coesão e organização. A forma de ocupar politicamente o território pelas novas elites processava-se através da instalação tribal em determinada região, com dois tipos de apropriação _ a concessão pelo poder central das receitas fiscais desse território ou a própria concessão da propriedade das terras. (PICARD, 2000: 275)
A situação foi também regra para os berberes, instalados sobretudo a Norte de Coimbra, na zona da Serra da Estrela, no Médio Tejo e no Vale do Guadiana, se bem que no seguimento de violentas insurreições, já que o seu estatuto era inicialmente ambíguo e desfavorável. (PICARD, 2000: 279)
A concessão de terras processava-se através de fatwas, decisões jurídicas baseadas na lei islâmica.
No que se refere aos moçárabes, também existiam concessões e delegações de poder, se bem que de forma mais tímida e em momentos em que o poder central se encontrava em situações de fraqueza e necessitava de alianças. (PICARD, 2000: 283)
Os muladis não eram apenas uma comunidade do Al-Andalus, mas um grupo organizado, com grande influência política, económica e social, que influenciariam os destinos da Hispânia Muçulmana e inclusivamente o próprio conceito de identidade luso-árabe. Encontravam-se descontentes pelo facto serem muitas vezes tratados como muçulmanos de segunda categoria e devido a perseguições que eram movidas aos moçárabes, comunidade da qual provinham e com a qual mantinham estreitas relações.
Durante o período árabe, já existia no Gharb al-Andalus uma semente de identidade própria, “um estado de relativa autonomia que se aproximou, por vezes, de uma quase independência” (TORRES e MACIAS 1998: 20).

Nos finais do século IX o Al-Andalus era governado pelo Emirato de Córdoba, fundado pelo príncipe Omíada Abd Ar-Rahman. No ano de 875 revolta-se ‘Abd ar-Rahman Ibn Maruan, o Galego, muladi de Mérida que estabelece em Badajoz e Marvão um reino independente que duraria até ao ano de 925. António Borges Coelho apelida Ibn Maruan de renegado e aliado dos politeístas:
”A sua revolta foi acompanhada por um outro renegado de nome Sadune Xurumbaqui. Na primeira batalha travada contra o poder do emirato de Cordoba derrotaram o príncipe herdeiro Almondir e aprisionaram o general Haxime, que entregaram a Afonso III. O emir Mohamed I pagou pelo general um resgate de 150.000 dinares. Fundou a cidade de Badajoz, que era a sua capital, e Marvão.” (COELHO 1989: 149-153)
A revolta de Ibn Maruan daria início a revoltas generalizadas protagonizadas por muladis. Levi-Provençal refere que os muwallads ou muladis constituíam “a parte mais importante da população do Reino de Córboba. A sua islamização foi rápida; ao fim de algumas gerações era difícil distingui-los dos Muçulmanos imigrados. Foi sobretudo a partir do reinado de ‘Abd ar-Rahman II que o seu número aumentou, no seguimento de novas e numerosas conversões ao Islão”. (LÉVI-PROVENÇAL 1996: 19)
No ano de 879 revolta-se Omar Ibn Hafsune de Bobastro, ao qual se juntaram de imediato muitos outros, como Ibn Meruan de Mérida, Sadune Ibn Fatah de Coimbra, Abd Al-Malike Ibn Jauade de Beja e Yahia Ben Bakr de Ukshunuba (Iáhia ben Becre de Faro).
Iáhia era um muladi de recente conversão ao Islão, neto de um moçárabe chamado Rudolfo. No seguimento da sua revolta fortifica a cidade de Faro, construindo as actuais muralhas da Vila-a-Dentro, dotando-a de fortes portas, e muda o seu nome para Xantamarya Al-Gharb ou Santa Maria do Ocidente. O governo dos Becres no Algarve duraria perto de 50 anos. (DOMINGUES, 2010: 97-102)
A Iáhia Ben Becre sucede o seu filho Becre Ben Iáhia, monarca que embora mantendo Santa Maria do Ocidente como base da sua revolta, tornou Silves a sua capital, transferindo para aí a chancelaria (mexuar) e o conselho de estado (diwan). É neste momento que Silves adquire grande notoriedade. (DOMINGUES 1947: 47)
“Engrandeceu a cidade de Silves, onde instalou uma chancelaria, um conselho de estado e tropas numerosas, bem equipadas e armadas e acostumadas à disciplina”. (DOMINGUES 2010: 100)

No ano de 929, o Emir de Córdoba ‘Abd ar-Rahman III an-Nassir proclama-se Califa, amir al-mu’minin ou Príncipe dos Crentes.
“Esta mudança não tinha apenas um valor moral para o conjunto do mundo muçulmano, mas colocava o monarca num patamar muito mais elevado em relação aos seus súbditos, já que aliava ao poder político, o poder espiritual.” (LÉVI-PROVENÇAL 1996: 47)
A Becre Ben Iáhia sucede Calafe Ben Becre, que apesar de garantir a independência em relação ao Califa de Córdoba, apoia-o e colabora com ele na guerra que travam contra os invasores Normandos, assegurando a vitória muçulmana na célebre batalha do Arade no ano 966.
Com a submissão dos restantes muladis revoltosos, a derrota do Al-Gharb é inevitável, mas o prestígio dos Becres, o apoio que granjeiam na população e as próprias relações de cordialidade que mantêm com o Emirato e posterior Califado ao longo do período da revolta, permitem a Calafe continuar no poder, submetendo-se à autoridade do Califa de Córdoba ‘Abd ar-Rahman III.
Durante o governo dos Becres, o Al-Gharb torna-se num local de peregrinação para os Cristãos de toda a Hispânia Muçulmana, que afluem aos seus dois santuários, o de Santa Maria em Faro e o de S. Vicente no Promontório Sacro (Sagres). Sagres já era desde os finais do século IX um importante local de peregrinação cristã, altura em que são trazidos por mar, desde Valência, e aí depositados, os restos mortais do mártir S. Vicente. O culto cristão em Faro é celebrado numa Igreja e há notícia de que os seus bispos participavam em concílios.

Gravura de Faro no século XVII
O geógrafo Al-Idrisi descreve assim Faro no século XII (tradução do autor deste artigo a partir do francês):
“Esta cidade está edificada à beira do Oceano Imenso (al-Bahr al-A’zam) e as suas muralhas são banhadas pela ondulação na maré alta. É de tamanho mediano e muito bonita; tem uma mesquita principal, uma igreja catedral e uma pequena mesquita; há na cidade um vai e vem de navios. A região produz muitos figos e uvas”. (AL-IDRISI [1154?) 1999: 262)
Al-Iacute, autor do século XIII, descreve assim Faro:
“Santa Maria é uma cidade antiga; nela existe uma igreja da qual disse Ahmed, filho de Omar Aludri, que era um soberbo edifício; as suas magníficas e alvas colunas não têm rival em nenhuma outra parte, quer pelo extraordinário comprimento, quer pela sua largura, e um homem não era capaz de abraçar a uma delas. Há nesta cidade uma fonte que vista de longe parece indubitavelmente uma donzela e desde que o observador se aproxima e aplica a vista, o não é de modo nenhum, mas quando ele se afasta de novo torna a parecer uma donzela. É um facto bem conhecido de todos os naturais da terra e dos que a ela vão”. (DOMINGUES 2010: 104)

No Milagre de Santa Maria, incluído nas Cantigas de Afonso X, o Sábio, durante o reinado de Aben Afan, último Rei Mouro do Algarve, uma imagem de Santa Maria que se encontrava nas muralhas da cidade foi atirada ao mar, após o que desapareceu o pescado das águas junto a Faro. Quando os moradores voltaram a colocá-la entre as ameias, o pescado regressou:
Cantiga 183: Pesar há Santa María de quen por desonrra faz
Esta é dun miragre que mostrou Santa María en Faarôn quando éra de mouros.
Pesar há Santa María | de quen por desonrra faz
dela mal a sa omagen, | e caomia-llo assaz.
Desto direi un miragre | que fezo en Faarôn
a Virgen Santa María | en tempo d’ Abên Mafôn,
que o reino do Algarve | tiínn’ aquela sazôn
a guisa d’ hóm’ esforçado, | quér en guérra, quér en paz.
Pesar há Santa María | de quen por desonrra faz…
En aquel castél’ havía | omagen, com’ apres’ hei
da Virgen mui grorïosa, | feita como vos direi
de pédra ben fegurada, | e, com’ éu de cért’ achei,
na riba do mar estava | escontra ele de faz.
Pesar há Santa María | de quen por desonrra faz…
Ben do tempo dos crischãos | a sabían i estar,
e porende os cativos | a ían sempr’ aorar,
e Santa Marí’ a vila | de Faarôn nomẽar
por aquesta razôn foron. | Mas o póboo malvaz
Pesar há Santa María | de quen por desonrra faz…
dos mouros que i havía | houvéron gran pesar ên,
e eno mar a deitaron | sannudos con gran desdên;
mas gran miragre sobr’ esto | mostrou a Virgen que ten
o mund’ en séu mandamento, | a que soberva despraz.
Pesar há Santa María | de quen por desonrra faz…
Ca fez que nïún pescado | nunca podéron prender
enquant’ aquela omagen | no mar leixaron jazer.
Os mouros, pois viron esto, | fôrona dalí erger
e posérona no muro | ontr’ as amẽas en az.
Pesar há Santa María | de quen por desonrra faz…
Des i tan muito pescado / houvéron des entôn i,
que nunca tant’ i houvéran, / per com’ a mouros oí
dizer e aos crischãos / que o contaron a mi;
porên loemos a Virgen / en que tanto de ben jaz.
Pesar há Santa María / de quen por desonrra faz
d’ela mal a ssa omagem, / et caómia-ll’ – o assaz.
(CASSON 2019: http://www.cantigasdesantamaria.com/csm/183)
Iluminura das Cantigas de Afonso X ilustrando o milagre de Santa Maria
A tradução em prosa da autoria de Francisco Fernandes Lopes é a seguinte:
“Santa Maria tem pesar de quem, em desonra dela, faz mal à sua imagem; e por isso humilha bastante quem assim procede.
Deste facto contarei um milagre que ela fez em Faro, em tempo de Aben Mafon (*) que naquela época era senhor do reino do Algarve, a modo de homem esforçado quer na guerra, quer na paz.
Naquele castelo havia, como eu vim a saber, uma imagem da Virgem gloriosíssima, feita, como vos direi, de pedra, bem figurada; e, como eu achei que era certo, estava na riba do mar, contra ele, de face.
Sabia-se que esta imagem estava ali já desde o tempo dos cristãos, e por isso, durante o domínio dos mouros, os cristãos, cativos deles, continuavam a vir adorá-la sempre; e por esta razão se chamar. À vila de Faro, Santa Maria. Mas o povo maldito dos mouros que aí havia teve grande arrelia com isso; e, irados, com grande desdém, deitaram a imagem ao mar. Mas grande milagre então fez a Virgem que manda no mundo e a quem desagrada a soberba; porque fez que nunca mais os mouros pudessem apanhar peixe nenhum enquanto deixaram ficar a sua imagem no mar. Os mouros, logo que viram isto, foram-na tirar dali e vieram pô-la na muralha, entre as ameias, em frente ao mar.
Desde então tiveram muito peixe, tanto como nunca tinham tido, conforme eu ouvi dizer a mouros e aos cristãos que mo contaram.
Por isso louvemos a Virgem em quem tanto bem reside.” (LOPES 1985: 59-60)
(*) Nota do autor deste artigo: trata-se de Aben Afan, último rei mouro do Algarve
A revolta dos Becres e a marca que deixa na história do Gharb Al-Andalus inicia o processo de afirmação da identidade Luso-Árabe, estabelecida territorialmente no actual Algarve e centrada em Silves como sua capital, identidade essa marcada pela heterogeneidade da sua sociedade, pela riqueza da sua cultura, pensamento e espiritualidade.
O estabelecimento inicial de uma forte comunidade de Árabes do Yémen, que aportariam à região uma pureza linguística e capacidade de expressão poética, contribuiu também para a singularidade cultural do Luso-Arabismo.
Eis um excerto da descrição de Silves por Al-Idrisi (tradução do autor deste artigo a partir do francês):
“Os seus moradores, assim como os habitantes das aldeias em volta são Árabes do Yémen e de outras origens, que falam um Árabe muito puro; e sabem também recitar versos, e são em geral eloquentes e distintos, quer façam parte das elites ou sejam cidadãos comuns. Os moradores do campo são em extremo generosos como nenhum outro povo”. (AL-IDRISI [1154?) 1999: 262)
O período das taifas que se seguiria ao governo dos Becres afirmaria os Banu Muzaine de Silves e os Beni Harun de Faro como poetas, poesia que atingiria o seu auge com a corte do Reino Abádida de Al-Mu’tamid Ibn ‘Abbad.
A identidade Luso-Árabe ficaria também marcada pelo misticismo religioso de Abû al-Qâsim Ahmed Ibn Qasî e das suas ligações ao misticismo cristão de Afonso Henriques.
Sobre Ibn Qasî escreveu Adalberto Alves:
“O pacto simbólico que então faz com D. Afonso Henriques sela o ideal sinárquico que une a cavalaria templária à cavalaria islâmica muridínica, afinal uma convergente cavalaria espiritual. É esse arco voltaico de natureza iniciática que liberta a sinergia donde Portugal virá a brotar”. (ALVES 2007: 75)

Bibliografia:
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ALVES, Adalberto [1987] (1991). O Meu Coração é Árabe. Lisboa: Editora Arcádia
ALVES, Adalberto (2001). A Herança Árabe em Portugal. Edição do Clube dos Coleccionadores dos Correios. Lisboa: CTT Correios de Portugal
ALVES, Adalberto. Portugal e o Islão Iniciático. Esquilo, 2007
CASSON, Andrew (2019). Cantigas de Santa Maria for Singers. Página electrónica. Disponível em http://www.cantigasdesantamaria.com/
COELHO, António Borges (1989). Portugal na Espanha Árabe. Vol. 2. Lisboa: Editorial Caminho
DOMINGUES, José Garcia. História Luso-Árabe. Centro de estudos Luso-Árabes de Silves, 2010
DOZY, R. P. A. (1847). Notices sur quelques manuscrits arabes. Leiden: Brill
DOZY, R. (1881). Recherches sur l’Histoire et la Littérature de L’Espagne pendant le Moyen Âge, Tome premier. Paris: Maisonneuve & Co.
HALM, Heinz Halm (1989), “Al-Andalus und Gothica Sors”, in Der Islam nº 66, pp. 252-263. Berlin: Walter de Gruyter
LÉVI-PROVENÇAL, E [1932] (1996). L’Espagne musulmane au Xème siècle – Institutions et vie sociale. Paris: Maisonneuve et Larose
LOPES, Francisco Fernandes (1985). A Música das Cantigas de Santa Maria e Outros Ensaios. Olhão: Câmara Municipal
MACIAS, S. e GÓMEZ, S. (2006). “La especicidad del Garb al-Andalus y su expresión en la vajilla almohade”, in Los almohades: problemas y perspectivas, vol 1, pp. 387-409, dir. CRESSIER, P., FIERRO, M. y MOLINA, L. Madrid: Casa de Valázquez
MARQUES, A. H. de Oliveira [1972] (1973). História de Portugal. Volume I. Lisboa: Edições Ágora
O PANORAMA: jornal litterário e instructivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis (1842). 2ª série, nº 50. Lisboa: Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, ed. com.
PAULA, Rui Mendes e Frederico Mendes. Faro, Evolução Urbana e Património. Câmara Municipal de Faro, 1993
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TORRES, Cláudio (2017). “O islão não foi imposto à espadeirada”. In Revista Sábado, 14 de Dezembro de 2017
TORRES, Cláudio e MACIAS, Santiago (1998). O Legado Islâmico em Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores
VALLVÉ BERMEJO, Joaquín (1986). La división territorial de la España musulmana. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, Instituto de Filología, Departamento de Estudios Árabes










































































































































































Excelente texto, repleto de informações , para mim, muito interessantes!
Obrigado. De qualquer forma é um texto já escrito há vários anos que tenho intenção de melhorar
Excelente descrição desse Algarve tão bonito e histórico!
A História é fascinante pelas descobertas que através dela fazemos de nós próprios